“Estamos, assistindo ao surgimento de uma economia que pensa como a floresta: integrada, complexa, resiliente. Do açaí à borracha, da fibra à plataforma digital, da pesquisa científica ao investidor global, a floresta em pé se converte em sistema produtivo e modelo de futuro. Um ecossistema de atores que mostra a Amazônia não apenas pelo que se conserva, mas pelo que se constrói a partir do respeito à sua lógica viva.”
Em meio aos desafios globais de financiar uma nova economia baseada na natureza, a Amazônia oferece ao mundo não apenas sua biodiversidade inigualável, mas também inteligência territorial e soluções inovadoras. Uma dessas soluções atende pelo nome de ForestiFi, a fintech de impacto que está conectando sistemas produtivos rurais amazônicos a mercados de investimento sustentáveis por meio da tecnologia blockchain.
Apoiadora da tokenização de ativos da bioeconomia, a startup foi eleita uma das mais inovadoras do mundo em sustentabilidade pela Change 100, campanha global promovida pela We Make Change, com apoio da Microsoft e Techstars.
O anúncio foi feito em Paris, durante o ChangeNOW, o maior evento internacional de soluções para o planeta. “Esse reconhecimento vem para validar o trabalho que viemos fazendo com a ForestiFi ao longo de pouco mais de um ano de operação, em que temos desenvolvido esse mecanismo alternativo de investimento nas cadeias produtivas da bioeconomia na Amazônia”, afirma o cofundador Macaulay Abreu.
Este passo não é isolado. Está em plena sintonia com um movimento mais amplo de diversificação industrial na Amazônia, impulsionado entre outros pela visão estratégica de fortalecer cadeias produtivas locais e ampliar a competitividade do Polo Industrial de Manaus (PIM). Dentro desse contexto, a incorporação de insumos regionais e o aproveitamento sustentável dos recursos da floresta têm sido alternativas cada vez mais exploradas por setores como o de plásticos e borracha.
Esta integração significa criar um ecossistema industrial onde diferentes setores possam se complementar, utilizando subprodutos e resíduos de um segmento como insumo para outro, ampliando a geração de empregos e reduzindo desperdícios.
O Papel dos Insumos Florestais na Indústria
Uma das iniciativas mais promissoras nesse movimento é a utilização de resíduos do açaí e da castanha como insumos para a indústria plástica. Empresas do setor já estão investindo na pesquisa e aplicação desses resíduos na fabricação de embalagens e produtos sustentáveis, reduzindo a dependência de matérias-primas de origem fóssil e promovendo maior circularidade na economia regional.
O setor da borracha também desponta como um exemplo relevante de diversificação, com o fortalecimento da produção local de látex natural. Esse processo pode não apenas reativar cadeias tradicionais, mas também agregar valor à borracha amazônica por meio de novos produtos e aplicações na indústria automotiva e calçadista, além de outras oportunidades promovidas pela conhecimento biotecnológico.
Adensamento e Bioeconomia como Estratégia
Além de gerar novos produtos e mercados, a diversificação industrial na Amazônia exige uma visão estratégica voltada para o adensamento da cadeia produtiva. Isso significa criar um ecossistema industrial onde diferentes setores possam se complementar, utilizando subprodutos e resíduos de um segmento como insumo para outro, ampliando a geração de empregos e reduzindo desperdícios.
Ecossistema da bioeconomia em expansão e integração
Esse processo conta com o protagonismo de instituições como o IDESAM (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia), parceiro da SUFRAMA em diversas iniciativas do campo da bioeconomia. O IDESAM tem sido vetor essencial de transformação ao articular soluções inovadoras com base em sistemas agroflorestais, justiça social e dinamismo econômico, com destaque para sua atuação na concepção e operação da AMAZ Aceleradora de Impacto, responsável pelo apoio a startups como a ForestiFi.
No campo das políticas públicas, a SUFRAMA tem desempenhado um papel central por meio do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), iniciativa que visa fomentar novas cadeias produtivas baseadas na biodiversidade amazônica, estimulando investimentos em pesquisa e inovação, conectando empresas, startups e centros de ciência da informática à bioeconomia.
Ciência que Vem da Floresta
Outro passo fundamental para consolidar essa estratégia é a retomada de parcerias institucionais com a Embrapa Amazônia Ocidental, cuja expertise pode acelerar o desenvolvimento de matérias-primas e tecnologias adaptadas à floresta. A integração entre ciência, indústria e saberes tradicionais é o que permitirá a criação de cadeias sustentáveis que combinem produção agrícola e conservação ambiental. Temos ainda que aplaudir os avanços e acertos das demais instituições, INPA, UFAM, UEA e os ICTs que integram este ecossistema que antecipa as utopias da sustentabilidade amazônica.
Adicionalmente, é justo e necessário lembrar o papel basilar do Impact Hub, iniciativa que impulsionou a gramática do empreender com sustentabilidade e desembaraço e o fator Polo Industrial de Manaus, engrenagem econômica que ampara o tecido social do Estado, contribuindo efetivamente para independência regional da velha economia predatória.
Estamos, assistindo ao surgimento de uma economia que pensa como a floresta: integrada, complexa, resiliente. Do açaí à borracha, da fibra à plataforma digital, da pesquisa científica ao investidor global, a floresta em pé se converte em sistema produtivo e modelo de futuro. Um ecossistema de atores que mostra a Amazônia não apenas pelo que se conserva, mas pelo que se constrói a partir do respeito à sua lógica viva.
A cada passo firme, como o reconhecimento internacional da ForestiFi, avançamos na direção de uma economia regenerativa, com identidade e vocação amazônica, integrada à indústria, à inovação e à cidadania.