COP26 – Brasil ignora compra de gado de área desmatada e apresenta JBS como caso de sucesso

Empresa teve pior resultado no controle de fornecedores no Pará, segundo MPF. Quase 1/3 do total comercializado pela JBS nos últimos anos no estado estava irregular

A gigante da indústria da carne JBS foi apresentada pelo governo brasileiro nesta quarta-feira (3), durante a Conferência do Clima da ONU, como um caso de sucesso em descarbonização no setor de proteína animal. A propaganda contraria o resultado das auditorias feitas pelo Ministério Público Federal no Pará, que colocam a empresa no topo do ranking dos frigoríficos no estado que mantêm relações com fornecedores ligados ao desmatamento ilegal na Amazônia. O desmatamento é o maior responsável pelas emissões de carbono do Brasil.

O evento, intitulado “Oportunidades para a pecuária brasileira na agenda global de descarbonização”, foi realizado no pavilhão brasileiro da Conferência do Clima e contou com a presença do Secretário Adjunto de Clima e Relações Internacionais do Brasil, Marcelo Freire, do CEO Global da JBS, Gilberto Tomazoni, e do presidente da Embrapa, Celso Moretti.

Em sua fala de apresentação, o Secretário Adjunto afirmou que os casos apresentados pelo país na COP são uma oportunidade de mostrar ao mundo que o Brasil já é uma economia verde e de baixo carbono. “Vamos demonstrar o quanto a pecuária brasileira já é hoje uma pecuária de excelência, baseada nas melhores técnicas e metodologias”, disse.

A última auditoria realizada pelo Ministério Público Federal do Pará para verificar o cumprimento do TAC (Termo de Ajuste de Conduta) da Carne mostrou que, entre 2018 e 2019, a JBS foi a signatária que mais comprou gado vindo de áreas no estado com alguma inconformidade, como desmatamento ilegal ou Cadastro Ambiental Rural (CAR) irregular.

O TAC da Carne, proposto em 2009 pelo MPF e atualmente assinado por 42 frigoríficos paraenses, proíbe os signatários de comprar gado de áreas desmatadas ilegalmente ou embargadas pelo Ibama a partir de agosto de 2008. Também estão proibidas compras de gado proveniente de áreas invadidas em terras indígenas, unidades de conservação e de empregadores na lista de trabalho escravo.

Segundo o MPF-PA, quase um terço (32%) do total de animais adquiridos pela JBS no Pará entre janeiro de 2018 e junho de 2019 – período analisado na última auditoria – continha evidências de irregularidades: foram mais de 300 mil cabeças de gado nessas condições, sendo que 285 mil provinham de imóveis com registro de desmatamento ilegal.

O índice representou uma alta em relação às auditorias anteriores. Em 2019, o índice de irregularidades da empresa foi de 8,3% e, em 2018, de 19,1%. Após a apresentação dos dados do MPF-PA, realizados no início de outubro, a empresa se comprometeu a duplicar seu sistema de auditoria dos fornecedores e destinar R$ 5 milhões ao governo paraense para melhorias dos sistemas.

Atualmente, a pecuária no Brasil representa 13 % dos negócios mundiais da JBS, empresa cujo faturamento chegou a US$ 57 bilhões nos últimos 12 meses, conforme detalhou o CEO do frigorífico.

“Case de sucesso”

Durante sua apresentação na COP26, Gilberto Tomazoni, CEO da JBS, anunciou que a empresa tem como metas zerar emissões de CO2 até 2040 e monitorar 100% de toda sua cadeia de produção – o que inclui fornecedores de gado diretos e indiretos – até 2025.

O monitoramento dos fornecedores indiretos, no entanto, será feito de forma voluntária. “Os próprios fazendeiros serão responsáveis por monitorar seus fornecedores”, disse.

Além disso, como estratégia de descarbonização, o frigorífico anunciou a parceria com dois projetos internacionais que buscam reduzir o metano emitido pelo gado a partir da implementação de dieta que contenha capim-limão e tanino.

O uso de ervas, principalmente capim-limão, para redução de gases em bovinos foi objeto de pesquisa realizada em 2020 pela Universidade Autônoma do Estado do México, a pedido da empresa Burguer King. Os dados apresentados no estudo – e a forma como eles estão sendo usados por empresas ligadas à pecuária – têm sido questionados por pesquisadores.

Fonte: O Eco

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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