A ciência e o paradoxo na Amazônia resiliente: entrevista com Adalberto Val

Com apoio habitual de diversos órgãos de apoio à Ciência o INCT-ADAPTA (*), sob coordenação de Adalberto Val, do INPA, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, concluiu mais uma etapa do levantamento de espécies aquáticas da Amazônia. Foram 15 dias divididos em duas etapas de coleta nas águas escuras do Rio Negro e nas águas claras do Rio Solimões, ambos submetidos a temperaturas recordes na região. A expedição ocorreu a partir de 20 de novembro, quando na região já recomeça o ciclo chuvoso.

Para o pesquisador Adalberto Val, é mandatória uma coalizão mundial diante o cenário que implicará um desafio biológico sem precedentes para a Amazônia. De acordo com o IPCC, o mundo bateu um marco bastante preocupante na dinâmica climática: pela 1ª vez, um dia do ano registrou a temperatura média global ultrapassando os 2ºC. Para que isso não se repita nem se agrave, temos que reduzir urgentemente as emissões de gases de efeito estufa em 43% até 2030 … para limitar o aumento de temperatura a 1,5ºC…e evitar catástrofes climáticas.


Confira a entrevista que Adalberto Val, um dos mais importantes cientistas brasileiros deu com exclusividade ao portal BrasilAmazôniaAgora.

*FAPEAM, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, e a CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior


BrasilAmazôniaAgora – Durante a vazante dos principais rios da Amazônia, a mais severa em mais de um século, você lidera mais uma imersão científica neste bioma de enigmas chamado, Amazônia. O que vc destaca como primeiras impressões destes 15 dias?

Adalberto Val: Resiliência, resiliência e resiliência. Dos bichos, das árvores e do homem. Vi muito do que se fala nos livros, do que falam os homens da região e que nunca tinha visto de perto. Vi “furos” por onde passávamos com barcos grandes e desta vez sequer com rabeta pudemos passar. Vi um Lago do Prato muito diferente, sem a pujança de antes, mas com sua diversidade biológica presente e, claro, a partir da qual se reconstruirá. Vi a água subindo muito rápido nas duas semanas. Enfim, o segredo que mantém a vida na Amazônia continua guardado, pedindo para que o revelemos e possamos cuidar melhor do mundo em que vivemos.

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BAA – Você fez coletas nas águas escuras do Rio Negro e nas mais claras do Solimões. Quais reflexos do fenômeno climático já são conhecidos e quais são os mais temidos?

ALV: A água do “caldeirão biológico” esquentou muito no rio Negro e na água branca. No caso dos peixes todos sofreram muito. Muitos morreram. A temperatura é cruel com os peixes da Amazônia – são muito vulneráveis. Felizmente, os organismos se distribuem segundo uma curva de normalidade, às vezes com uma tendência a um dos extremos, mas sempre com alguns não tão sensíveis como outros, permitindo que sobrevivam aos desafios impostos pelos extremos climáticos que estamos vivendo. Até quando? Difícil dizer, mas não se brinca com “tipping points” (Ponto de não retorno). A evolução que o diga com sua imensa história de extinções.

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Um dos centenas de botos que morreram em decorrência da forte seca com altas temperaturas que abalou o Amazonas em 2023 – foto: WWF

BAA – No bioma que guarda a maior reserva mundial de água doce, nesta vazante extrema faltou água potável. O que você tem a comentar sobre este paradoxo?

ALV: De fato um paradoxo! Um paradoxo agravado pela ausência do Estado em vários aspectos. A água que faltou e afetou a rotina biológica e do homem não foi amenizada pela existência de alternativas simples para a produção de água potável. O manejo de vários sistemas poderia ter ajudado a reduzir, não digo eliminar, mas reduzir o impacto da deterioração dos corpos d’água em vários lugares. Há informações científicas que poderiam ter sido utilizadas.

A ciência e o paradoxo na Amazônia resiliente: entrevista com Adalberto Val
Rebocador e balsa ficam encalhados no Rio Negro por causa da seca no Amazonas – foto: Suamy Beydoun/Agif/Agência de Fotografia Estadão Conteúdo

BAA – O Rio comanda a vida, já dizia o poeta Leandro Tocantins, sobre a relação íntima entre o Rio e o fator humano. Como ficará esta relação se não mantivermos sob controle o aquecimento da Terra?

ALV: O mundo evolui em todos os sentidos. Somos produtos dessa evolução. Contudo a evolução tecnológica não guarda compasso com a evolução biológica. A evolução tecnológica avança muito rapidamente e isso é bom em vários sentidos, mas quando associada com interesses escusos pode resultar em caminhos que impactam o ambiente em que vivemos, impacta nossas vidas, coloca nossa saúde em risco. Divide as pessoas entre as que podem e as que não podem.

O aquecimento da Terra é fruto da emissão desenfreada de dióxido de carbono, subproduto da energia massiva que a parte rica da população utiliza. Reduzir as emissões é o caminho necessário para que possamos viver adequadamente neste planeta água. É possível? Sim, a ciência, de novo a ciência, já produziu as informações que permitem novas formas menos poluentes de produção de energia. A água sempre foi necessária para a vida e Leandro Tocantins foi feliz ao cunhar a expressão o “rio comanda a vida” pois qualquer distúrbio que causemos no rio, estaremos causado a nós mesmos.


Adalberto Val
Adalberto Valhttps://brasilamazoniaagora.com.br/
Adalberto Val é um biólogo, pesquisador e professor universitário brasileiro. Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico e membro titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2005, é pesquisador e professor no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

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