Amazônia, as pedaladas da saúde climática

“É hora de cada um abraçar sua bike e pedalar, freneticamente, em sentido físico, coletivo ou metafísico, ou seja, pedalar, avançando na somatória de esforços e da energia de cada um. Seja em Paris, Genebra, Pequim ou Afuá na Amazônia, só nos resta pedalar nos caminhos da sustentabilidade e da fraternidade entre as pessoas e nações a favor da Terra, a morada de todos e de casa um”.

Por Paulo Takeuchi
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O mudo está celebrando as Florestas e as Águas. Com a mão na consciência, podemos dizer que estamos fazendo nossa parte? Algumas regiões sim e outras nem tanto. Ano após ano, o Estado do Amapá se consolida como detentor das menores taxas de desmatamento entre os nove estados da Amazônia Legal. Levando-se em conta os recordes de remoção da cobertura vegetal de seus vizinhos, o Amapá navega contra a maré da depredação. Alguns estados revelam taxas de desmatamento que colocam a Amazônia no dramático ponto do não-retorno. Isso significa, o perigoso jogo de morar na casa do sem jeito. Manter a floresta em pé é o ponto de partida e de chegada na proteção do bioma amazônico.

Outro fato relevante se refere a um guardião da biodiversidade, no Estado do Pará, um estado que, acusado de depredação acentuada, começa a ganhar prêmios de restauração florestal. Um item de sua nova fase é destacar um município onde a população só se utiliza das bicicletas como transporte cotidiano. Estamos falando de Afuá, um município na Ilha do Marajó, com 40 mil habitantes, onde o código de trânsito que ordena a circulação das bicicletas tem apenas dois itens: respeito e cortesia.

O município paraense não dispõe de estudos que estabeleçam a correlação entre a adoção integral deste veículo e a saúde física e emocional da população, especialmente nas medições da serotonina, o hormônio do bom humor; e dopamina/endorfina, o componente hormonal da felicidade. Não estudou e nem precisa de demonstrações científicas. Basta especular as estatísticas de AVC e complicações cardiológicas na população, próximas a zero.

Com relação ao clima, uma cidade em plena floresta amazônica, sem asfalto nem emissão de veículos movidos a combustível fóssil, necessariamente tem taxas extraordinárias de emissão de oxigênio e retenção dos gases de efeito estufa – à exceção da chegada eventual em Afuá de gases tóxicos emitidos pelos países civilizados, levados por correntes aéreas da modernidade tóxica.

Mobilidade humana é um dos fatores cruciais, entre os processos tecnológicos, que resultam na emissão danosa dos gases do efeito estufa. De acordo com os estudos da Universidade de Oxford, em 2021, a adoção da bicicleta é 10 vezes mais limpa em relação à emissão de carbono do que de um carro elétrico. É bom lembrar que a propaganda de zero emissão de carbono não se aplica a cadeia produtiva deste veículo. Seus itens metálicos e todo o processo de produção é absolutamente poluente. E ninguém fala disso.

Quem percorre as grandes cidades do primeiro mundo industrializado, pela quantidade de ciclovias e pelo volume de usuários, sabe bem: andar de bicicletas é uma alternativa crescente sob o ponto de vista climático. Ou seja, mais limpa e também mais rápida em relação aos automóveis por conta dos engarrafamentos malucos. Andar na “magrela” significa adotar o combustível das pedaladas e usufruir da sensação de liberdade espacial. Os pesquisadores de Oxford coletaram dados dos “diários de bordo” de 4 mil usuários de bicicletas e de outros veículos durante dois anos, oriundo de seus trajetos. Foram utilizadas metodologias idênticas às de mensuração da “pegada de carbono”.

Participaram da pesquisa as seguintes localidades: Londres, Antuérpia, Barcelona, Viena, Orebro (Suécia), Roma e Zurique, sendo tabulados 10 mil itens de deslocamentos. Ao longo do estudo, as pessoas que usaram a bicicleta registraram uma pegada de carbono 84% menor do que a de outros participantes do estudo. Mesmo no caso de quem utiliza a bicicleta apenas uma vez por semana, foram contabilizados 3,2 kg de carbono a menos na atmosfera, em média.

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foto: Aziz Acharki/Unsplash

Um dos resultados mais gratificantes revela que, se apenas um usuário de bicicleta para cada cinco moradores da comunidade adotasse a bicicleta como seu meio de transporte, no lugar do automóvel, uma vez por semana, as emissões de carbono diminuiriam em 8%.

Nesta semana, a mídia trouxe mais um alerta climático e uma advertência dramática, publicada pela ONU – Organização das Nações Unidas, afirmando com todas as letras que “estamos a caminho do desastre climático”. Além de duas dezenas de razões para adotarmos o transporte da sustentabilidade planetária chamado bicicleta, neste momento, o mais importante é cada um fazer sua parte no combate ao aquecimento global. Trata-se de uma maratona planetária pela vida. Uma disputa solidária e universal, onde já não podemos esperar pelas Conferências nem pelos Acordos entre as nações.

É hora de cada um abraçar sua bike e pedalar, freneticamente, em sentido físico, coletivo ou metafísico, ou seja, pedalar, avançando na somatória de esforços e da energia de cada um. Seja em Paris, Genebra, Pequim ou Afuá, só nos resta pedalar nos caminhos da sustentabilidade e da fraternidade entre as pessoas e nações a favor da Terra, a morada de todos e de casa um.

Paulo é engenheiro, empresário e diretor-executivo da ABRACICLO.

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Paulo Takeuchi
Paulo Takeuchi
Paulo Takeuchi é Diretor da FIEAM e Relações Institucionais – Moto Honda da Amazônia

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