A Amazônia entre duas economias: a floresta em pé e a floresta nas sombras

A economia da floresta em pé é, por definição, uma economia de prazo longo. Ela exige investimento contínuo, qualificação, logística estável, pesquisa, financiamento paciente e, sobretudo, capacidade de fazer a prosperidade chegar aos rios, às estradas e aos municípios distantes, onde o custo de produzir legalmente ainda é alto demais para muita gente.

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A Amazônia Ocidental costuma ser descrita como uma grande paisagem. Mas, no cotidiano, ela é sobretudo uma grande economia — feita de infraestruturas, decisões, fricções e escolhas difíceis. Em Manaus, isso se traduz em portos, contêineres, turnos, inspeções, exigências de padrão, metas de produtividade e uma engrenagem industrial que, por mais que seja atacada por caricaturas, é hoje uma das principais formas de a floresta permanecer de pé. 

No interior, o mesmo cotidiano se traduz em distâncias, custos, risco, falta de presença pública contínua — e uma vulnerabilidade que pode ser capturada por mercados ilegais.

Não há romantismo nesse retrato. Há apenas o reconhecimento de que a Amazônia vive, simultaneamente, dois regimes econômicos: um regime formal, que depende de contrato, tecnologia e estabilidade; e um regime clandestino, que depende de liquidez, captura de rotas e ausência de Estado. O desafio é entender essa convivência sem mistificação e sem pânico — com a sobriedade de quem olha o território como ele é.

CNPJ na floresta: a economia do prazo longo

O Brasil gosta de falar da Amazônia como “fronteira natural”. Mas a sustentabilidade amazônica, na prática, é uma construção institucional — artificial no melhor sentido da palavra: um parque industrial de alta complexidade operando no coração da floresta, com cadeias integradas, logística fluvial desafiadora e contrapartidas que consolidam uma infraestrutura social.

No Amazonas, a chamada “indústria da floresta em pé” não é um slogan. O Polo Industrial de Manaus reúne 552 indústrias e 127 empresas de bioindústria, combinando manufatura, automação, controle de qualidade e engenharia de processo — uma cadeia técnica que desmente a caricatura do “ventilador no meio da selva”.

Engenharia e padrão internacional: a indústria sem caricatura

Esse tecido industrial sustenta o Estado. A síntese publicada pelo BAA/JCAM aponta mais de 85% das receitas estaduais e mais de 60% das receitas tributárias vinculadas ao PIM. Essa não é uma defesa retórica: é a descrição de uma base econômica real que financia serviços públicos, capacidade administrativa e, quando bem orientada, instrumentos de interiorização do desenvolvimento.

A economia da floresta em pé é, por definição, uma economia de prazo longo. Ela exige investimento contínuo, qualificação, logística estável, pesquisa, financiamento paciente e, sobretudo, capacidade de fazer a prosperidade chegar aos rios, às estradas e aos municípios distantes — onde o custo de produzir legalmente ainda é alto demais para muita gente.

Tecnologia que cobra responsabilidade: competitividade com agenda ambiental

Há um ponto que quase nunca entra no debate nacional: alto padrão tecnológico hoje é também padrão ambiental. nesta Follow Up do BAA, o Polo Eletrônico é descrito como plataforma capaz de liderar economia circular e logística reversa num mundo que gerou 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022, com apenas 22,3% documentado como coletado e reciclado formalmente. É o tipo de agenda que transforma obrigação legal em vantagem competitiva — e projeta soberania produtiva a partir da Amazônia.

Nada disso acontece por inércia. Requer regras, metas, rastreabilidade e pressão de mercado — e, ao mesmo tempo, políticas públicas que enxerguem a complexidade do território amazônico.

A régua errada: quando a contabilidade tenta matar a política pública

Essa potência, porém, costuma ser julgada por uma métrica que não consegue enxergar a realidade amazônica. A “régua dos bacanas” – expressão usada para descrever os interesses inconfessos que tratam a ZFM como privilégio – expõe o vício do Demonstrativo de Gastos Tributários: tratar incentivo constitucional como “perda” sem admitir efeitos compensatórios nem os avanços civilizatórios visto por observadores sensatos.

A contabilidade pública registra no primeiro semestre de 2025 um relato dos números que falam por si.

• R$ 1,2 bilhão recolhidos ao Fundo de Turismo, Infraestrutura e Interiorização (FTI);
• R$ 469 milhões destinados à Contribuição para o Ensino Superior, que financia a Universidade do Estado do Amazonas (UEA);
• R$ 198 milhões ao Fundo de Fomento às Micro e Pequenas Empresas (FMPES);
• R$ 728 milhões pagos em ICMS, tornando a indústria o maior contribuinte isolado do Estado;
• e, ainda, R$ 2,36 bilhões investidos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) pelas empresas de bens 

 Esse é um desafio do cotidiano: a estabilidade institucional de um modelo que depende de previsibilidade para continuar gerando emprego, arrecadação e capacidade pública.

Interiorização: o custo invisível do desenvolvimento

Interiorizar desenvolvimento sem transformar o interior em “fronteira de saque” custa caro: energia, internet, transporte, assistência técnica, crédito e compra garantida. É aqui que a economia legal revela sua fragilidade: onde o Estado demora, o crédito não chega e o custo de fazer certo é alto, a alternativa ilegal aparece como atalho.

Por isso, a floresta em pé não se sustenta apenas com discurso ambiental. Ela precisa reduzir o custo do legal, ampliar a escala do que funciona, criar segurança econômica para cadeias produtivas e manter presença pública contínua — não episódica.

A economia das sombras: o território como mercado

É nesse intervalo que cresce a economia clandestina. Ela não precisa de laboratório científico e de inovação; precisa de rota. Não precisa de contrato; precisa de imposição. Não precisa de prazo; precisa de liquidez.

A pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, repercutida pelo Correio Braziliense, estima que 44,6% dos municípios da Amazônia Legal já têm sinais de facções em 2025 (344 de 772), com 258 sob controle e 86 em disputa. O mesmo recorte informa que o Comando Vermelho se espalhou para 286 cidades e mantém hegemonia em 202 delas.

A mudança não é só territorial: é econômica. O crime organizado passou a “precificar” a floresta — e a se associar a crimes ambientais. O garimpo vira plataforma logística; e o narcotráfico se encaixa na extração mineral, na grilagem e na madeira. A Revista Pesquisa Fapesp descreve esse mecanismo como narcogarimpo: facções usando infraestrutura do garimpo — aeronaves, pilotos, pistas e rotas — para ampliar o tráfico, além de atuar como segurança armada e impor “regras” onde o Estado não chega.

Do contrato ao medo: dois regimes disputando o mesmo mapa

E há uma engrenagem ainda mais silenciosa: a capacidade de maquiar o ilegal como legal. É aqui que entra a Revista Piauí: um estudo do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG, citado em material associado à publicação, estimou que, entre 2021 e 2022, quase 30% do ouro extraído e registrado na ANM tinha origem irregular; o mesmo material aponta que, em oito meses de 2023, a mineração desmatou 76 km² na Amazônia e que a área de garimpo de ouro dobrou entre 2016 e 2022.

O resultado é uma economia de curto-circuito: a devastação gera caixa; o caixa compra armas, corrupção e silêncio; e o medo vira ativo econômico. Não é que o crime “apareça” de repente — ele se instala como um mercado onde faltam alternativas confiáveis.

Por isso, o debate amazônico mais sério não é um duelo moral entre “bons” e “maus”. É uma disputa de modelos econômicos: um modelo que transforma tecnologia e arrecadação em escola, saúde, universidade, pesquisa e cadeias legais; e outro que transforma rota em pedágio e floresta em ativo clandestino. 

A saída, portanto, também não é retórica. É método: reduzir o custo do legal e aumentar o custo do ilegal. Fortalecer interiorização com financiamento paciente, compras públicas inteligentes e programas estruturantes. Blindar rastreabilidade e inteligência financeira. Proteger cadeias produtivas e territórios com presença pública contínua. E, sobretudo, parar de tratar o desenvolvimento amazônico como “gasto” — porque, na Amazônia, o vácuo não fica vazio: ele é ocupado.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora

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