A história da Zona Franca sempre esteve associada à capacidade de antecipar mudanças. O desafio desta geração consiste em perceber que a próxima fronteira da competitividade industrial talvez não esteja apenas nas linhas de montagem, mas nos circuitos invisíveis que alimentam a inteligência artificial.
Há momentos em que as grandes transformações mundiais reorganizam silenciosamente o mapa das oportunidades. A disputa em torno dos semicondutores é um desses momentos.
Durante décadas, a produção mundial de chips evoluiu segundo uma lógica de máxima eficiência econômica. O projeto podia nascer na Califórnia, os equipamentos eram produzidos na Holanda e no Japão, as lâminas fabricadas em Taiwan ou na Coreia do Sul, o encapsulamento realizado no Sudeste Asiático e a integração final acontecia em diversos países. A cadeia funcionava como uma grande engrenagem global. A geopolítica alterou esse desenho.
A competição tecnológica entre Estados Unidos e China transformou os semicondutores em ativos estratégicos, comparáveis ao petróleo do século XX. Países passaram a discutir segurança nacional, autonomia produtiva e controle das tecnologias que alimentam a inteligência artificial, a computação de alto desempenho, os sistemas de defesa, as telecomunicações e praticamente toda a indústria moderna.
A notícia de que a China continua reduzindo a distância em relação aos Estados Unidos no desenvolvimento de projetos de chips, embora ainda enfrente dificuldades na fabricação dos componentes mais avançados, revela justamente essa mudança de paradigma. O conhecimento passou a ser tão importante quanto a capacidade fabril. Em muitos casos, tornou-se ainda mais valioso. O Brasil costuma assistir a essas transformações como espectador. Talvez seja hora de ocupar outro papel.
O Polo Industrial de Manaus reúne características raramente encontradas na América Latina. Concentra empresas globais de eletroeletrônicos, duas rodas, informática, bens de consumo duráveis, centros de engenharia, mão de obra industrial qualificada, incentivos fiscais consolidados, universidades, institutos de pesquisa e uma tradição de integração de cadeias produtivas construída ao longo de quase seis décadas. Essa infraestrutura não nasceu para produzir semicondutores.
Mas pode perfeitamente tornar-se parte da nova economia dos semicondutores. E não se trata de imaginar que Manaus competirá amanhã com Taiwan na fabricação dos chips mais sofisticados do planeta. Seria uma expectativa incompatível com a realidade tecnológica e financeira do setor. Uma fábrica de última geração exige investimentos superiores ao orçamento anual de muitos países, além de equipamentos submetidos às maiores restrições geopolíticas existentes atualmente. Existe, entretanto, um espaço muito mais consistente para o Brasil.
A cadeia mundial dos semicondutores vai muito além da fabricação das lâminas de silício. Ela envolve projeto eletrônico, desenvolvimento de arquiteturas, encapsulamento avançado, testes, integração em módulos, fabricação de placas inteligentes, sistemas embarcados, servidores, equipamentos industriais e aplicações específicas para inteligência artificial.
São exatamente esses segmentos que dialogam com as competências já existentes em Manaus.
A região poderia especializar-se no desenvolvimento de chips para aplicações industriais, logística, monitoramento ambiental, bioeconomia, sistemas médicos, automação e processamento distribuído. Poderia tornar-se referência em encapsulamento avançado, integração de módulos de inteligência artificial e fabricação dos equipamentos que utilizarão esses componentes.
Mais importante ainda seria transformar Manaus em um centro latino-americano de engenharia de semicondutores.
O verdadeiro patrimônio dessa indústria não está apenas nas máquinas. Está nas pessoas capazes de projetar arquiteturas, desenvolver propriedade intelectual, integrar sistemas complexos e criar soluções que respondam às necessidades da economia contemporânea.
É justamente nesse ponto que a diplomacia econômica brasileira passa a desempenhar um papel decisivo.
A disputa entre Estados Unidos e China não deve ser interpretada como uma obrigação de alinhamento automático. Ao contrário. Ela amplia o interesse de diversos países em construir novas parcerias industriais, novos mercados consumidores e novas bases produtivas.
O Brasil possui credibilidade internacional suficiente para dialogar simultaneamente com Estados Unidos, China, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, União Europeia, Índia e Sudeste Asiático. Poucos países conseguem manter esse grau de interlocução. Essa condição deveria ser utilizada estrategicamente.
Em vez de limitar-se à atração de fábricas de montagem, o país poderia negociar centros de engenharia, laboratórios conjuntos, programas de formação de especialistas, desenvolvimento compartilhado de propriedade intelectual e instalação de unidades de encapsulamento e testes destinadas ao mercado latino-americano. A Amazônia oferece uma vantagem adicional frequentemente ignorada.
A crescente demanda por inteligência artificial aumenta também a necessidade de energia elétrica, estabilidade operacional e soluções sustentáveis. A região concentra uma das maiores disponibilidades de recursos naturais do planeta e pode transformar essa condição em vantagem competitiva para atividades industriais intensivas em tecnologia, desde que isso ocorra dentro de uma estratégia consistente de infraestrutura, conectividade digital e segurança energética.
Esse movimento exigirá coordenação institucional. Governo Federal, Governo do Amazonas, Suframa, CIEAM, FIEAM, universidades, institutos tecnológicos, BNDES, Finep, Embrapii e iniciativa privada precisam atuar de forma integrada. Não basta oferecer incentivos fiscais. Será necessário formar milhares de engenheiros, estimular startups de microeletrônica, financiar pesquisa aplicada e estabelecer programas permanentes de cooperação internacional.
Talvez este seja o momento de criar uma verdadeira diplomacia dos semicondutores para a Amazônia. Uma diplomacia que compreenda que a nova riqueza mundial será produzida menos pela abundância de matérias-primas e cada vez mais pela capacidade de transformar conhecimento em produtos de alto valor agregado.
Durante décadas, o Polo Industrial de Manaus demonstrou que era possível industrializar preservando a floresta. A economia digital oferece agora uma oportunidade ainda mais ambiciosa: produzir inteligência sem ampliar a pressão sobre os recursos naturais.
A história da Zona Franca sempre esteve associada à capacidade de antecipar mudanças. O desafio desta geração consiste em perceber que a próxima fronteira da competitividade industrial talvez não esteja apenas nas linhas de montagem, mas nos circuitos invisíveis que alimentam a inteligência artificial.
Quem participar dessa cadeia ajudará a fabricar mais do que chips. Participará da construção da soberania tecnológica do século XXI.