Chegou a hora de cuidar de nós

Durante muito tempo esperamos que o restante do país compreendesse a Amazônia. Continuaremos dialogando, porque essa também é nossa responsabilidade. Mas chegou a hora de dedicar a maior parte da nossa energia a outra tarefa. Compreender a nós mesmos.


Há um exercício que o Amazonas conhece bem. Sempre que alguém questiona a Zona Franca de Manaus, lá vamos nós outra vez explicar por que ela existe.

Explicamos nossa geografia. Nossa logística. Nossa distância dos mercados. Nossa floresta. Nossa Constituição. Nossa contribuição para a economia nacional.

Explicamos os rios voadores. Explicamos a biodiversidade. Explicamos que São Paulo fornece bilhões de reais em componentes para as fábricas instaladas em Manaus.

Explicamos que a União arrecada mais do que devolve. Explicamos que preservar a Amazônia custa menos do que reconstruí-la. E, no entanto, alguns continuam acreditando que somos um privilégio.

Não me incomoda tanto que ainda pensem assim. O que começa a me preocupar é outra coisa. Nós continuarmos gastando boa parte da nossa inteligência respondendo aos mesmos argumentos de sempre.

É chegada a hora de mudar o centro da conversa

Não porque devamos deixar de defender a Zona Franca. Essa continuará sendo uma obrigação permanente. Mas porque o desenvolvimento do Amazonas não pode depender apenas da nossa capacidade de responder críticas.

Ele precisa nascer, sobretudo, da nossa capacidade de formular um projeto comum. Tenho a impressão de que, durante muitos anos, nos acostumamos a discutir mais as ameaças do que as oportunidades. E isso faz diferença.

Um estado que vive apenas reagindo acaba permitindo que sua agenda seja escrita pelos outros. A Amazônia merece escrever a própria agenda. Quando olho para nossa história recente, encontro uma contradição curiosa.

Vivemos em um dos territórios mais estratégicos do planeta e, ao mesmo tempo, administramos uma permanente sensação de escassez. Temos a maior floresta tropical. A maior reserva de água doce superficial. Uma biodiversidade ainda pouco conhecida. Um parque industrial consolidado. Universidades. Centros de pesquisa. Uma posição geopolítica que desperta interesse crescente no mundo inteiro.

Mesmo assim, frequentemente nos comportamos como quem administra apenas limitações.

Talvez seja porque ainda pensamos nossa riqueza a partir das categorias do século passado.O mundo começa a atribuir valor econômico à biodiversidade. À regeneração florestal. Ao carbono. À bioindústria. V À inteligência climática. À ciência produzida nos trópicos.

Enquanto isso, seguimos discutindo apenas incentivos fiscais. Os incentivos continuam importantes. Mas já não bastam para definir nosso futuro.

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Foto: Tadeu Jnr/Unsplash

O verdadeiro desafio passa a ser outro. Como transformar esses ativos extraordinários em prosperidade permanente? Essa pergunta exige um pacto. Não um pacto de governo. Governos passam. Também não um pacto partidário. Partidos mudam.

O Amazonas precisa de um pacto da sociedade consigo mesma

Há projetos que não deveriam mais depender das alternâncias políticas. Nossa infraestrutura logística.  A integração do interior. O fortalecimento do Centro de Biotecnologia da Amazônia.

A aplicação estratégica dos recursos de pesquisa. A formação de cientistas. A transformação da biodiversidade em riqueza produzida aqui. A internacionalização do conhecimento amazônico. São objetivos que pertencem ao estado, não aos governos.

Existe outra reflexão que considero igualmente importante: Somos um estado de enorme importância estratégica para o Brasil. Mas continuamos dispondo de recursos limitados para investir em nós mesmos.

Essa realidade nos obriga a uma disciplina ainda maior. Cada real aplicado precisa produzir desenvolvimento. Cada obra precisa ampliar produtividade. Cada investimento público precisa criar capacidade econômica futura. Não podemos desperdiçar aquilo que já é escasso.

Talvez esse seja o maior compromisso das próximas décadas. Administrar melhor. Planejar melhor. Escolher melhor. Olhar mais longe. Sempre admirei uma característica da floresta amazônica.

Ela não cresce porque uma árvore decide crescer sozinha. Ela cresce porque milhares de espécies diferentes compartilham o mesmo solo, a mesma água, a mesma luz e, sobretudo, o mesmo destino.

Durante muito tempo esperamos que o restante do país compreendesse a Amazônia. Continuaremos dialogando, porque essa também é nossa responsabilidade. Mas chegou a hora de dedicar a maior parte da nossa energia a outra tarefa. Compreender a nós mesmos.

Descobrir que o maior patrimônio do Amazonas não está apenas na floresta, nem apenas na indústria. Está na capacidade de sua gente construir um projeto comum de futuro.

Quando esse pacto acontecer, o reconhecimento virá naturalmente. Porque os territórios que sabem para onde caminham deixam de pedir espaço. Passam, simplesmente, a ocupar o lugar que lhes pertence.

Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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