“Na Amazônia, essa escolha ajudará a definir se a biodiversidade continuará sendo apenas uma riqueza natural ou se passará, finalmente, a orientar um novo modelo de desenvolvimento regional”
Por Alfredo Lopes – BrasilAmazoniaAgora
Há pesquisas que registram tendências. Outras revelam transformações silenciosas que acabam alterando o modo como uma sociedade ocupa seu território. O estudo Muita soja e pouca mandioca: a alimentação nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal, elaborado pelo Instituto Escolhas, pertence à categoria das instituições que pensam a brasilidade.
Os números chamam atenção.
Entre 2017 e 2024, a área plantada com soja nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal cresceu mais de 70%, ritmo superior ao observado tanto na média brasileira quanto no conjunto dos estados amazônicos. No mesmo período, culturas profundamente enraizadas na alimentação regional, como mandioca, banana, arroz e melancia, perderam espaço justamente nos municípios onde vive quase metade da população da Amazônia Legal.
O estudo não questiona a importância econômica da soja. Nem poderia. Ela se consolidou como uma das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro, movimenta investimentos, sustenta parte importante da balança comercial e ocupa posição estratégica no comércio internacional.
O alerta segue outra direção.
Ele aparece quando uma região começa a reduzir sua capacidade de produzir os alimentos que abastecem diariamente sua própria população.
Essa mudança merece atenção porque ocorre nas áreas metropolitanas, onde a agricultura de proximidade possui importância muito maior do que normalmente se imagina. Produzir alimentos perto dos centros consumidores reduz custos logísticos, diminui perdas, amplia a oferta de produtos frescos e fortalece a segurança alimentar. Quando esse espaço passa a ser ocupado predominantemente por uma commodity destinada ao mercado externo, o abastecimento regional torna-se mais dependente de cadeias de suprimento longas e vulneráveis.
A pesquisa mostra que cerca de 72% da soja produzida na Amazônia Legal é exportada em grãos, praticamente sem beneficiamento industrial.
Ao mesmo tempo, a mandioca, o alimento mais emblemático da cultura amazônica, perde participação relativa na ocupação agrícola. O mesmo ocorre com outras culturas que historicamente abastecem feiras, mercados e cozinhas da região.
Esse movimento, por si só, não constitui um problema. Toda economia evolui e reorganiza seus sistemas produtivos.
A questão passa a ser outra quando essa especialização ocorre sem que exista uma estratégia pública capaz de preservar o abastecimento alimentar das cidades amazônicas.
É justamente aí que o estudo amplia sua contribuição.
Os pesquisadores mostram que o problema não termina na produção agrícola. Ele alcança a infraestrutura de abastecimento, a coordenação entre estados e municípios, o planejamento territorial e a própria capacidade institucional de acompanhar a transformação dos sistemas alimentares.
Os indicadores são eloquentes.
Em toda a Amazônia Legal existem apenas cinco Centrais de Abastecimento monitoradas pelo Programa Brasileiro de Modernização do Mercado Hortigranjeiro. Menos de 2% das frutas, legumes e verduras comercializados nessas centrais têm origem na própria região. Entre 2017 e 2024, o volume comercializado caiu cerca de 11%.
A fragilidade também aparece na gestão pública.
Em 2024, os recursos estaduais destinados especificamente ao abastecimento somaram apenas R$ 14 milhões. Apenas 11% dos municípios metropolitanos possuem Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional.
Esses números sugerem que a transformação produtiva avança mais rapidamente do que a capacidade de planejamento do poder público.
E aí emerge o principal mérito do Instituto Escolhas.
Ao deslocar a discussão da soja para a segurança alimentar, o estudo lembra que abastecimento também é infraestrutura. Assim como energia, transporte, saneamento e logística exigem coordenação regional, a produção de alimentos também depende de planejamento de longo prazo.
A Amazônia – os dados de monstro – é o lugar onde essa necessidade se manifesta com maior intensidade.
Secas extremas, rios sujeitos a grandes oscilações hidrológicas, enormes distâncias, custos logísticos elevados e rápida urbanização tornam o abastecimento alimentar um tema estratégico para o desenvolvimento regional.
Existe ainda uma dimensão que ultrapassa a economia.
A Amazônia abriga a maior biodiversidade do planeta.
Essa riqueza biológica sempre foi apresentada como uma vantagem ambiental, científica e farmacêutica. Muito menos se fala sobre sua extraordinária vocação alimentar.
Poucas regiões do mundo reúnem condições para produzir, de forma diversificada, frutas tropicais, mandioca, pescado, castanhas, hortaliças, óleos vegetais, sistemas agroflorestais, ingredientes funcionais e produtos capazes de abastecer mercados locais e internacionais simultaneamente.
A biodiversidade oferece à Amazônia algo que nenhum processo de especialização produtiva consegue substituir: resiliência.
- Diversidade ecológica produz diversidade econômica.
- Diversidade econômica produz maior estabilidade social.
Quando uma região reduz progressivamente essa diversidade em favor de um número cada vez menor de produtos, passa a depender mais intensamente das oscilações de mercado, dos preços internacionais e das condições logísticas.
O próprio estudo do Instituto Escolhas oferece caminhos relevantes para enfrentar esse desafio. Recomenda ampliar a adesão dos municípios ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, fortalecer programas como o PAA e o Pnae, aumentar os investimentos estaduais em abastecimento, melhorar a transparência das informações das Ceasas e incentivar práticas de diversificação produtiva previstas no Plano ABC+, como a rotação de culturas.
São recomendações consistentes.
Provavelmente, o desafio seguinte seja ainda maior.
O Brasil construiu políticas nacionais para energia, infraestrutura, logística, recursos hídricos e conservação ambiental.
Chegou o momento de pensar a segurança alimentar da Amazônia com a mesma ambição estratégica.
Isso significa integrar produção agrícola, abastecimento, agricultura familiar, bioeconomia, pesquisa científica, logística fluvial, industrialização de alimentos, compras públicas e planejamento territorial dentro de uma mesma visão de desenvolvimento.
Não para limitar o crescimento da soja.
Nem para estabelecer uma oposição artificial entre agronegócio e agricultura familiar.
Mas para garantir que a região mais biodiversa do planeta continue sendo também uma das mais diversas naquilo que produz. A Amazônia já demonstrou que pode abastecer mercados internacionais.
Agora precisa demonstrar que consegue organizar, com igual inteligência, os sistemas alimentares que sustentam sua própria população. Poucas decisões revelam tanto o projeto de futuro de uma sociedade quanto aquilo que ela escolhe cultivar.
Na Amazônia, essa escolha ajudará a definir se a biodiversidade continuará sendo apenas uma riqueza natural ou se passará, finalmente, a orientar um novo modelo de desenvolvimento regional.