Com torres que liberam gás carbônico no topo da floresta, o AmazonFACE testa se o “efeito fertilizante” do CO₂ pode proteger a Amazônia do colapso climático previsto.
Com torres de 35 metros dispostas em círculos na floresta amazônica, o AmazonFACE é hoje considerado um dos maiores experimentos a céu aberto sobre mudanças climáticas do mundo. A pesquisa investiga um dos principais pontos de incerteza da ciência climática: como a Amazônia reagirá ao aumento de gás carbônico na atmosfera.
“A informação que a gente vai gerar aqui é absolutamente relevante. Não só para o Brasil, mas para o mundo. Não é à toa que esse experimento é considerado por muitos e é visto por nós como muito provavelmente o projeto mais importante da agenda climática hoje”, afirma David Lapola, coordenador científico, ecólogo e meterologista do projeto.
A tecnologia utilizada, conhecida como FACE (Free Air CO₂ Enrichment), foi criada nos Estados Unidos nos anos 1990, mas jamais havia sido aplicada em um ecossistema tão diverso e complexo quanto o amazônico. No centro do experimento, 16 torres liberam ar enriquecido com aproximadamente 50% a mais de CO₂ que a concentração atmosférica atual, simulando as condições previstas para as próximas décadas.
Cada anel abriga cerca de 50 árvores com diâmetros superiores a 10 cm, representando 49 espécies diferentes. Essa diversidade inédita oferece uma oportunidade única de entender como ecossistemas biodiversos respondem a mudanças atmosféricas.
O objetivo do AmazonFace é testar se a chamada “fertilização por CO₂”, o aumento na produtividade das plantas devido ao maior suprimento de carbono, insumo básico da fotossíntese, poderia compensar os efeitos negativos da elevação de temperatura e da redução de chuvas. Modelos climáticos anteriores sugeriram que sim, mas as evidências práticas ainda são escassas.
Com previsão de funcionamento inicial por 10 anos, podendo chegar a 20, o AmazonFACE monitora múltiplos aspectos da floresta, desde o topo das copas até as raízes subterrâneas. Equipamentos especializados medem trocas gasosas, crescimento de raízes e produtividade ao longo de estações e anos. A pesquisa também observa possíveis reorganizações de espécies — já observadas no sul da Amazônia — que podem ocorrer com o avanço do aquecimento global.
Financiado em parceria, pelo MCTI e pelo Reino Unido, o projeto já recebeu cerca de R$ 100 milhões em infraestrutura e deve demandar até R$ 260 milhões para manter os níveis de CO₂ ao longo da década. Os resultados alimentarão modelos climáticos globais, ajudando a prever com mais precisão o destino da floresta amazônica.