O reconhecimento da cidadania de duas lideranças do CIEAM celebra uma trajetória coletiva de cuidado com as pessoas, defesa do trabalho e construção de um desenvolvimento que aproxime a prosperidade da proteção da floresta.
Coluna Follow-Up
Há um significado especialmente afetivo na concessão do título de cidadão amazonense a Luiz Augusto Barreto Rocha e Lúcio Flávio Morais de Oliveira. O Amazonas reconhece, pelos instrumentos de sua representação legislativa, um pertencimento amadurecido no trabalho, nas dificuldades compartilhadas e na disposição de assumir como próprias as preocupações desta terra. Para quem acompanha essa caminhada, a homenagem tem a familiaridade de uma celebração entre irmãos.
Escrevo com essa proximidade e com a responsabilidade que ela exige. O carinho encontra fundamento no que foi construído, na persistência com que se procuraram interlocutores e na capacidade de reunir pessoas em torno de tarefas que ultrapassam qualquer biografia. Na presidência do Conselho Superior e na presidência executiva do CIEAM, Luiz Augusto e Lúcio Flávio representam uma experiência associativa cujo alcance merece ser compreendido para além do ambiente empresarial.
Defender a indústria no Amazonas exige conhecer o que acontece depois do portão da fábrica. O salário circula pelo comércio, sustenta serviços, ajuda a manter filhos na escola, remunera fornecedores e oferece alguma previsibilidade à vida de famílias que conhecem de perto a insegurança econômica. Quando essa estrutura é ameaçada, a preocupação se espalha por toda a cidade e alcança as relações de Manaus com o interior. É nessa dimensão humana que a atuação dos homenageados encontra seu sentido mais duradouro.
A memória dos dias difíceis
A pandemia permanece como uma das provas mais dolorosas dessa responsabilidade. Enquanto famílias perdiam seus entes queridos e profissionais de saúde enfrentavam condições extremas, era necessário mobilizar recursos, organizar ajuda e preservar as condições materiais de sobrevivência da população.
A memória institucional registra a formação do Comitê Indústria ZFM Covid-19, reunindo CIEAM, FIEAM, Eletros e Abraciclo. Luiz, Lúcio e Antonio Silva conduziram a batalha. Em junho de 2020, Luiz Augusto relatava que a Ação Social Integrada, conduzida naquele momento por Jeanete Portela com equipes das entidades, já havia distribuído mais de 200 toneladas de alimentos, além de equipamentos de proteção e insumos para a saúde. Registrava também a adaptação de empresas à produção de materiais necessários ao enfrentamento da emergência.
Resgatar esses acontecimentos é preservar o nome de quem trabalhou e a natureza coletiva do esforço. Houve dirigentes, trabalhadores, técnicos e voluntários que colocaram conhecimento, tempo e capacidade de organização a serviço de pessoas que precisavam de ajuda imediata. Na mesma mobilização, amadureceu a preocupação com a reconstrução econômica, com as empresas que precisariam sobreviver e com os empregos dos quais dependeria a recuperação das famílias.
Essa experiência integra a história do CIEAM que hoje homenageamos em seus dois dirigentes. Cuidar das pessoas exigia socorro naquele momento e condições de trabalho e renda para o tempo seguinte. A emergência tornou particularmente visível uma relação que deveria orientar permanentemente as decisões econômicas.
A longa tarefa de fazer o Brasil compreender
A defesa da Zona Franca de Manaus trouxe outro tipo de exigência. Durante anos, foi preciso explicar repetidamente por que uma política de desenvolvimento regional precisa considerar as distâncias, os custos e a concentração histórica de investimentos no país.
Parte das resistências nasce do desconhecimento. Outra parte se alimenta da indiferença ao que acontece longe dos centros de decisão. Há também disputas econômicas nas quais o argumento tributário serve a interesses concorrentes, nem sempre apresentados com transparência. Distinguir essas situações exige preparo, paciência e firmeza, inclusive para reconhecer críticas procedentes e responder às demais com evidências.
Luiz Augusto e Lúcio Flávio têm participado dessa interlocução levando a discussão aos espaços em que decisões são preparadas. A agenda com parlamentares, as contribuições técnicas e a presença nos debates da reforma tributária documentam uma atuação continuada. Em 2024, os dois estiveram na Câmara dos Deputados defendendo que a regulamentação respeitasse os direitos e os mecanismos de competitividade assegurados à Zona Franca.
O trabalho ajuda a compreender o sentido da expressão heróis da insistência. Há uma persistência pouco visível em voltar à reunião, refazer a demonstração, esclarecer uma interpretação e acompanhar o texto que será votado. Uma conquista dessa natureza depende da continuidade entre o argumento econômico, a formulação jurídica e a negociação política.
A mobilização reuniu entidades, especialistas, bancada parlamentar e representantes do poder público. O CIEAM e a Abraciclo, por exemplo, apresentaram em 2023 propostas que articulavam a preservação da competitividade industrial com instrumentos voltados à bioeconomia. Nesse percurso, a defesa do que já havia sido construído conviveu com a busca de novas possibilidades para a região. (cieam.com.br)
O reconhecimento dos acertos do modelo também precisou ser conquistado nos ambientes acadêmicos e econômicos. Os Diálogos Amazônicos na Fundação Getúlio Vargas abriram espaço para apresentar resultados, ouvir questionamentos e discutir a contribuição da indústria à economia e à proteção ambiental. Prestar contas, como Luiz Augusto sustentou naquela ocasião, faz parte da legitimidade de uma política pública.
A adesão que nasce desse debate tem consistência porque permite compreender o que está em jogo. A redução das desigualdades regionais depende de oportunidades efetivas de produzir, aprender, investir e trabalhar. O Amazonas construiu uma base industrial que precisa ser preservada e aperfeiçoada, com seus benefícios alcançando parcelas maiores da população.
As comissões e as mulheres que fazem avançar
Uma homenagem justa aos dois dirigentes precisa alcançar as pessoas que dão continuidade às decisões. As comissões do CIEAM reúnem conhecimento sobre tributos, logística, recursos humanos, inovação, assuntos jurídicos e legislativos, comércio exterior, comunicação, educação, energia e sustentabilidade. É nesse trabalho cotidiano que dificuldades das empresas podem ganhar diagnóstico, proposta e encaminhamento.
Seu suporte confere substância à representação institucional. A liderança se fortalece quando consegue ouvir essa experiência, aproximar competências e assegurar que o esforço técnico encontre espaço nas decisões. Luiz Augusto e Lúcio Flávio devem ser celebrados também pela responsabilidade de sustentar esse ambiente de participação.
Nesse percurso, o protagonismo feminino merece reconhecimento explícito. As mulheres estão na gestão, na formulação de propostas, na coordenação de equipes e na compreensão dos efeitos sociais das escolhas empresariais. Sua presença amplia a capacidade da instituição de perceber problemas e construir respostas.
A atuação de Régia Moreira à frente da Comissão de ESG oferece uma referência dessa contribuição. Ao aproximar responsabilidade ambiental, condições sociais e governança, essa agenda leva para dentro da indústria as exigências concretas do território em que ela opera. No Amazonas, a qualidade do emprego, a formação profissional, a relação com as comunidades e o cuidado ambiental precisam ser tratados em conjunto.
Os Fóruns de Protagonismo Feminino, realizados com a Suframa, deram espaço a questões como equidade, liderança, assédio e violência contra a mulher. A participação de Silvana Aquino na condução dessa programação e de Fabiana Souza na discussão da Jornada da Mulher na Indústria mostra como essa construção se desdobra em diferentes frentes. São mulheres produzindo conhecimento, estabelecendo prioridades e conduzindo iniciativas que qualificam o desenvolvimento regional.
Reconhecer essa autoria faz parte da homenagem aos dois dirigentes. Uma instituição amadurece quando a contribuição de suas integrantes aparece com nome, responsabilidade e poder de decisão. A gratidão também alcança as equipes permanentes, cuja dedicação atravessa gestões e preserva a memória do trabalho.
O pertencimento que a homenagem reconhece
A relação entre indústria e floresta exige esse conjunto de competências. A existência de emprego urbano e atividade econômica pode contribuir para reduzir pressões sobre os recursos naturais, mas a proteção do território depende também de políticas ambientais, ciência, fiscalização e oportunidades adequadas às diferentes realidades amazônicas. A defesa consistente da Zona Franca comporta essa complexidade e ganha força quando assume o compromisso de avançar.
Há muito a fazer para aproximar a capacidade industrial da biodiversidade, ampliar a formação de nossos jovens e fortalecer as economias do interior. A segurança conquistada precisa favorecer investimentos e permitir que o Amazonas planeje seu futuro com maior autonomia. Luiz Augusto e Lúcio Flávio conhecem o tamanho dessa responsabilidade, inclusive porque acompanham as dificuldades de transformar uma proposta aceita em resultado duradouro.
A cidadania que lhes é atribuída reúne, portanto, reconhecimento e expectativa. A sociedade agradece o que recebeu e reafirma a confiança em quem continuará trabalhando. Os títulos carregam os nomes de duas pessoas, enquanto a história que os sustenta inclui muitas outras, unidas pelo esforço de assegurar ao Amazonas o direito de desenvolver suas capacidades.
Luiz Augusto e Lúcio Flávio, recebam esta homenagem com o abraço de quem os considera irmãos de caminhada. Há gratidão pela presença nos momentos difíceis, pela disposição de reunir pessoas e pela insistência em fazer ouvir uma região tantas vezes obrigada a explicar suas necessidades mais elementares.
O Amazonas registra agora, em sua memória pública, esse vínculo. E nós celebramos a oportunidade de dizer, com afeto e reconhecimento, quanto significou tê-los ao lado de nossa gente na defesa da vida, do trabalho e de um futuro que possamos construir com a floresta em pé.
A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, portal brasilamazoniaagora.com.br