Amazonas: a floresta como núcleo

O núcleo da vida do Amazonas é a sua floresta. Não há como renunciar a este dever histórico. Vez por outra entramos em conflito entre nós, mas a preservação deveria ser a centralidade das ações. Fora disso, não haverá paz. A grande questão é que, a despeito desta centralidade, a destruição invade as florestas, com uso dos recursos naturais para poucos e a degradação de vários ecossistemas, ao mesmo tempo em que amazônidas não conseguem fazer um uso mínimo do espaço e das riquezas potenciais. O dilema que vivemos é este meio termo entre nada fazer e tudo destruir.

O meio deste debate certamente não será exatamente no centro, pois em um ponto central, no longo prazo, teremos destruição. A questão é: como ter um convívio pacífico e construtivo? Como fazer, sem renunciar à liderança do território? Como aproveitar o recurso, sem ser predador? Como construir infraestrutura, sem provocar destruições? Como morar em harmonia com a natureza? Como colher, sem buscar agricultura extensiva e industrial? Como manter os caboclos ou o capitalismo nacional, sem se internacionalizar? Como desenvolver o humano, sem destruir as comunidades tradicionais? Como usar as novas tecnologias, sem atropelar as tradições milenares?

Amazonas
Foto divulgação

Este é o maior desafio histórico do momento em que vivemos e dos próximos 50 anos. Enquanto a geopolítica global está em rearranjo, precisaremos encontrar-nos com as nossas vocações, entre o dilema da colônia destruidora para agradar um império ou a colônia quieta para agradar outro império. Encontrar o caminho da liderança de si mesmo, voltando para uma postura altiva internacional é o nosso desafio, largando a mania de ser colônia de algum império extrativista.

Não será com data-centers ou produzindo pescado para o mundo que faremos a transição para a modernidade. Não será sem fazer uso da floresta que transformaremos a pobreza sem felicidade ou harmonia em uma alegria saudável e harmônica com o verde.

Enquanto não pacificarmos entre nós, conosco, enfrentando a alteridade (o “eu” só se constitui ao encontrar o outro e as suas culturas), enquanto não equilibrarmos os dilemas entre o global e o local, nossa relação com o planeta e o capital, não teremos paz. O Amazonas, com a quase totalidade do ambiente preservado poderia ser o centro desta discussão, com altivez. Impor o capital como a única saída pode ser um erro. Não usar o capital para a transformação pode ser também outro erro. Encontrar o caminho do meio, não tão ao centro é que é o desafio imposto. O absoluto centro do equilíbrio, onde não se faz nada, não funciona. Onde se destrói pelo grande capital, também não.

A oportunidade está posta, se a simplificação do marco legal não levar a destruição, mas é difícil acreditar nisso, pois a história aponta noutra direção. A questão que falta é: quando o Estado e o Governo Federal vão realizar o seu papel no Amazonas e na Amazônia? Por ora, seguimos a extrair e destruir, ora devagar, ora rapidamente. Os freios e contrapesos são apenas para frear a locomotiva da destruição. Não temos ninguém apontando para governança, proteção e soberania. Até quando seguiremos na marcha de um debate entre a inação e a destruição desvairada?

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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