O rio contempla um novo amanhecer da indústria do Amazonas

Coluna Follow-Up

O Amazonas chegou à metade de 2026 com uma economia que exige alguma paciência para ser compreendida. O indicador geral de atividade recuou, a produção industrial perdeu força e os serviços atravessaram um mês difícil. Ao mesmo tempo, o Polo Industrial de Manaus acumulou R$ 121,9 bilhões em faturamento no semestre, as importações de insumos cresceram, o emprego formal atingiu novo recorde e os empresários mantiveram uma confiança muito superior à observada na indústria brasileira.

Os números estão reunidos na edição de agosto do Painel da Economia Amazonense, o PEA, elaborado pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas. Tomados isoladamente, alguns indicadores parecem contar histórias opostas. Lidos em sequência, mostram uma economia que desacelerou no fechamento do semestre, como costuma ocorrer no calendário industrial local, e começou a preparar a produção destinada às vendas dos meses seguintes.

A questão decisiva será saber se essa preparação resultará efetivamente em aumento da produção, sustentação do emprego e maior circulação de renda.

A queda existe e precisa ser dimensionada

O Índice de Atividade Econômica Regional do Amazonas, calculado pelo Banco Central, caiu 9,25% em junho diante de maio na série sem ajuste sazonal. Depois de retirados os efeitos próprios do calendário, a retração foi de 4,44%. Em relação a junho de 2025, a atividade amazonense recuou 4,33% na série ajustada.

A intensidade da variação mensal chama atenção, embora o comportamento da economia amazonense costume ser mais volátil que o do país. A forte dependência da atividade industrial, concentrada em grandes linhas de produção, amplia tanto os períodos de crescimento quanto os recuos.

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Imagem criada por IA

O trimestre oferece uma leitura menos severa. Na série sem ajuste sazonal, a atividade avançou 1,45%. Com o ajuste, houve queda de 0,29%. O conjunto mostra perda de velocidade, sem caracterizar por enquanto uma deterioração generalizada da economia estadual.

Junho e julho são meses nos quais as fábricas revisam estoques, encomendas e planos de produção para o segundo semestre. Esse movimento ajuda a explicar a desaceleração, mas não elimina o sinal de alerta. A sazonalidade esclarece parte da queda; o desempenho dos meses seguintes mostrará quanto dela foi realmente transitório.

Comércio reage, serviços recuam

O comércio apresentou recuperação mensal. O volume do varejo restrito cresceu 3,24% em junho, descontadas as influências sazonais. No acumulado de 12 meses, porém, ainda havia redução de 0,70%.

A diferença entre receita e volume merece atenção. Enquanto o volume comercializado no varejo restrito caiu em 12 meses, a receita cresceu 3%. O consumidor deixou mais dinheiro nos estabelecimentos sem levar proporcionalmente mais mercadorias. A inflação e os preços praticados no Amazonas ajudam a explicar essa distância.

No comércio ampliado, que incorpora veículos e materiais de construção, o volume cresceu 0,69% em 12 meses. O resultado também ficou muito abaixo da expansão da receita, que alcançou 4,25%.

Outro termômetro, a venda de combustíveis pelas distribuidoras, confirma uma expansão moderada. Foram comercializados aproximadamente 1,1 milhão de metros cúbicos no primeiro semestre, apenas 2,8% acima do mesmo período de 2025.

Os serviços oferecem o quadro mais delicado. O volume caiu 2,32% na passagem mensal, 10,07% em relação a junho de 2025 e 5,74% no acumulado de 12 meses. A receita também recuou, embora com menor intensidade.

A diferença revela uma fraqueza mais persistente. Serviços respondem pela maior parcela dos empregos formais do Amazonas e alcançam segmentos da economia que ultrapassam os limites do Distrito Industrial. Uma perda prolongada nesse setor pode chegar com maior rapidez à renda e ao consumo das famílias.

A indústria cai no mês e cresce no semestre

A produção física da indústria amazonense recuou 11,31% em junho, já considerada a sazonalidade. Sem esse ajuste, a queda alcançou 17,05%. A indústria de transformação, que acompanha de perto o comportamento do PIM, caiu 18,31% diante de maio.

O movimento foi desigual. Máquinas e equipamentos avançaram 27,63%, e a metalurgia cresceu 13,38%. Na outra direção, bens de informática recuaram 34,6%, produtos químicos caíram 29,15%, e o segmento de duas rodas e naval perdeu 27,84%.

As comparações mensais capturam mudanças de escala em linhas produtivas de grande porte. Uma parada programada, o encerramento de um lote ou a preparação de um novo ciclo pode alterar intensamente o índice estadual. Por isso, o faturamento semestral oferece uma perspectiva complementar.

As fábricas do PIM faturaram R$ 20,13 bilhões em junho. Houve queda de 4,6% diante do mês anterior, acompanhada por crescimento de 13,1% em relação a junho de 2025.

No primeiro semestre, o faturamento chegou a R$ 121,9 bilhões, avanço nominal de 8,4%. Deflacionados os valores, o painel identifica crescimento real. Em dólares, a receita alcançou US$ 23,56 bilhões, 19,55% acima do registrado no mesmo período do ano anterior.

Termoplásticos, metalurgia, produtos químicos e bens de informática aparecem entre os destaques positivos do semestre. O setor mecânico permanece como principal resultado negativo.

O PEA também identifica alguma diversificação na origem do faturamento. Os produtos tradicionalmente mais relevantes do PIM não explicam sozinhos todo o aumento de receita. É um movimento a ser acompanhado, pois uma base industrial menos concentrada reduz a exposição da economia a oscilações de poucos bens de consumo.

O paradoxo dos condicionadores de ar

O setor de condicionadores de ar ilustra bem a necessidade de separar o retrato mensal da trajetória acumulada. No primeiro semestre, a produção caiu 56,33% e o faturamento recuou 61,53% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado carrega o efeito de uma base excepcionalmente elevada no ano anterior.

Em junho, entretanto, a produção reagiu com força. As unidades evaporadoras cresceram 62% diante de maio e atingiram recorde mensal.

O calor associado ao El Niño pode ampliar a demanda nos próximos meses. Essa possibilidade depende da evolução climática, dos estoques existentes no varejo, do crédito e da renda disponível. A retomada mensal abre uma perspectiva, enquanto a queda semestral mostra o terreno que ainda precisa ser recuperado.

A encomenda do futuro próximo

As importações talvez sejam o indicador mais prospectivo desta edição. O PIM importa grande quantidade de componentes, peças e matérias-primas que posteriormente ingressam nas linhas de montagem. Quando essas compras aumentam, a indústria costuma estar preparando um novo ciclo de produção.

Em julho, as importações alcançaram US$ 1,64 bilhão, crescimento de 20% diante de junho e de 17% em comparação com julho de 2025.

Eletrônicos e bens de informática ampliaram as compras externas em quase 17%. Nos segmentos químico e termoplástico, parte da elevação pode refletir aumento dos preços dos insumos. Ainda assim, a movimentação portuária e aduaneira aponta para um segundo semestre mais ativo.

O dado não garante sozinho a expansão. Os insumos precisam chegar às fábricas, ser transformados, vendidos e entregues aos mercados consumidores. Crédito caro, demanda nacional enfraquecida, custos logísticos ou eventos climáticos podem alterar esse percurso. Por ora, existe uma encomenda industrial maior a caminho das linhas de produção.

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Emprego renova o recorde

O resultado mais concreto para a sociedade está no mercado de trabalho. O Amazonas encerrou julho com 578.982 vínculos formais, superando o recorde registrado em novembro de 2025.

Todos os grandes setores apresentaram crescimento. Os serviços acrescentaram 2.219 postos e chegaram a 264.102 empregos. A construção teve o maior avanço proporcional, de 5,45%, com a abertura de 1.728 vagas no mês.

A indústria geral alcançou 145.078 trabalhadores. Dentro dela, a indústria de transformação registrou o recorde de 135.152 vínculos.

O setor de eletrônicos e informática ainda é o maior empregador do PIM, com 30.526 postos, embora tenha perdido 4,83% de sua força de trabalho em um ano. O segmento de duas rodas avançou 10,57% e chegou a 24.938 empregos. A diferença entre os dois movimentos mostra que o crescimento industrial distribui seus efeitos de forma desigual.

O recorde estadual tem peso especial porque o emprego formal atravessa a fronteira entre a contabilidade das empresas e a vida econômica das famílias. Salário, consumo, crédito e arrecadação municipal dependem dessa capacidade de preservar postos e abrir novas vagas.

A confiança local resiste ao pessimismo nacional

A Enquete de Confiança da Indústria do CIEAM registrou 57,26 pontos em agosto. Houve redução diante da leitura anterior, mas o indicador permaneceu acima dos 50 pontos, limite que separa confiança de falta de confiança.

No Brasil, o índice equivalente da Confederação Nacional da Indústria ficou em 46,3 pontos. A indústria nacional permanece na zona de pessimismo, enquanto os empresários amazonenses sustentam uma percepção mais favorável sobre a realidade local.

Essa confiança parece estar apoiada no faturamento acumulado, na manutenção do emprego, no aumento das importações e na expectativa de estabilidade institucional do modelo Zona Franca durante a transição da Reforma Tributária.

Confiança, entretanto, é uma expectativa. Seu valor econômico depende da conversão em investimentos, produção, contratação e inovação. A distância entre os dois indicadores também recomenda cautela: grande parte da produção do PIM é vendida ao restante do país, cuja indústria permanece desconfiada e cujo consumo pode responder mais lentamente.

Arrecadação confirma o peso da atividade produtiva

O Amazonas arrecadou R$ 14,48 bilhões em tributos federais no primeiro semestre, recorde em valores nominais e resultado cerca de 15% superior ao maior registro anterior.

No âmbito estadual, a arrecadação de ICMS chegou a R$ 9,45 bilhões até julho. O valor permaneceu relativamente estável em termos nominais e perdeu força quando descontada a inflação. A base elevada de 2025 também tornou a comparação mais exigente.

A indústria respondeu por 43,7% do ICMS arrecadado no período. O dado reforça uma característica antiga da economia amazonense: a atividade industrial sustenta parcela expressiva da receita pública, inclusive quando o desempenho mensal da produção oscila.

Esse fluxo tributário merece aparecer no debate nacional sobre a Zona Franca. O modelo combina incentivos constitucionais com produção, emprego e uma devolução tributária expressiva à União e ao Estado. Avaliar apenas a renúncia estimada, sem examinar a arrecadação efetiva e a riqueza distribuída pelas cadeias produtivas, produz um retrato incompleto.

O segundo semestre já começou nas importações

O PEA desenha uma economia que encerrou o semestre em desaceleração e iniciou o seguinte com sinais de preparação produtiva. A atividade caiu, os serviços atravessam dificuldades e vários segmentos industriais reduziram a produção. Em paralelo, o faturamento semestral cresceu, as importações avançaram e o emprego formal alcançou o maior nível da série recente.

A trajetória será definida pela capacidade de converter insumos importados e confiança empresarial em produção, vendas e renda. Também dependerá das condições nacionais de consumo, juros e crédito, além da logística amazônica em um período sujeito a extremos climáticos.

O painel cumpre melhor sua função quando permite enxergar essas relações. Indicadores econômicos raramente caminham em perfeita harmonia. Alguns descrevem o mês que passou; outros antecipam decisões empresariais e movimentos que ainda chegarão ao comércio e ao emprego.

No Amazonas, as importações já apontam para o segundo semestre. Os serviços e parte da indústria ainda carregam o peso de junho. Entre os dois tempos, o recorde de emprego oferece o sinal social mais importante e aumenta a responsabilidade de preservar a recuperação.



A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, do portal brasilamazoniaagora.com.br 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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