Panamá, um espelho sugestivo para Manaus

“Manaus não precisa transformar-se numa cópia da Cidade do Panamá. Sua história, sua geografia e sua formação social possuem características próprias. Ainda assim, o Panamá oferece uma referência útil porque reúne condições que nos são familiares: clima tropical, presença das águas, diversidade cultural, importância logística, natureza próxima e uma economia marcada pelo comércio internacional”

Voltei recentemente ao Panamá para participar de uma feira internacional. Já conhecia o país, mas a lembrança que carregava pertencia a outro tempo, distante algumas décadas. Por isso, talvez tenha sido ainda maior o impacto de reencontrar uma cidade que preservou parte de sua história e, ao mesmo tempo, adquiriu a segurança urbana e o dinamismo econômico de uma capital integrada ao mundo.

A Cidade do Panamá cresceu. Seus edifícios, avenidas, hotéis e centros comerciais demonstram isso imediatamente. O que mais me impressionou, porém, foi perceber que o avanço não se resume ao perfil dos arranha-céus. Há uma compreensão bastante madura de que o visitante precisa ser acolhido por uma cidade inteira, desde o momento da chegada até a experiência nos restaurantes, nos hotéis, nas áreas históricas, nos centros de convenções e nos espaços públicos.

Panamá
Panamá

Viajei motivado por uma feira e por interesses profissionais. Como costuma ocorrer nessas ocasiões, o evento ocupava o centro da agenda. Aos poucos, a cidade foi ampliando a viagem. O Panamá sabe aproveitar a presença de quem chega para fazer negócios. Uma reunião leva a um restaurante, um compromisso profissional aproxima o visitante de um bairro histórico, uma conversa no hotel apresenta novas possibilidades comerciais. A permanência deixa de ser uma sucessão de deslocamentos e passa a oferecer uma experiência mais completa.

Há uma lição importante nessa capacidade de conectar atividades que tantas cidades administram separadamente. Turismo, comércio, gastronomia, hotelaria, cultura, mobilidade e ambiente de negócios participam de uma mesma engrenagem. Cada setor reforça o outro. Uma feira internacional movimenta hotéis e restaurantes, promove encontros empresariais, divulga produtos locais e oferece ao país uma ocasião para apresentar sua identidade.

Uma cidade voltada para as conexões

O Panamá construiu parte de sua história em torno da circulação. O canal tornou-se o símbolo maior dessa vocação, mas ela se espalhou pela economia, pelo aeroporto, pelos serviços e pela vida urbana.

O Aeroporto Internacional de Tocumen recebe voos diretos de dezenas de destinos e opera como uma grande porta de entrada continental. A cidade também dispõe de metrô, terminais rodoviários, aplicativos de transporte e uma estrutura que permite ao estrangeiro compreender com relativa facilidade como chegar, circular e retornar. Há congestionamentos e dificuldades, como em qualquer metrópole latino-americana, mas o visitante percebe que existe um sistema organizado para recebê-lo.

A conectividade produz efeitos econômicos bastante concretos. Uma cidade acessível amplia o número de feiras, congressos, encontros empresariais e viagens de curta duração. A escala aérea pode converter-se em hospedagem, refeição, compra, visita cultural ou reunião de negócios. O viajante encontra razões para permanecer um pouco mais.

Essa foi uma das questões que me acompanharam durante a viagem. Manaus também ocupa uma posição geográfica singular. É a principal metrópole da Amazônia brasileira, abriga um dos maiores polos industriais do país e serve como ponto de partida para experiências naturais que dificilmente podem ser reproduzidas em outro lugar. Mesmo assim, chegar à cidade continua caro e, em muitos casos, complicado. Depois da chegada, os atrativos aparecem dispersos, com pouca sinalização e conexões frágeis entre aeroporto, hotéis, Centro Histórico, restaurantes, porto e roteiros fluviais.

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Manaus- Amazonas

Modernidade, memória e vida cotidiana

A Cidade do Panamá oferece uma convivência interessante entre diferentes épocas. De um lado, está a paisagem moderna da Avenida Balboa, dos edifícios empresariais e da Cinta Costera. De outro, aparecem Panamá Viejo, com as ruínas da cidade fundada em 1519, e o Casco Antiguo, onde edifícios coloniais restaurados passaram a abrigar hotéis, museus, cafés, restaurantes e uma movimentada vida noturna. As áreas históricas são reconhecidas pela Unesco como Patrimônio Mundial.

O patrimônio foi incorporado à economia contemporânea sem perder inteiramente sua memória. Caminha-se por ruas antigas, observa-se a arquitetura, conhece-se a história e, ao mesmo tempo, encontram-se serviços capazes de sustentar a permanência de moradores e turistas.

Manaus possui uma herança urbana igualmente expressiva. O Teatro Amazonas, o Mercado Adolpho Lisboa, o Porto de Manaus, as praças, igrejas, fachadas e edifícios do ciclo da borracha contam uma história que ultrapassa os limites regionais. Nossa cidade já esteve entre as capitais brasileiras mais avançadas em infraestrutura e vida cultural.

Parte desse patrimônio sobrevive, mas nem sempre forma um percurso confortável, seguro e bem cuidado. Temos pontos turísticos. Ainda precisamos transformá-los numa experiência urbana contínua. Entre um edifício restaurado e outro, o visitante encontra calçadas precárias, fios expostos, insegurança, imóveis abandonados, lixo e dificuldades de mobilidade. Esses problemas também afetam os moradores e enfraquecem a relação afetiva da própria população com o Centro.

A recuperação urbana exige obras, naturalmente, mas depende também de manutenção, iluminação, segurança, limpeza, arborização, sinalização, programação cultural e presença permanente de atividades econômicas. Uma área histórica cuidada durante todo o ano produz valor para a cidade inteira.

O refinamento que começa no acolhimento

Outro aspecto que me chamou a atenção foi a hospitalidade. Nos hotéis, restaurantes, estabelecimentos comerciais e ambientes ligados à feira, encontrei atendimento atencioso, pessoas educadas e uma disposição natural para orientar o visitante. Há refinamento, mas sem excessiva formalidade. O acolhimento aparece nos detalhes, na apresentação dos ambientes, no cuidado com a mesa, no respeito ao cliente e na maneira de explicar um prato ou indicar um caminho.

Essa qualidade humana possui valor econômico. Um visitante bem recebido permanece mais tempo, recomenda o destino e considera retornar. Um empresário que encontra bons serviços, conexões fáceis e profissionais preparados sente maior segurança para fazer negócios.

Manaus é reconhecida pela generosidade de sua gente. Sabemos acolher de maneira espontânea. Falta transformar essa disposição em uma política abrangente de hospitalidade, com capacitação, idiomas, informações turísticas, atendimento profissional e compreensão da diversidade de públicos que chegam à cidade.

O cuidado também precisa alcançar taxistas, motoristas, recepcionistas, garçons, agentes públicos, guias, comerciantes e trabalhadores dos terminais. São essas pessoas que, muitas vezes, oferecem ao visitante a primeira e a última impressão de uma cidade.

A gastronomia como identidade e negócio

A culinária foi uma das experiências mais agradáveis da viagem. Há sabores que se aproximam dos nossos, especialmente pelo uso de peixes, frutos do mar, banana, mandioca, arroz, coco, pimentas, ervas e frutas tropicais. A influência indígena, africana, caribenha, espanhola e asiática formou uma cozinha diversa, facilmente reconhecida como parte da história panamenha.

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Culinaria Panamá

Desde 2017, a Cidade do Panamá integra a Rede de Cidades Criativas da Unesco na categoria Gastronomia. Esse reconhecimento acompanha um trabalho que distribui a experiência culinária por diferentes bairros, mercados e faixas de preço. Há restaurantes sofisticados, comida de rua, mercados de frutos do mar e espaços dedicados à produção local. A cidade organiza sua diversidade em polos gastronômicos e faz da mesa um caminho para conhecer o país.

Essa aproximação com a Amazônia é inevitável. Poucas cidades possuem uma riqueza culinária comparável à de Manaus. Tambaqui, pirarucu, jaraqui, tucupi, farinha do Uarini, castanha, açaí, cupuaçu, pupunha, araçá-boi e tantas outras frutas e ingredientes formam um patrimônio de enorme valor cultural e econômico.

Temos excelentes restaurantes e cozinheiros criativos. O desafio está em organizar essa oferta, conectá-la aos produtores, valorizar mercados e feiras, qualificar o atendimento e contar ao visitante a história que acompanha cada ingrediente. A gastronomia pode ampliar a renda de agricultores, pescadores, comunidades, cozinheiras tradicionais, pequenos empreendedores e profissionais da alimentação.

O Panamá demonstra que sofisticação e tradição popular podem conviver. Um restaurante de alta cozinha e uma banca de mercado participam da mesma identidade quando a cidade reconhece o valor de ambos.

A natureza incorporada à cidade

A presença da vegetação e dos parques também produz identificação imediata com a nossa realidade. Na Cidade do Panamá, áreas como o Parque Natural Metropolitano permitem caminhar por trilhas e observar aves e animais silvestres a curta distância da região central. O Causeway de Amador reúne passeio, esporte, museus, marinas, ciência, restaurantes e vistas abertas para a cidade e para o canal.

A natureza foi incorporada à oferta urbana. Ela permanece protegida e, ao mesmo tempo, acessível. O visitante entende onde está, como chegar, o que encontrará e quais cuidados precisa observar.

Manaus vive no centro de um patrimônio natural incomparável. Temos o Encontro das Águas, os igarapés, as praias fluviais, o arquipélago de Anavilhanas, o Museu da Amazônia, o Bosque da Ciência, as reservas próximas e uma infinidade de experiências comunitárias. No entanto, ainda convivemos com improvisação, pouca informação, terminais inadequados e ausência de padrões consistentes de segurança, higiene, acessibilidade e atendimento.

Valorizar um atrativo envolve protegê-lo, organizar o acesso, formar profissionais, controlar impactos ambientais e assegurar que a renda chegue às comunidades relacionadas àquele território. A visita precisa deixar benefícios e boas lembranças.

O que podemos trazer dessa experiência

Manaus não precisa transformar-se numa cópia da Cidade do Panamá. Sua história, sua geografia e sua formação social possuem características próprias. Ainda assim, o Panamá oferece uma referência útil porque reúne condições que nos são familiares: clima tropical, presença das águas, diversidade cultural, importância logística, natureza próxima e uma economia marcada pelo comércio internacional.

A principal inspiração talvez esteja na capacidade de conexão. O Panamá apresenta seus ativos como partes de uma experiência integrada. A infraestrutura favorece os negócios; os negócios movimentam a hotelaria; a hotelaria aproxima o visitante da gastronomia; a gastronomia valoriza a cultura; o patrimônio amplia a permanência; a natureza completa a viagem.

Manaus reúne quase todos esses elementos. O que nos falta é articulá-los, cuidar melhor deles e construir continuidade entre uma atração e outra. Precisamos de mobilidade mais eficiente, um Centro Histórico vivo, orlas cuidadas, terminais dignos, segurança, calçadas transitáveis, sinalização, qualificação profissional e uma agenda permanente de feiras, congressos, cultura e gastronomia.

Ao retornar ao Panamá depois de tantas décadas, encontrei um país que soube aproveitar sua posição geográfica e acrescentar valor a ela. O canal continua fundamental, mas a cidade já compreendeu que uma vantagem histórica precisa ser acompanhada por serviços, educação, planejamento, hospitalidade e qualidade urbana.

Manaus também recebeu da geografia um patrimônio extraordinário. A floresta, os rios e a biodiversidade nos oferecem uma visibilidade que muitas cidades gostariam de possuir. A Zona Franca acrescentou indústria, tecnologia, trabalho e relações comerciais com o mundo. Temos, portanto, uma base incomum.

A pergunta que trouxe comigo é simples de formular e difícil de responder: quando seremos capazes de organizar tudo isso como um projeto de cidade?

O Panamá mostra que a transformação leva tempo, exige continuidade e depende de escolhas públicas e privadas que sobrevivam aos governos. Para Manaus, talvez seja o momento de abandonar a administração isolada de seus atrativos e pensar na experiência completa de quem mora, trabalha, investe ou nos visita. Uma cidade que cuida do visitante tende a cuidar melhor de seus próprios habitantes.

Belmiro Vianez Filho
Belmiro Vianez Filho
Empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commercio.

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