A demanda por minerais na transição energética cresce com a expansão de painéis, turbinas, baterias e redes, ampliando desafios ambientais e industriais.
A expansão da energia limpa também traz um custo material. Para reduzir o uso de carvão, petróleo e gás, o mundo precisará fabricar bilhões de equipamentos, ampliar redes elétricas e substituir componentes desgastados. Esse processo coloca os minerais na transição energética no centro das decisões das próximas décadas.
Painéis fotovoltaicos, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos utilizam cobre, lítio, níquel, cobalto, grafite, manganês e elementos de terras raras. A lista ainda inclui alumínio, aço, silício e prata, além dos materiais empregados em cabos, fundações, transformadores, inversores e subestações.
Embora produzam eletricidade com baixas emissões durante a operação, as tecnologias renováveis dependem de uma extensa cadeia de extração, processamento e fabricação. O desafio é reduzir o uso de combustíveis fósseis sem transferir custos ambientais e sociais para regiões mineradoras.
Renováveis exigem infraestrutura em grande escala
A capacidade solar instalada no planeta aproximou-se de 2,4 mil gigawatts ao final de 2025. Se esse volume fosse formado apenas por módulos de 400 watts, seriam necessários quase 6 bilhões de painéis. No mesmo período, a capacidade eólica mundial chegou a aproximadamente 1,3 mil gigawatts.
O Parque Solar de Bhadla, na Índia, demonstra a dimensão física dessa infraestrutura. Construído em 56 quilômetros quadrados do deserto de Thar, o empreendimento possui cerca de 10 milhões de painéis e capacidade instalada de 2.245 megawatts.
A geração não depende de combustíveis fósseis, mas o complexo precisou de grandes quantidades de materiais para ser construído e conectado ao sistema elétrico. Esse padrão se repete em projetos renováveis espalhados pelo mundo.
Segundo comparações da Agência Internacional de Energia, uma usina eólica terrestre pode utilizar cerca de nove vezes mais minerais críticos por unidade de capacidade do que uma termelétrica a gás. Em instalações marítimas, a diferença pode chegar a 13 vezes devido às fundações e aos cabos submarinos. Os cálculos não consideram aço e alumínio.
Esses números não significam que as fontes tenham o mesmo impacto climático, a comparação mostra apenas que reduzir emissões não equivale a eliminar a utilização de matérias-primas e o impacto ambiental.
Demanda combina crescimento e reposição
A pressão sobre os minerais na transição energética será determinada tanto pela instalação de novos projetos quanto pela renovação daqueles que já estão funcionando. Painéis solares apresentam vida útil média de 25 a 35 anos, enquanto turbinas eólicas podem operar por cerca de três décadas.
As estruturas, no entanto, não envelhecem de maneira uniforme. Torres e fundações podem permanecer em uso por períodos maiores, enquanto pás, geradores e inversores demandam reparos ou trocas antecipadas. Assim, parte dos equipamentos instalados atualmente precisará ser modernizada antes de 2050.
A reciclagem poderá recuperar uma parcela dos materiais, mas ainda não consegue atender sozinha à expansão prevista. Separar os componentes de painéis fotovoltaicos é complexo, pás eólicas contêm materiais de difícil reaproveitamento e baterias requerem sistemas próprios de coleta, desmontagem e tratamento.
Quando não há estrutura adequada ou o processamento é economicamente inviável, equipamentos descartados podem virar resíduos de longa duração. Mesmo com avanços na economia circular, a fabricação de novas instalações continuará dependendo de matérias-primas recém-extraídas, ressaltando a centralidade dos minerais na transição energética.
Eletrificação dos transportes amplia procura
A bateria torna o automóvel elétrico mais intensivo em minerais críticos. De acordo com a Agência Internacional de Energia, um modelo típico pode utilizar cerca de seis vezes mais desses insumos do que um veículo convencional. O resultado varia conforme o tamanho do carro e a tecnologia empregada.
Mais de 20 milhões de carros elétricos foram comercializados em 2025, representando cerca de um quarto das vendas mundiais de automóveis novos. A eletrificação reduz a queima direta de gasolina e diesel, mas exige atenção à procedência dos materiais, às condições de fabricação e ao destino das baterias usadas.
O benefício climático também depende da matriz elétrica. Quanto maior a participação de fontes de baixo carbono no carregamento, menor tende a ser a emissão associada à circulação do veículo.
Centros de dados entram na disputa por recursos
A digitalização acrescenta uma nova camada à demanda por minerais na transição energética. Serviços digitais e sistemas de inteligência artificial funcionam em centros de dados que reúnem servidores, redes, componentes eletrônicos e estruturas de refrigeração. Todo esse conjunto consome energia e materiais refinados em alto grau de pureza.
A fabricação de equipamentos eletrônicos complexos pode demandar entre 50 e 350 vezes o peso final do produto em matérias-primas. Parte dos componentes utilizados nos centros de dados também é substituída em intervalos de dois a cinco anos.
Para garantir o abastecimento dessas instalações, empresas de tecnologia passaram a contratar grandes volumes de energia renovável. Uma delas firmou mais de 240 acordos entre 2010 e 2025, totalizando quase 35 gigawatts. Caso toda essa capacidade viesse de módulos solares de 400 watts, seriam necessários cerca de 90 milhões de painéis, embora os contratos incluam diferentes fontes.
Planejamento precisa incluir toda a cadeia
A oferta de minerais na transição energética pode ser afetada pela concentração da mineração e do processamento em poucos países, por disputas geopolíticas e pelo tempo necessário para desenvolver novos projetos. A abertura de minas também pode gerar impactos sobre ecossistemas, trabalhadores e comunidades próximas.
Por isso, uma política energética sustentável precisa avaliar a procedência dos materiais, a durabilidade dos produtos e as possibilidades de reparo, reutilização e reciclagem. Fiscalização ambiental, proteção trabalhista e participação das populações afetadas também devem fazer parte desse planejamento.
A dependência de recursos minerais não invalida os benefícios das fontes renováveis. Ela evidencia a necessidade de construir um sistema energético que seja não apenas menos emissor, mas também eficiente no uso de materiais e socialmente responsável.