“O AMAZONAS espera que cada um cumpra o seu dever”


Com uma base industrial construída ao longo de décadas, o Amazonas pode ampliar sua riqueza e levar oportunidades ao interior. A preparação para o novo ano exige cooperação, atenção à transição tributária e investimentos que aproximem indústria, ciência e recursos regionais.

Gostaria que o próximo ano de 2027 nos encontrasse mais solidários em torno do que nos une e cada vez menos disponíveis para alimentar aquilo que nos separa. Penso nos empresários, nos trabalhadores, nas lideranças políticas, nos pesquisadores e em todos os que participam da construção cotidiana do Amazonas. Temos diferenças legítimas, que continuarão existindo. Mas compartilhamos uma responsabilidade suficientemente grande para que essas diferenças deixem de consumir tanto tempo, tanta disposição e tantas oportunidades de trabalhar juntos.

Quem acompanha a atividade industrial conhece o custo de uma decisão adiada. Uma negociação que não avança compromete investimentos; uma infraestrutura que demora encarece a produção; um projeto sem encaminhamento mantém empregos apenas no papel. Quando essas dificuldades se acumulam, seus efeitos alcançam o comércio, os serviços e a renda das famílias. É por isso que o convite à cooperação tem, para nós, um sentido muito concreto.

Precisamos chegar a 2027 com maior capacidade de decidir e executar. O desenvolvimento regional, a redução das desigualdades e a sustentação das receitas públicas exigem uma articulação à altura da economia que já construímos e das necessidades que ainda não conseguimos atender.

A experiência que nos trouxe até aqui

O Amazonas dispõe de uma base produtiva que permite encarar esse desafio com confiança. Segundo a Suframa, o Polo Industrial de Manaus encerrou 2025 com R$ 227,67 bilhões de faturamento, reunindo cerca de 600 indústrias em diferentes segmentos. Esse patrimônio envolve instalações, fornecedores, conhecimento tecnológico e gerações de trabalhadores que aprenderam a produzir com qualidade em condições frequentemente adversas. 

Em 2026, os resultados mantêm essa disposição de crescer. De janeiro a agosto, o faturamento alcançou R$ 165,12 bilhões, avanço nominal de 10,47% sobre o mesmo período de 2025. Em agosto, o conjunto de trabalhadores efetivos, temporários e terceirizados chegou a 135.080 pessoas. As exportações somaram US$ 539,99 milhões nos oito primeiros meses, com crescimento de 31,26% na comparação anual. São indicadores de uma capacidade produtiva que segue encontrando espaço para se expandir. 

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Imagem criada por IA

O faturamento nominal precisa ser lido com atenção aos preços e à composição da produção. Ainda assim, o movimento conjunto de vendas, emprego e exportações oferece razões para trabalhar por novos recordes. Nossa tarefa é ampliar a parcela desses resultados que se transforma em renda regional, qualificação profissional, compras de fornecedores locais e oportunidades para quem ainda está distante da economia industrial.

A experiência de produzir no Amazonas nos ensinou a encontrar soluções onde outros enxergavam apenas obstáculos. Sabemos o trabalho necessário para cumprir um prazo, formar uma equipe e manter uma fábrica competitiva. Esse aprendizado pode ser mais bem aproveitado na construção de novas atividades econômicas.

A receita e o território

A reforma tributária acrescenta urgência a essa discussão. A tributação no destino modifica, progressivamente, a relação entre o lugar onde se produz e o lugar ao qual pertence a receita do consumo. Para um estado que abriga um grande parque industrial, compreender essa mudança e preparar respostas é parte central do planejamento econômico.

Convém observar o calendário. Em 2027, a CBS substituirá PIS e Cofins; a substituição gradual de ICMS e ISS pelo IBS ocorrerá entre 2029 e 2032, com vigência integral do novo modelo em 2033. A distribuição federativa das receitas tem uma transição mais longa, com regras que alcançam 2077. Portanto, a mudança de endereço da arrecadação será gradual, embora as decisões de preparação precisem começar agora. 

A defesa das receitas do Amazonas exige acompanhamento técnico, representação política e capacidade de negociação. Também exige clareza sobre os instrumentos de compensação e sobre a efetividade das garantias destinadas à Zona Franca de Manaus. Quanto mais consistente for nossa atuação conjunta, melhores serão as condições para defender os interesses regionais.

Ao mesmo tempo, precisamos ampliar a economia que sustenta essas receitas. Produzir mais, agregar valor e distribuir melhor as oportunidades são objetivos que devem caminhar juntos. Num sistema orientado pelo destino, emprego, renda e consumo regional ganham relevância adicional. O crescimento industrial continuará fundamental, associado a uma economia local mais diversificada e a famílias com maior poder de compra.

Nenhuma articulação, por mais necessária, permite prometer a recuperação integral de receitas sem cálculos e sem conhecer seus efeitos ao longo do tempo. Mas a ausência de articulação certamente enfraquece nossa capacidade de construir alternativas.

O próximo passo da indústria

Vejo no adensamento produtivo uma das oportunidades mais importantes dessa agenda. Há espaço para examinar quais componentes, insumos, serviços tecnológicos e processos podem ser desenvolvidos regionalmente, com qualidade, escala e viabilidade econômica. Cada oportunidade precisa de estudo, investimento e compradores. A proximidade entre empresas, centros de pesquisa e instituições de formação pode encurtar esse percurso.

O mesmo raciocínio vale para os bioativos amazônicos. Entre uma propriedade identificada em laboratório e um produto comercial há pesquisa aplicada, testes, padronização, financiamento e acesso ao mercado. Podemos aproximar a experiência industrial desses desafios e organizar parcerias nas quais pesquisadores, empreendedores e comunidades produtoras participem dos resultados.

Uma cooperativa que consegue entregar matéria-prima com regularidade e qualidade passa a negociar em outras condições. Uma empresa que encontra apoio para desenvolver um ingrediente regional pode abrir um mercado. Um jovem que recebe formação adequada pode trabalhar nessa cadeia sem precisar abandonar seu município. É nesse nível de concretude que a bioeconomia precisa avançar.

Também devemos estudar as possibilidades de beneficiamento dos minerais críticos, considerando a viabilidade de cada projeto, as exigências ambientais e os direitos das populações envolvidas. A presença de um recurso mineral, por si só, não assegura uma cadeia industrial. Para que o Amazonas participe das etapas de maior valor, serão necessários conhecimento geológico, tecnologia, energia, infraestrutura e compromissos duradouros de investimento.

Temos condições de formular essas perguntas com ambição e de buscar respostas com método. O conhecimento acumulado no Polo Industrial pode contribuir para avaliar processos, formar profissionais e aproximar potenciais fornecedores e compradores.

O interior precisa participar

A interiorização do desenvolvimento demanda escolhas adequadas a cada território. Municípios com diferentes condições de acesso, disponibilidade de energia, produção e formação profissional precisarão de soluções próprias. Isso inclui unidades de beneficiamento, armazenamento, conservação de alimentos, serviços técnicos e estruturas que permitam vender melhor o que já se produz.

Uma parte dessa integração pode começar pelas necessidades do próprio parque industrial e de seus trabalhadores. Alimentação, embalagens, manutenção, soluções digitais e serviços especializados oferecem caminhos a investigar. Com assistência técnica e contratos consistentes, pequenos negócios podem ganhar condições de participar de mercados maiores.

Precisamos acompanhar quanto dessa riqueza chega aos municípios, quantos fornecedores regionais conseguem crescer e quantos jovens encontram trabalho qualificado perto de suas famílias. Esses resultados devem integrar nossa avaliação do desenvolvimento, ao lado dos recordes de faturamento.

A indústria tem interesse direto numa região mais próspera. Serviços melhores, trabalhadores mais qualificados e fornecedores mais competitivos fortalecem o ambiente produtivo. Há uma reciprocidade econômica nessa relação que merece orientar investimentos públicos e privados.

Uma disposição comum para 2027

Nada disso dispensa esforço. Exige recursos, competência e continuidade. Mas podemos começar por providências ao nosso alcance, como compartilhar informações, aproximar equipes, definir responsáveis e dar seguimento ao que foi pactuado. Muitas vezes, a dificuldade está na distância entre instituições que trabalham sobre o mesmo problema sem conseguir somar suas capacidades.

Gostaria de ver governo, prefeituras, bancada parlamentar, entidades empresariais, trabalhadores e instituições científicas construindo uma agenda com prioridades e prazos. Uma agenda capaz de sobreviver às disputas do calendário político e de prestar contas de seus resultados à sociedade.

Cada um de nós pode contribuir para esse ambiente, inclusive na maneira como trata quem pensa diferente. Há divergências que aperfeiçoam decisões e há ressentimentos que apenas prolongam impasses. Podemos reconhecer essa diferença e reservar nossas melhores energias ao trabalho que precisa avançar.

O Amazonas chega a essa discussão com experiência industrial, capacidade de pesquisa e possibilidades econômicas que merecem investimento. Temos razões para esperar uma contrapartida generosa em empregos, renda e serviços públicos, desde que saibamos transformar essas condições em projetos viáveis e continuados.

É com essa disposição que desejo encontrar 2027. Mais gente trabalhando em torno de objetivos comuns, mais oportunidades chegando ao interior e uma indústria cada vez mais ligada à prosperidade de toda a região. Não temos tempo a perder nem energia pra desperdiçar, sobretudo quando há tanto trabalho possível e tanta gente esperando participar de seus resultados.


Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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