“Não temos soluções para a economia real ou para a logística da indústria amazonense. É oportuno começarmos a enfrentar o assunto de frente”
Há seca na Amazônia. Há redução no nível dos rios. É quase certo que haverá transbordo de contêineres próximo à Itacoatiara, no trânsito dos navios de cabotagem e longo curso que transportam contêineres com destino Manaus. Com isso, os custos da seca aumentarão e teremos uma repetição do que aconteceu em 2024. Nestes últimos anos, entre o caos logístico de 2023, o arranjo de 2024 e a seca mais amena de 2025, aprendemos bastante como sociedade, mas ainda fizemos menos do que o necessário.
Novamente se planeja e se executa uma dragagem. Com boa-vontade e diligência, gastaremos mais de R$ 90 milhões numa operação que é provável que seja, em boa medida, inútil. É um enorme esforço operacional, com delimitação mais cautelosa da área, por parte da Marinha, com realização do DNIT com um equipamento mais apropriado, diferenciando o improviso de 2023, mas, ao final, com um desfecho que será, provavelmente, muito semelhante ao que aconteceu em 2024: o maior rio do mundo, com um volume gigante de água, terá dois trechos de restrição que impedirão a navegação das grandes embarcações.
É uma pena, pois seguiremos fazendo uma obra cara, sem um estudo prévio compatível com a necessidade que verifique qual a obra mais acertada para ser feita. Tudo isso parece ótimo para a mídia rápida. Inútil para a vida empresarial que depende deste tipo de trânsito, afinal será difícil de evidenciar uma análise Custo-Benefício adequada, que é o método preconizado na literatura da Engenharia Civil e Hidroviária para obras públicas de grande porte. Afinal, mesmo com a dragagem, a “hidrovia” deixará de operar para a navegação de maior calado.
Os custos serão enormes. A interrupção servirá novamente de argumento para a concessão, por mais que não existam estudos demonstrando que a concessão resolve. E, claramente, a concessão, em minha opinião, não resolve. A causa do problema é a seca provocada pelo El Niño, que parece agora ser um consenso amplo. Tivemos um ano de alívio e parece que esquecemos do problema. Voltamos a fazer o que não resolve, como se não tivéssemos visto a inutilidade de 2023 e 2024. Gasta-se muito com obra ineficaz, mas não se estuda qual seria a obra eficaz. Em minha opinião uma hipótese seria investigar o efeito do aprofundamento do canal como solução perene e que acabe com a dragagem no Amazonas.
Mesmo apresentando uma hipótese, que não sei se é válida, sigo com a percepção de que ninguém tem clareza e evidências de Engenharia sobre qual a solução para o problema, com documentação ampla e que não seja facilmente refutada. Enquanto não houver este estudo, o que teremos são soluções para redes sociais. Não temos soluções para a economia real ou para a logística da indústria amazonense. É oportuno começarmos a enfrentar o assunto de frente.
Minimamente, este artigo poderá se mostrar errado em 15/11/2026, caso a dragagem seja eficaz e a navegação não tenha sido interrompida. Por outro lado, poderemos, no dia da República, voltar ao tema da importância do debate republicando sobre o que interessa aos amazonenses no que diz respeito à Engenharia Hidroviária do Rio Amazonas, no entorno da Foz do Rio Madeira e da região do Tabocal: afirmando que em setembro de 2026 havíamos documentado publicamente que a dragagem seria inútil e se desperdiçou mais um ano e mais alguns milhões de reais.