“O BNDES pode aproximar indústria, biodiversidade e formação científica na Amazônia. O financiamento ao centro de pesquisa da Novamed oferece um ponto de partida concreto para essa agenda“
Coluna Follow-Up
A passagem de Aloizio Mercadante por Manaus, para debater parcerias com os empresários locais, abre uma conversa que merece continuidade depois das visitas e dos anúncios. Ao manifestar disposição de ampliar o crédito e trazer técnicos do BNDES para dialogar com o empresariado amazonense, o presidente do banco oferece uma oportunidade para a região apresentar projetos que aproximem sua capacidade industrial de seu patrimônio científico e biológico.
Mercadante reúne uma experiência particularmente pertinente a essa tarefa. Economista formado pela USP, mestre e doutor pela Unicamp, onde foi professor, esteve à frente dos ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação durante a implantação e a condução do Ciência sem Fronteiras. Sua trajetória permite discutir o financiamento da economia amazônica em conjunto com a formação das pessoas que poderão transformá-la. Perfil institucional do BNDES
Há um registro que ajuda a situar essa possibilidade. Na apresentação do Ciência sem Fronteiras feita por Mercadante em julho de 2011, fármacos, biotecnologia, biodiversidade e bioprospecção estavam entre as prioridades. O programa previa formação em instituições de excelência no exterior, atração de pesquisadores e cooperação empresarial. Parte da agenda que hoje interessa ao futuro amazônico já estava, portanto, entre as preocupações que orientavam aquela iniciativa. Apresentação disponível na Capes
Quinze anos depois, cabe perguntar como reunir essas experiências em uma política capaz de formar pesquisadores, sustentar laboratórios e desenvolver atividades econômicas vinculadas à floresta em pé. A Amazônia precisa de condições para que o conhecimento acumulado em suas instituições encontre continuidade, aplicação e participação regional nos resultados.
A operação do BNDES com a Novamed oferece um exemplo concreto do que o financiamento pode viabilizar. No pacote de R$ 300 milhões anunciado pelo Grupo EMS para ampliar sua unidade em Manaus e implantar um Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, R$ 27,5 milhões correspondem ao crédito aprovado pelo banco para a estrutura de PD&I. A operação contempla a adaptação de um prédio existente, aquisição de equipamentos, implantação de uma planta-piloto e ampliação do laboratório analítico. Folha de S.Paulo
O destino desse crédito merece atenção. Uma planta-piloto permite investigar como um processo se comporta antes de sua adoção em escala industrial; a estrutura analítica sustenta o trabalho de caracterização e controle. Financiar essas etapas ajuda a enfrentar a distância entre um resultado de pesquisa e sua possível aplicação produtiva, onde se acumulam necessidades de equipamento, pessoal especializado e recursos de longo prazo.
A inauguração foi confirmada pelo Ministério da Saúde. Os materiais consultados, entretanto, não anunciam uma linha específica da Novamed voltada à biodiversidade amazônica. Essa aproximação constitui uma oportunidade a ser discutida com a empresa, considerando suas competências, sua estratégia e a viabilidade dos projetos. Ministério da Saúde
É nessa discussão que a experiência de Mercadante pode ganhar consequência regional. O BNDES poderia ajudar a organizar, com instituições científicas, empresas e outras agências de financiamento, uma carteira de projetos amazônicos. A Novamed seria uma interlocutora direta na frente farmacêutica, entre outras oportunidades em biotecnologia, alimentos, ingredientes, materiais e processos industriais associados ao uso sustentável da biodiversidade.
A primeira tarefa seria identificar pesquisas com resultados suficientemente consistentes para justificar novos investimentos. Inpa, universidades, Fiocruz Amazônia e outras instituições poderiam apresentar projetos, necessidades de infraestrutura e possibilidades de cooperação. Às empresas caberia avaliar os desafios de desenvolvimento e mercado; aos financiadores, estruturar instrumentos adequados a cada estágio. Pesquisa inicial, demonstração tecnológica e expansão industrial exigem modalidades diferentes de apoio.
A formação de pessoas precisaria acompanhar esse esforço. Bolsas, doutorados em cooperação com empresas, estágios internacionais e atração de especialistas poderiam ser articulados com Capes, CNPq, Finep e Fapeam, conforme suas atribuições. O aprendizado do Ciência sem Fronteiras oferece uma referência para pensar a circulação internacional de pesquisadores junto com as condições de trabalho que encontrarão no Amazonas.
O resultado regional dependerá também de onde permanecerão as equipes, as competências e os direitos sobre as tecnologias desenvolvidas.Contratos bem construídos podem assegurar participação das instituições locais, formação continuada e repartição de benefícios quando houver conhecimentos tradicionais envolvidos. Cadeias de fornecimento, quando tecnicamente pertinentes, precisariam incorporar manejo sustentável, qualidade e remuneração adequada às comunidades.
Em sua visita, Mercadante propõe aproximar os técnicos do banco dos empreendedores para examinar projetos e melhorar suas condições de financiamento. Governo estadual, Fieam, Cieam e instituições científicas têm uma oportunidade de preparar esse encontro com propostas, responsáveis e necessidades claramente definidos.
A expansão da Novamed mostra que já existe uma operação sobre a qual apoiar a conversa. A trajetória de Mercadante permite ampliar seu alcance. Com projetos consistentes, o Amazonas pode levar ao BNDES uma agenda em que crédito industrial, formação científica e biodiversidade sejam tratados de maneira coordenada, com recursos e compromissos que sobrevivam ao calendário das inaugurações.
Como representantes da indústria, temos uma contribuição a oferecer nessa aproximação. A FIEAM, em diálogo com a CNI, pode ajudar a identificar demandas empresariais, reunir competências e qualificar projetos para interlocução com o BNDES. Interessa-nos que o investimento em pesquisa encontre continuidade nas fábricas, abra oportunidades aos jovens e amplie a participação de fornecedores regionais. A experiência da Novamed oferece um ponto de partida para uma agenda mais ampla, que associe a competitividade do Polo Industrial ao desenvolvimento de conhecimento sobre a Amazônia e à geração de renda com a floresta em pé.