“De Manaus sai quase toda a produção brasileira de motocicletas e uma das cadeias industriais mais completas do país. O próximo passo será transformar escala em liderança tecnológica, segurança viária, eletrificação, empregos qualificados e mobilidade adequada às cidades e distâncias do Brasil real.”
BrasilAmazoniaAgora – Alfredo Lopes
Durante muitos anos, a motocicleta foi observada pelo Brasil como um bem de consumo de menor porte, uma alternativa mais barata ao automóvel ou uma resposta improvisada ao trânsito das grandes cidades. Essa leitura envelheceu. Sobre duas rodas circulam hoje trabalhadores, pequenos empreendedores, serviços, encomendas, medicamentos e uma parte crescente da economia cotidiana. Em milhares de municípios, a motocicleta é o veículo que encurta distâncias onde o transporte público chega mal, custa caro ou simplesmente não chega.
A Amazônia conhece essa realidade antes de boa parte do país. Suas distâncias, a dispersão das comunidades, a precariedade das ligações terrestres e o crescimento urbano transformaram a motocicleta em instrumento de mobilidade, trabalho e renda. Nas periferias de Manaus, nas sedes municipais, nos ramais e nas pequenas cidades, duas rodas cumprem funções que as políticas públicas de transporte deixaram descobertas.
Há, porém, outra dimensão dessa história. A Amazônia também fabrica as motocicletas que movimentam o Brasil.
A fábrica da mobilidade brasileira
Em 2025, as indústrias instaladas no Polo Industrial de Manaus produziram 1,98 milhão de motocicletas, o melhor resultado desde 2011 e o terceiro maior da história do setor. Para 2026, a Abraciclo projeta 2,07 milhões de unidades. A fabricação brasileira, quase inteiramente concentrada em Manaus, está entre as seis maiores do mundo.
O segmento reúne 20,6 mil empregos diretos na capital amazonense e sustenta mais de 150 mil postos de trabalho em todo o país. Segundo a Abraciclo, as quinze fabricantes associadas formam o maior polo produtor de duas rodas fora do eixo asiático.
O primeiro semestre de 2026 reforçou essa escala. O PIM fabricou 1.152.715 motocicletas, motonetas e ciclomotores até junho. Duas Rodas respondeu por 19,77% do faturamento industrial, atrás apenas de Bens de Informática. Em outras palavras, aproximadamente um quinto da economia fabril de Manaus está ligado ao setor. Os indicadores da Suframa mostram que esse desempenho ocorre num Polo com faturamento semestral de R$ 121,76 bilhões e média mensal de 130.903 trabalhadores.
Os investimentos anunciados para Duas Rodas somam US$ 1,49 bilhão. Esse dinheiro chega a um sistema produtivo que envolve montadoras, fabricantes de peças e componentes, fundição, metalurgia, plásticos, pneus, máquinas, equipamentos, tecnologia, logística, manutenção e uma rede extensa de serviços.
É importante insistir nesse encadeamento porque ainda circula, longe de Manaus, a caricatura de uma Zona Franca dedicada a encaixar componentes importados. Uma motocicleta produzida no PIM atravessa processos industriais complexos.
Há motores, chassis, rodas, sistemas elétricos, peças metálicas e plásticas, pintura, soldagem, usinagem, fundição, testes, controle de qualidade e engenharia de produção. Cada unidade que deixa a linha carrega conhecimento acumulado, mão de obra especializada e uma rede de fornecedores que se estende por vários estados.
A fábrica está em Manaus. Seus efeitos econômicos percorrem o Brasil.
Uma cadeia que atravessa o país
A escala alcançada pelo setor ajuda a revelar um mapa pouco conhecido da Zona Franca. Parte dos insumos, equipamentos e serviços utilizados pelas empresas amazonenses é adquirida de fornecedores nacionais. São negócios que movimentam siderurgia, autopeças, química, borracha, tecnologia, transportes, embalagens, engenharia e serviços corporativos fora do Amazonas.
Quando uma motocicleta sai de Manaus, começa outra cadeia. Distribuidoras, concessionárias, oficinas, transportadoras, empresas de peças, seguradoras, financeiras, comércio e serviços de entrega passam a gerar renda e ocupação. Os mais de 150 mil empregos estimados em todo o território nacional oferecem uma medida desse alcance.
A Honda acaba de superar 1,03 milhão de motocicletas emplacadas entre janeiro e agosto de 2026, crescimento de 9% sobre o mesmo período de 2025. É uma marca histórica no ano em que a empresa celebra cinco décadas de produção no país. O resultado merece destaque, assim como a contribuição das demais empresas que formaram em Manaus um polo diversificado e competitivo. Honda, Yamaha, Caloi, Dafra, Royal Enfield e as outras integrantes dessa engrenagem ajudam a explicar por que o Brasil dispõe de uma indústria de Duas Rodas com escala mundial.
A Abraciclo, constituída em 1976 sob a liderança de Bruno Caloi, acompanhou essa transformação desde o período em que as bicicletas predominavam e motocicletas e ciclomotores começavam a formar sua cadeia produtiva no PIM. Cinquenta anos depois, o setor chega a uma encruzilhada que reúne crescimento, transição energética, digitalização e novas exigências sociais.
Mobilidade também é infraestrutura
A expansão do mercado guarda uma mensagem que prefeituras, governos estaduais e União deveriam escutar. O brasileiro compra motocicletas porque precisa se deslocar e trabalhar. A demanda revela, ao mesmo tempo, dinamismo econômico e insuficiências urbanas.
Para milhões de pessoas, a motocicleta reduz o tempo entre casa e emprego, permite prestar serviços, transportar pequenas cargas e gerar renda. Nas regiões Norte e Nordeste, onde as distâncias são grandes e a oferta de transporte coletivo permanece limitada, essa função torna-se ainda mais evidente. Em cidades pequenas, duas rodas ligam bairros, comunidades rurais, unidades de saúde, escolas e mercados.
Esse crescimento exige políticas correspondentes. A indústria pode aperfeiçoar motores, freios, pneus, iluminação, conectividade e equipamentos de proteção. O poder público precisa oferecer pavimento seguro, sinalização, formação de condutores, fiscalização inteligente, atendimento rápido às vítimas e desenho urbano capaz de reconhecer a presença das motocicletas. Segurança viária deve acompanhar a expansão da frota com a mesma intensidade que acompanha a produção.
O sucesso industrial não autoriza indiferença diante dos acidentes. Pelo contrário, amplia a responsabilidade compartilhada entre fabricantes, governos, empresas de aplicativos, escolas de formação e condutores. A mobilidade dos novos tempos terá de combinar acesso, eficiência e preservação da vida.
A transição que começa agora
O próximo capítulo será escrito pela tecnologia. Ele envolve eletrificação, biocombustíveis, motores mais eficientes, novos materiais, conectividade, inteligência embarcada, rastreamento, sistemas de segurança e reciclagem de componentes.
A motocicleta continuará adequada ao deslocamento urbano por ocupar menos espaço, consumir menos energia e exigir menos material do que veículos maiores. Seu ganho ambiental, entretanto, dependerá da matriz energética, da qualidade dos motores, da durabilidade dos produtos e do destino dado a baterias, pneus, óleos e peças.
A eletrificação abre uma oportunidade particularmente importante para Manaus. O PIM já reúne competências em eletrônica, componentes, sistemas de energia, produção de baterias, plásticos, metalurgia e montagem de alta precisão. Poucas regiões brasileiras possuem, num mesmo território, tantos elementos necessários para construir uma cadeia de veículos elétricos leves.
Esse potencial ainda precisa ser organizado. Serão necessários fornecedores locais, laboratórios, centros de testes, normas técnicas, infraestrutura de recarga, reciclagem de baterias, formação profissional e pesquisa aplicada. Institutos de ciência e tecnologia, universidades, empresas e poder público precisam trabalhar com uma agenda comum. Importar os componentes mais valiosos e conservar em Manaus apenas as etapas finais reduziria a oportunidade histórica aberta pela transição.
O desafio consiste em ampliar o conteúdo tecnológico produzido na região. Motores elétricos, controladores, softwares, sensores, baterias, sistemas de gestão de energia e materiais avançados podem gerar uma nova geração de empregos industriais. Operadores e mecânicos continuarão necessários, ao lado de técnicos em eletrônica, programadores, engenheiros, especialistas em dados, química, automação e segurança digital.
A nova motocicleta será também uma máquina conectada.
Do mercado interno para o mundo
Há ainda uma fronteira pouco explorada. Em 2025, o Brasil exportou 43.117 motocicletas, apesar de produzir quase dois milhões. Para 2026, a projeção é de 45 mil unidades. A diferença entre a capacidade industrial e a presença internacional mostra quanto ainda pode ser conquistado.
Manaus poderia atender com maior intensidade a América Latina, o Caribe, a África e outros mercados com condições urbanas e sociais próximas às brasileiras. São regiões onde veículos compactos, resistentes, econômicos e de manutenção acessível têm enorme utilidade. Para chegar a elas, o país precisará enfrentar o custo logístico amazônico, ampliar acordos comerciais, simplificar exportações e desenvolver modelos apropriados às necessidades desses consumidores.
Produzir mais de dois milhões de motocicletas e exportar pouco mais de 2% desse volume expõe um limite que política industrial e diplomacia comercial poderiam ajudar a remover. O setor já demonstrou capacidade produtiva. Falta transformar Manaus numa plataforma exportadora à altura de sua escala.
O país que se move a partir de Manaus
O Polo de Duas Rodas cresceu porque aprendeu a responder às necessidades concretas da população brasileira. Cada recorde industrial traduz milhões de decisões individuais tomadas por pessoas que procuram tempo, autonomia, renda e acesso. É uma economia observada da linha de montagem até o entregador, da fundição ao pequeno comerciante, do engenheiro ao mecânico de bairro.
Durante cinco décadas, Manaus construiu uma das cadeias motociclísticas mais importantes do mundo. O novo ciclo será mais exigente. Terá de incorporar descarbonização, segurança, qualificação, inovação, exportações e maior participação regional na produção de conhecimento e componentes.
A indústria brasileira já está sobre duas rodas. A mobilidade popular também. Cabe ao país assegurar que a tecnologia, a infraestrutura urbana, a política comercial e a formação de trabalhadores avancem na mesma velocidade.
A Amazônia anda sobre duas rodas porque produz, trabalha, conecta distâncias e sustenta uma parcela crescente da vida econômica nacional. E é justamente de Manaus que pode sair a motocicleta brasileira dos novos tempos: mais segura, eficiente, inteligente, limpa e carregada de tecnologia amazônica.