Pesquisa da Unesp analisou 207 amostras diárias e mostra como isótopos das chuvas na Amazônia podem reforçar sistemas de alerta para estiagens prolongadas.
A composição das chuvas na Amazônia pode fornecer pistas sobre a aproximação de secas prolongadas. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) mostrou que a análise diária de isótopos da água permite identificar a origem da umidade e acompanhar alterações provocadas por fenômenos atmosféricos como o El Niño.
O trabalho analisou 207 amostras de precipitação coletadas em Manaus entre março de 2023 e fevereiro de 2025. Os resultados foram publicados na revista científica Hydrological Processes e integram uma nova rede de monitoramento implantada por instituições como Unesp, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Serviço Geológico do Brasil (SGB).
Os isótopos são diferentes versões de um mesmo elemento químico. Na água, algumas moléculas apresentam maior peso e condensam mais rapidamente, enquanto as mais leves evaporam com maior facilidade. A proporção entre elas muda ao longo do ciclo hidrológico, influenciada por fatores como temperatura, umidade, evaporação e intensidade das precipitações.
Por funcionarem como uma “assinatura da água”, essas variações ajudam os cientistas a reconstruir o trajeto das massas de ar e a identificar os sistemas atmosféricos que controlam as chuvas na Amazônia.
Sistemas atmosféricos alteram composição da chuva
Durante os meses mais chuvosos, de março a maio, o comportamento dos isótopos foi associado principalmente à Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Quando se desloca para o sul, esse cinturão de nuvens favorece a entrada de umidade proveniente do Atlântico Norte. As precipitações sucessivas ao longo do percurso até Manaus aumentam a presença de isótopos leves.
Entre junho e agosto, a ZCIT se move para o norte e a Amazônia Central entra no período menos chuvoso. Nessa fase, a Alta Subtropical do Atlântico Sul ganha influência, transportando massas de ar mais secas e elevando a proporção de isótopos pesados.
Nos meses seguintes, as condições locais passam a exercer maior controle. Precipitações fracas tendem a concentrar moléculas mais pesadas, enquanto tempestades volumosas reduzem essa concentração. A coleta diária permitiu separar esses processos, algo difícil nos antigos programas de monitoramento, baseados em amostras mensais.
Sinal da estação seca apareceu mais cedo
Ao comparar os resultados recentes com registros obtidos entre 1965 e 1990, os pesquisadores encontraram indícios de transformações nas chuvas na Amazônia relacionadas a um clima atualmente mais quente e seco. Em 2024, a assinatura isotópica característica da estação seca foi detectada em maio, cerca de um mês antes do período em que costuma aparecer.
Naquele ano, a região enfrentou uma estiagem ainda mais intensa que a de 2023. O El Niño reduziu a formação de nuvens, enquanto o aquecimento anormal do Atlântico Norte deslocou a ZCIT e dificultou a entrada de umidade.
Segundo os cientistas, a antecipação desse padrão pode transformar os isótopos estáveis em mais um indicador de alerta para secas prolongadas. O método tem custo relativamente baixo, mas ainda exige séries históricas maiores para que sua capacidade de previsão seja confirmada.
A pesquisa será ampliada durante o doutorado da geógrafa Rafaela Rodrigues Gomes, primeira autora do artigo. A nova etapa prevê coletas em 19 estações da Amazônia e de áreas vizinhas. O objetivo é compreender melhor o caminho da umidade que chega do Atlântico, circula pela floresta e contribui para os chamados rios voadores, responsáveis por parte das precipitações nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil.