Se o Amazonas pretende reduzir sua dependência alimentar, terá de enfrentar uma questão que aparece pouco nas discussões sobre abastecimento: boa parte da carne, do frango, dos ovos e do pescado consumidos no estado depende de milho e soja produzidos a milhares de quilômetros de Manaus. A BR-319 pode alterar essa equação, desde que a produção avance sobre áreas já abertas e degradadas, com controle territorial, ciência e compromisso ambiental.
Coluna Follow-Up
Na primeira parte desta reflexão, observamos uma contradição que se repete diariamente nas mesas amazonenses. Um estado cercado de água, biodiversidade e território importa grande parcela dos alimentos que consome. Até mesmo a proteína produzida localmente carrega, muitas vezes, uma dependência invisível: a ração.
A discussão costuma despertar imediatamente imagens de grandes monoculturas, avanço da fronteira agrícola e desmatamento. Há razões históricas para essa associação. Em diferentes regiões brasileiras, a expansão agropecuária esteve ligada à conversão de vegetação nativa, à valorização especulativa da terra e à abertura de novas frentes de ocupação. No Amazonas, entretanto, o debate precisa começar por outra pergunta.
Quanto milho e soja seriam necessários para abastecer, pelo menos parcialmente, as cadeias locais de piscicultura, avicultura, suinocultura e produção de ovos?
E quanto desse volume poderia ser produzido em áreas que já perderam sua cobertura florestal, sem abrir um único hectare novo de floresta?
A soja que existe dentro do peixe
O tambaqui servido em um restaurante de Manaus parece um produto inteiramente amazônico. A água é amazônica, o peixe é amazônico, o produtor pode ser amazonense e o consumidor também. A ração, frequentemente, não é.
Peixes cultivados dependem de formulações nas quais ingredientes vegetais representam parcela relevante dos custos. Milho, farelo de soja e outros componentes proteicos e energéticos precisam chegar às propriedades rurais antes que o peixe chegue à mesa. O mesmo vale para frangos, galinhas poedeiras e suínos.
Isso significa que parte importante do custo da proteína produzida no Amazonas começa muito antes da criação dos animais. Começa nos campos produtores do Centro-Oeste e de outras regiões, passa por armazéns, rodovias, terminais de transbordo, embarcações e depósitos até finalmente alcançar uma fábrica de ração ou uma propriedade rural amazônica. O produtor local paga por toda essa distância.
Quando o milho encarece, o ovo encarece. Quando o farelo de soja aumenta, o tambaqui sente. Quando o diesel sobe, a ração chega mais cara. Quando uma seca compromete as hidrovias, a vulnerabilidade logística se transforma novamente em inflação alimentar. É uma cadeia longa para alimentar um peixe criado ao lado de casa.
Produzir ração é produzir segurança alimentar
Uma das discussões mais importantes sobre segurança alimentar no Amazonas está justamente onde raramente olhamos: na alimentação dos animais.
Uma política regional de proteína não pode se limitar à construção de frigoríficos, estímulo à piscicultura ou ampliação de aviários. É necessário compreender toda a cadeia. Sem oferta competitiva de ração, o produtor amazonense entra na disputa nacional carregando uma desvantagem logística desde o primeiro dia.
A equação é conhecida por qualquer piscicultor. Quanto maior a participação da ração no custo total da produção, mais vulnerável fica a atividade às oscilações externas. Pequenas variações no preço dos insumos podem eliminar margens, adiar ciclos produtivos ou simplesmente retirar produtores do mercado.
É nesse ponto que a soja deixa de ser apenas uma commodity de exportação e passa a integrar uma discussão amazônica sobre abastecimento. O objetivo de uma política desse tipo não seria transformar o Amazonas em concorrente de Mato Grosso na produção de grãos. Isso seria economicamente improvável e ambientalmente desnecessário.
A pergunta é muito mais pragmática: existe espaço para produzir uma parcela estratégica dos insumos consumidos dentro do próprio estado?
A floresta não precisa pagar essa conta
Qualquer proposta desse tipo encontra uma condição incontornável. A expansão da produção não pode significar abertura de novas áreas de floresta.
O Amazonas dispõe de áreas já alteradas pela ocupação humana, pastagens degradadas, propriedades abandonadas, áreas agrícolas de baixa produtividade e territórios consolidados ao longo de eixos rodoviários. É aí que deveria começar qualquer planejamento.
Antes de discutir sementes, máquinas ou crédito, seria necessário produzir um mapa rigoroso das áreas aptas, excluindo florestas primárias, unidades de conservação, terras indígenas, zonas de alta vulnerabilidade ambiental e territórios sem situação fundiária definida. A agricultura poderia avançar onde a floresta já recuou.
Esse princípio permitiria transformar parte do passivo territorial acumulado ao longo das últimas décadas em ativo produtivo.
Em determinadas áreas degradadas, sistemas produtivos tecnificados poderiam elevar a geração de renda sem exigir expansão territorial. Recuperação de solo, correção de acidez, manejo adequado, integração lavoura-pecuária, sistemas agroflorestais e agricultura de precisão oferecem caminhos distintos conforme cada região.
Não existe uma única agricultura amazônica. Existem territórios diferentes, solos diferentes, regimes de chuva distintos e vocações que precisam ser estudadas pela ciência.
O risco de repetir velhos erros
A BR-319 torna essa discussão ainda mais delicada. Uma rodovia recuperada reduz custos de transporte e amplia o valor econômico das terras localizadas em sua área de influência. Esse processo pode estimular investimentos produtivos, mas também pode acelerar especulação fundiária, ocupação irregular e desmatamento.
A experiência amazônica recomenda cautela.
Quando a infraestrutura chega antes do ordenamento territorial, a valorização da terra pode correr mais rápido que a fiscalização. Estradas secundárias aparecem, lotes são ocupados, florestas começam a ser convertidas e, quando o Estado finalmente tenta organizar o território, parte do dano já ocorreu.
Por isso, qualquer estratégia agrícola relacionada à BR-319 precisaria funcionar dentro de limites previamente estabelecidos. Primeiro, regularização fundiária. Depois, zoneamento produtivo. Em seguida, licenciamento, monitoramento permanente, rastreabilidade e acesso condicionado ao crédito.
A tecnologia disponível atualmente permite acompanhar mudanças de cobertura vegetal quase em tempo real. Uma política pública consistente poderia vincular financiamento, incentivos fiscais, compra institucional e acesso a mercados à comprovação de origem dos produtos.
Quem produzisse sobre área ilegalmente desmatada ficaria fora da cadeia. Quem recuperasse áreas degradadas e respeitasse as regras encontraria mercado.
Soja para onde?
Há outra diferença importante. A soja discutida aqui teria uma finalidade regional.
Em vez de grandes extensões orientadas prioritariamente aos mercados internacionais, a lógica seria abastecer fábricas de ração, criadores de aves, piscicultores e outras cadeias alimentares do Amazonas. Essa distinção precisa aparecer desde o planejamento.
Uma cadeia orientada ao mercado regional exige escalas diferentes, sistemas de armazenamento diferentes e contratos diferentes dos encontrados nos grandes polos exportadores.
Pode envolver soja. Pode envolver milho. Pode incorporar mandioca, resíduos agroindustriais, coprodutos da própria bioeconomia e novas fontes proteicas desenvolvidas pela pesquisa científica.
É provável, inclusive, que a solução mais inteligente não esteja na substituição completa dos ingredientes tradicionais, mas na formulação de rações adaptadas às condições amazônicas. Instituições como Embrapa, INPA, universidades e centros de pesquisa locais possuem capacidade para participar dessa agenda. O problema precisa ser tratado como pesquisa aplicada.
Quanto da soja utilizada hoje poderia ser substituída por ingredientes regionais? Quais resíduos da agroindústria podem entrar nas formulações? Quais culturas apresentam maior rendimento nas condições locais? Qual é a escala mínima para tornar uma unidade de esmagamento, armazenamento ou fabricação de ração economicamente viável?
Essas perguntas são mais importantes do que qualquer slogan sobre autossuficiência.
O Polo Industrial volta à equação
É aqui que o Polo Industrial de Manaus reaparece. Na Parte I observamos que aproximadamente 130 mil trabalhadores formam uma demanda alimentar extraordinariamente concentrada. Ao longo de um ano, são milhões de refeições servidas dentro das empresas. Esse consumo pode oferecer previsibilidade a toda a cadeia.
Imagine um programa voluntário no qual empresas, fornecedores de refeições coletivas, produtores rurais, cooperativas e agroindústrias estabelecessem metas progressivas de aquisição regional.
Primeiro pescado. Depois ovos. Frutas, farinha, mandioca, hortaliças. @wwwNa sequência, frango e outros produtos cuja produção dependeria da estruturação de cadeias de ração. Nesse desenho, a indústria funcionaria como mercado âncora.
Contratos plurianuais poderiam permitir que produtores apresentassem fluxo de receita previsível aos bancos, facilitando crédito para equipamentos, tanques de piscicultura, sistemas de irrigação, silos, frigoríficos e pequenas agroindústrias.
Uma parte do dinheiro que atualmente deixa o Amazonas para comprar alimentos começaria a circular entre produtores, transportadores, cooperativas, indústrias de processamento e municípios do próprio estado. Essa circulação provavelmente seria tão relevante quanto a redução do frete.
Agricultura e bioeconomia não precisam viver separadas
Durante muito tempo, parte do debate amazônico criou uma fronteira conceitual entre agricultura e bioeconomia. Na prática, a economia de uma região continental como o Amazonas será necessariamente mais diversificada.
Açaí, castanha, óleos vegetais, pescado, fármacos, cosméticos e produtos florestais podem conviver com mandioca, frutas, horticultura, criação de animais e produção limitada de grãos em áreas adequadas. O critério deveria ser o território.
Há áreas onde a floresta precisa permanecer intocada. Há outras onde sistemas agroflorestais podem gerar renda. Existem áreas já degradadas onde agricultura tecnificada pode ser ambientalmente preferível ao abandono ou à pecuária extensiva de baixíssima produtividade.
A inteligência está em saber onde cada atividade pode ocorrer. Nesse aspecto, a recuperação da BR-319 oferece ao Amazonas uma oportunidade rara de planejar antes da transformação. O Brasil normalmente constrói primeiro e tenta administrar os efeitos depois. Aqui existe a possibilidade de inverter essa sequência.
Quanto o Amazonas realmente precisa produzir?
Antes de qualquer decisão, seria necessário responder a uma pergunta aparentemente simples. Quanto consumimos? O Amazonas deveria construir uma matriz estadual de abastecimento alimentar.
Produto por produto. Quanto arroz entra no estado? Quanto milho? Quanto farelo de soja? Quantos ovos? Quantas toneladas de frango? Quanto pescado? Quanto é produzido localmente? Quanto vem de Roraima, Rondônia, Mato Grosso ou outros estados?
Quanto desse consumo poderia ser substituído economicamente pela produção amazonense? Esse levantamento permitiria abandonar generalizações.
Talvez não faça sentido produzir determinados alimentos localmente. Em outros casos, a economia de frete pode tornar a produção regional competitiva. Algumas cadeias exigirão grandes investimentos. Outras poderão crescer rapidamente.
A política pública deveria seguir essas diferenças. O Amazonas não precisa produzir tudo o que come. Precisa descobrir o que vale a pena produzir.
Uma conta que começa na ração e termina no emprego
A cadeia é maior do que parece. Produzir parte do milho e da soja necessários à alimentação animal permitiria fabricar mais ração localmente. Ração competitiva fortalece piscicultura e avicultura. Essas atividades exigem unidades de beneficiamento, frigoríficos, laboratórios, transporte refrigerado, embalagens e inspeção sanitária.
A produção de proteína cria demanda por técnicos, veterinários, engenheiros de alimentos, operadores de máquinas, motoristas, trabalhadores rurais e profissionais de logística. O alimento deixa de ser apenas mercadoria transportada até Manaus. Transforma-se em cadeia econômica.
O Amazonas gasta todos os anos recursos consideráveis comprando alimentos produzidos em outras regiões. Uma parcela desse dinheiro poderia financiar, indiretamente, a construção de uma economia agroalimentar regional. O mercado já existe. O consumidor já existe. A demanda institucional também. Falta organizar a oferta.
A BR-319 como estrada de duas mãos
Durante décadas, pensamos a BR-319 principalmente como caminho de entrada. Caminhões chegando a Manaus com alimentos, máquinas, materiais de construção e produtos industriais. Uma política de desenvolvimento regional deveria imaginar também o movimento contrário.
Caminhões saindo de municípios amazonenses carregados de pescado processado, frutas, farinha, ovos, produtos agroflorestais, alimentos beneficiados e outros bens produzidos no estado. A estrada começaria a cumprir uma função econômica mais complexa.
O Amazonas continuaria conectado ao restante do país, como precisa estar, mas reduziria algumas de suas vulnerabilidades mais evidentes. A soja aparece nessa discussão porque revela a profundidade da dependência.
Quando até o peixe criado no Amazonas depende de um grão transportado por milhares de quilômetros, percebemos que segurança alimentar envolve muito mais que produzir a última etapa da cadeia.
É preciso olhar para trás. Para a ração. Para os insumos. Para a infraestrutura. Para o crédito. Para a ciência. E, sobretudo, para o território onde essa produção poderá acontecer.
Se a BR-319 for recuperada apenas para trazer mais rapidamente os alimentos produzidos longe, teremos construído uma solução logística importante.
Se ela ajudar o Amazonas a produzir parte daquilo que hoje importa, utilizando áreas já abertas, ciência, rastreabilidade e planejamento territorial, sua contribuição será maior.
Nesse cenário, a estrada deixará de ser apenas caminho para a comida que vem de longe. Também poderá se tornar caminho para a comida produzida aqui.
Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br