Da Europa ao Brasil, incêndios florestais avançam sob condições climáticas mais severas e expõem os limites de estratégias concentradas apenas no combate.
O estouro do pneu de um caminhão foi suficiente para desencadear um dos maiores incêndios florestais já registrados na província de Guadalajara, na Espanha, em 21 de julho de 2026. Segundo as autoridades, o contato da roda com o asfalto gerou fagulhas que atingiram a vegetação ressecada às margens da estrada, espalhando o fogo e levando à evacuação de seis municípios.
Embora a origem tenha sido uma falha mecânica comum, as condições encontradas no terreno estavam longe de ser usuais. Calor extremo, estiagem prolongada e baixa umidade criaram um ambiente capaz de transformar uma simples faísca em um incêndio de grandes proporções.
Esse cenário tem se repetido em diferentes partes da Europa e da América do Norte. Em um planeta mais quente, com ondas de calor mais frequentes, secas prolongadas e paisagens vulneráveis, pequenas ignições provocadas por raios, máquinas, veículos ou ações humanas encontram condições favoráveis para se tornar incêndios florestais intensos e difíceis de controlar.
Incêndios avançam em meio a calor e seca na Europa
A Espanha concentra alguns dos episódios mais graves da atual temporada. Em La Mierla, também na província de Guadalajara, o fogo consumiu mais de 29 mil hectares, avançou por um perímetro superior a 120 quilômetros e levou à retirada de cerca de 1.200 moradores de 34 localidades. As equipes trabalharam sob temperaturas de até 44 °C e umidade relativa inferior a 15%.
No sul do país, o incêndio de Los Gallardos atingiu aproximadamente 7 mil hectares e deixou 13 mortos, tornando-se o mais letal registrado na Espanha neste século. A França também enfrentou grandes ocorrências: no maciço de Fontainebleau, uma reserva da biosfera reconhecida pela Unesco e localizada a 50 km de Paris, o incêndio provocou a queima de 10% de toda a área protegida.
A dimensão da crise levou Portugal e França a recorrerem ao Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, com mobilização de bombeiros e aeronaves de outros países. Segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, a Espanha acumulava mais de 65 mil hectares queimados até meados de julho de 2026. Na França, a área atingida já superava em 4 vezes a média histórica para o período.
O avanço das chamas também alcançou regiões menos associadas a grandes incêndios, como a Escócia, onde o Parque Nacional de Cairngorms enfrentou cinco dias de combate às chamas, com fechamento de estradas e restrições de acesso a áreas protegidas. A simultaneidade dos eventos indica que o risco já não se limita ao sul da Europa e pressiona sistemas nacionais de resposta cada vez mais dependentes da cooperação internacional.
Da faísca ao grande incêndio
Os incêndios florestais podem começar por causas distintas. Raios, falhas em veículos e máquinas, redes elétricas, obras, fogueiras, queimadas agrícolas, negligência e ações criminosas estão entre as fontes de ignição mais comuns. As mudanças climáticas não produzem diretamente a faísca inicial, mas alteram as condições encontradas pelo fogo depois que ele começa.
Ondas de calor, baixa umidade, falta prolongada de chuvas, ventos fortes e vegetação ressecada aumentam a velocidade e a intensidade das chamas. A continuidade da cobertura vegetal, sem áreas manejadas ou barreiras, também facilita a propagação. Já o relevo acidentado e a dificuldade de acesso podem atrasar o combate aos incêndios florestais. O aquecimento global intensifica esse processo ao retirar umidade da atmosfera, do solo e das plantas. Cientistas medem essa “sede do ar” pelo déficit de pressão de vapor, indicador da diferença entre a umidade presente no ar e o máximo que ele poderia reter em determinada temperatura.
Quanto maior essa diferença, mais rapidamente a vegetação perde água. Nesse cenário, folhas, gravetos e matéria orgânica acumulada no solo secam e se tornam combustíveis fáceis. Quando atingem níveis críticos de ressecamento, uma quantidade menor de energia é suficiente para iniciar a combustão. A origem do foco, portanto, não determina sozinha a dimensão do desastre. O que transforma uma ignição localizada em um evento extremo é a combinação entre clima adverso, vegetação inflamável, continuidade do combustível, características do terreno e limitações na resposta.
Paisagem e comportamento do fogo ampliam os riscos
Mas o clima não explica sozinho a dimensão dos incêndios florestais. A forma como a paisagem é ocupada e manejada também determina a quantidade de material disponível para queimar e a distância que as chamas conseguem percorrer. Em partes do sul da Europa, o abandono de áreas rurais reduziu práticas que ajudavam a controlar o crescimento da vegetação. Campos cultivados e pastagens deram lugar a extensas áreas cobertas por arbustos e florestas jovens, formando corredores contínuos de combustível. Monoculturas e áreas dominadas por espécies altamente inflamáveis também podem favorecer incêndios mais rápidos e intensos.
Nos casos mais extremos, o fogo passa a modificar o ambiente ao redor. O calor liberado pelas chamas forma grandes colunas de convecção, capazes de dar origem a nuvens associadas ao fogo, conhecidas como pyrocumulonimbus. Essas formações podem produzir ventos intensos e erráticos, transportar brasas para longe da frente principal e criar novos focos quilômetros adiante, ampliando de forma rápida a área atingida. Nessas circunstâncias, o comportamento das chamas se torna imprevisível e as equipes precisam priorizar evacuações e a proteção de áreas estratégicas.
Incêndios globais antecipam riscos para o Brasil
No Canadá, centenas de focos permanecem ativos, alimentados por calor persistente, vegetação seca e tempestades de raios. Até meados de julho, o país registrava cerca de 850 incêndios ativos e mais de 1,9 milhão de hectares queimados. A fumaça atravessou a fronteira e alcançou cidades dos Estados Unidos, como Chicago e Washington, onde a concentração de partículas finas levou à emissão de alertas de qualidade do ar e ao cancelamento de eventos públicos. O episódio mostra que os impactos ultrapassam as áreas queimadas e podem atingir populações a milhares de quilômetros dos focos.
Em janeiro de 2026, na América do Sul, incêndios florestais na Patagônia chilena e argentina também foram favorecidos por calor, estiagem, ventos fortes e, em algumas áreas, pela presença de pinheiros exóticos inflamáveis, demonstrando a influência do manejo e da composição da paisagem sobre o comportamento do fogo.
No Brasil, a atenção se concentra no Cerrado e na Amazônia, que reúnem grande parte dos focos e da área de queimadas. Dados do primeiro semestre de 2026 indicam maior pressão sobre Mato Grosso, Tocantins e Bahia, em um período marcado pelo avanço sazonal da seca. O Cerrado apresentou a maior extensão atingida pelo fogo, seguido pela Amazônia. Na floresta amazônica, a vulnerabilidade está ligada às transformações provocadas pela atividade humana. O desmatamento, a exploração madeireira e a fragmentação abrem o dossel e permitem maior entrada de luz e vento, reduzindo a umidade e deixando as bordas mais inflamáveis.
Nessas condições, focos associados a queimadas e abertura de áreas podem penetrar na mata. Mesmo quando as chamas são mais baixas do que em outros biomas, os danos podem durar anos, com mortalidade de árvores, perda de biodiversidade e maior vulnerabilidade a novos incêndios florestais. O Pantanal também permanece sob atenção devido à redução das áreas inundadas e à perda de umidade, que deixa a vegetação mais suscetível ao fogo e amplia riscos. A possível intensificação do El Niño no segundo semestre pode agravar o quadro ao reduzir as chuvas em partes do país e prolongar a estiagem sobre os biomas brasileiros.
A principal preocupação dos cientistas é que secas extremas ocorram em intervalos cada vez menores, sem tempo suficiente para a recuperação do solo e da vegetação. Com o calor acumulado, o ar retira mais umidade do ambiente, o solo fica mais seco e as plantas se tornam altamente inflamáveis, aumentando o risco de mega incêndios.
Nem todo uso do fogo provoca os mesmos impactos
O fogo costuma ser associado apenas à destruição, mas nem todo uso produz os mesmos efeitos. Especialistas distinguem incêndios florestais descontrolados e queimadas ilegais de queimadas controladas, queimas prescritas e o uso tradicional do fogo por comunidades que manejam a paisagem há gerações. A queima prescrita é uma ferramenta utilizada para reduzir o risco de incêndios de grande proporção. Realizada com planejamento técnico, consiste na aplicação intencional do fogo em áreas definidas para diminuir o acúmulo de folhas, galhos secos e outros materiais combustíveis.
As operações ocorrem sob condições meteorológicas favoráveis, com temperaturas mais amenas, maior umidade e ventos dentro de limites seguros. Equipes treinadas delimitam a área, monitoram as chamas e adotam medidas para impedir que o fogo escape. No Brasil, essa abordagem integra a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída pela Lei nº 14.944/2024.
A política reconhece que a prevenção depende do monitoramento, do combate e do uso planejado do fogo quando houver respaldo técnico, científico e respeito aos conhecimentos tradicionais. A queima prescrita, porém, não é uma solução universal. A sua aplicação depende das características de cada ecossistema e das condições locais, uma vez que sem planejamento, ela pode causar danos e aumentar o risco de incêndios.
Prevenção precisa receber mais recursos que a emergência
O aumento da frequência e da intensidade dos incêndios florestais evidenciou os limites de uma estratégia baseada apenas no combate. Quando o fogo atinge grandes proporções, calor intenso, ventos instáveis e focos secundários reduzem a eficácia das operações. Por isso, especialistas defendem mais investimentos em prevenção, preparação e adaptação. Sistemas de alerta precoce, detecção por satélite, monitoramento meteorológico e modelos de risco permitem mobilizar equipes e restringir atividades perigosas em dias críticos.
A prevenção também exige brigadas locais treinadas, aceiros, planos de evacuação, manutenção de rodovias e redes elétricas e manejo da vegetação. Outras soluções trabalham com a própria paisagem. O pastoreio direcionado utiliza cabras ou ovelhas para consumir gramíneas e arbustos em pontos estratégicos. Paisagens em mosaico alternam florestas, áreas agrícolas, pastagens, faixas de contenção e vegetação menos inflamável, interrompendo a continuidade do combustível. A diversificação florestal e a recuperação de áreas degradadas também podem aumentar a resistência ao fogo.
Essa mudança de prioridades é defendida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Em relatório sobre incêndios florestais, o órgão recomenda que cerca de dois terços dos recursos sejam destinados ao planejamento, à prevenção, à preparação e à recuperação, deixando aproximadamente um terço para a resposta emergencial.
A proposta não representa uma regra universal, mas reflete a avaliação de que investir antes do desastre é mais eficiente e menos custoso do que concentrar recursos apenas no combate, quando o fogo já está fora de controle. Em um cenário de aquecimento climático e secas mais frequentes, conter os incêndios florestais depende menos da capacidade de apagar grandes focos e mais da disposição de impedir que eles atinjam esse estágio.