Mutirão: a metodologia amazônica para equacionar entraves

Coluna Follow-Up

Antes de existir a expressão “governança colaborativa”, a Amazônia já conhecia o mutirão.

Muito antes de conceitos como inteligência coletiva, gestão em rede ou integração institucional ocuparem espaço nos manuais de administração pública, comunidades indígenas, ribeirinhas e rurais aprenderam que determinados desafios simplesmente não poderiam ser enfrentados de forma isolada. Construir uma casa, abrir um igarapé, preparar uma roça, proteger uma comunidade ou transportar uma embarcação exigia a participação de todos. Cada um contribuía com aquilo que sabia fazer, porque o resultado beneficiaria igualmente a coletividade.

Essa lógica atravessou gerações e permanece viva como uma das mais sofisticadas tecnologias sociais produzidas pela Amazônia.

Curiosamente, ela ainda ocupa pouco espaço na forma como organizamos nossas instituições.

A sucessão de estiagens severas, os gargalos das hidrovias, a ausência de alternativas rodoviárias consistentes, o aumento dos custos logísticos e a crescente vulnerabilidade da competitividade regional evidenciam que a Amazônia enfrenta desafios cuja complexidade ultrapassa as competências de qualquer órgão isoladamente.

A BR-319, por exemplo, deixou de ser apenas uma rodovia. Tornou-se parte de um sistema logístico que envolve navegação, infraestrutura portuária, monitoramento climático, planejamento territorial, abastecimento das cidades, defesa civil, segurança energética e competitividade industrial.

Da mesma forma, a dragagem das hidrovias já não representa apenas uma obra de engenharia. Ela influencia diretamente o abastecimento da população, a circulação de mercadorias, a produção industrial, as exportações, os custos da Zona Franca de Manaus e a própria integração nacional.

Nenhuma dessas agendas pertence exclusivamente ao Governo Federal, ao Governo do Estado, ao DNIT, ao Ministério dos Transportes, à Marinha, à indústria ou à academia. Elas pertencem à Amazônia.

Certamente por isso a resposta também precise nascer da Amazônia.

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Trecho da BR-319 entre Manaus e Porto Velho, foco de debates sobre infraestrutura e conservação ambiental na Amazônia. Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real.
– Foto: Marcos Amend

Em vez de novos fóruns criados apenas durante as crises, a região poderia estruturar um mutirão permanente de inteligência territorial. Uma instância de articulação capaz de reunir, de forma contínua, governo, setor produtivo, universidades, centros de pesquisa, operadores logísticos, órgãos ambientais, Defesa Civil, comunidade científica e representantes da sociedade para acompanhar, discutir e antecipar soluções para os principais entraves ao desenvolvimento regional.

Não se trata de criar mais uma estrutura burocrática. Trata-se de organizar permanentemente competências que hoje permanecem dispersas.

A academia pode produzir estudos específicos sobre hidrologia, clima, engenharia, logística, economia regional e inovação tecnológica. Os órgãos públicos concentram capacidade normativa, investimentos e execução. O setor produtivo conhece como poucos os impactos econômicos da descontinuidade logística. As universidades e institutos tecnológicos desenvolvem soluções adaptadas às características amazônicas. As comunidades locais acumulam conhecimento empírico construído ao longo de gerações.

Separadas, essas competências produzem avanços importantes.

Integradas, tornam-se exponencialmente mais eficazes.

As próprias Comissões Temáticas do Centro da Indústria do Estado do Amazonas oferecem um exemplo dessa lógica. Ao reunir especialistas, empresas, representantes do poder público e diferentes segmentos econômicos em torno de temas permanentes, demonstram que o diálogo contínuo produz resultados mais consistentes do que mobilizações improvisadas diante das emergências.

Esse espírito pode ser ampliado.

Num cenário em que as mudanças climáticas tornam mais frequentes as secas extremas, as enchentes severas e as interrupções logísticas, a preparação deixa de ser uma atividade episódica para tornar-se uma política permanente. O planejamento precisa acompanhar a velocidade das transformações ambientais.

Essa é uma das maiores contribuições que a Amazônia pode oferecer ao país.

Durante décadas, procuramos importar modelos administrativos concebidos para outras realidades. Entretanto, talvez uma parte da resposta já estivesse presente na própria experiência amazônica. O mutirão ensina que problemas complexos exigem responsabilidades compartilhadas, diálogo permanente e objetivos comuns.

O Brasil precisará aprender cada vez mais a governar sistemas complexos, onde infraestrutura, clima, economia, ciência e inclusão social se entrelaçam de forma inseparável.

Poucas regiões experimentam essa realidade tão profundamente quanto a Amazônia.

Transformar o mutirão em metodologia permanente de governança significa reconhecer que desenvolvimento não nasce apenas de investimentos ou grandes obras. Ele depende, sobretudo, da capacidade de reunir inteligências, alinhar competências e construir confiança entre instituições que historicamente atuaram de maneira fragmentada.

O maior legado da crise logística regional não se reduz apenas a encontrar uma solução para a BR-319 ou garantir a navegabilidade dos rios durante as estiagens.

Certamente seria a construção de uma forma genuinamente amazônica de governar desafios complexos da própria Amazônia?.

Se conseguirmos transformar a cultura ancestral do mutirão em método permanente de articulação institucional, a Amazônia deixará de oferecer ao Brasil apenas um diagnóstico de seus problemas. Passará a oferecer um caminho para solucioná-los.

E, num século marcado pela necessidade de adaptação, cooperação e inteligência territorial,  estaremos construindo um de seus ativos mais valiosos.


A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal  https://brasilamazoniaagora.com.br 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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