“A disputa pelos chips está acirrada. O Brasil decidirá agora se será protagonista ou apenas consumidor de tecnologia”
Em entrevista ao Brasil Amazônia Agora, o vice-presidente da FIEAM, Nelson Azevedo, analisa a nova geopolítica dos semicondutores, defende uma estratégia nacional para a indústria de alta tecnologia e explica por que a Amazônia reúne condições para participar de uma das cadeias produtivas mais estratégicas do século XXI.
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Entrevista com Nelson Azevedo
Chips, Amazônia e soberania tecnológica
A inteligência artificial acelerou uma transformação que já vinha alterando a economia mundial. Os semicondutores deixaram de ser apenas componentes eletrônicos para se tornarem ativos estratégicos das nações. Estados Unidos, China, Europa, Japão e Coreia do Sul ampliam investimentos bilionários para garantir autonomia produtiva e liderança tecnológica.
Nesse contexto, surge uma pergunta inevitável: qual será o lugar do Brasil nessa nova geografia industrial?
Para o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), Nelson Azevedo, a resposta passa necessariamente pela Amazônia. Em sua avaliação, o Polo Industrial de Manaus reúne capacidades instaladas, experiência industrial, disponibilidade de energia renovável e um ambiente institucional que permitem ao país construir uma estratégia própria de inserção na cadeia global dos semicondutores.
Nesta entrevista ao Brasil Amazônia Agora, ele defende que o momento exige visão de longo prazo, integração entre indústria, universidades e governo, além de uma política nacional que transforme conhecimento em desenvolvimento regional.
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BAA – O mundo parece viver uma corrida pelos semicondutores. O que explica essa mudança de importância dos chips?
Nelson Azevedo – Os semicondutores deixaram de ser apenas componentes da indústria eletrônica. Hoje eles sustentam praticamente toda a infraestrutura digital da economia contemporânea. Estão presentes nos sistemas de inteligência artificial, nas telecomunicações, na indústria automobilística, nos equipamentos médicos, na defesa, nos satélites, na automação industrial e em praticamente todos os produtos de maior intensidade tecnológica.
Por isso, a disputa pelos chips passou a representar uma disputa por soberania econômica, capacidade industrial e autonomia tecnológica. Quem domina essa cadeia amplia sua competitividade e reduz sua dependência estratégica.
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Nelson Azevedo – Ainda ocupamos uma posição bastante modesta. Importamos a maior parte das tecnologias mais sofisticadas e participamos pouco das etapas de maior valor agregado.
Ao mesmo tempo, possuímos vantagens que não podem ser ignoradas. O Brasil dispõe de uma indústria eletroeletrônica consolidada, capacidade de engenharia, energia renovável abundante, centros de pesquisa qualificados e universidades capazes de formar profissionais de alto nível. O desafio é transformar esses ativos em uma política industrial consistente.
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BAA – O senhor acredita que a Amazônia pode fazer parte dessa estratégia nacional?
Nelson Azevedo – Não apenas pode. Creio que deva fazer parte.
O Polo Industrial de Manaus acumulou décadas de experiência em manufatura de produtos eletrônicos, automação, controle de processos e integração de cadeias produtivas globais. Esse patrimônio industrial oferece uma base concreta para que novas etapas ligadas aos semicondutores possam ser desenvolvidas na região.
Não estamos falando de reproduzir imediatamente as maiores fábricas do planeta. Estamos falando de construir competências progressivamente, ocupando segmentos nos quais o Brasil pode ser competitivo.
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BAA – Alguns observadores consideram esse objetivo distante.
Nelson Azevedo – Toda transformação industrial parece distante antes de começar.
A própria história da Zona Franca de Manaus demonstra isso. Poucos imaginavam, décadas atrás, que seria possível formar um parque industrial dessa dimensão em plena Amazônia.
O desenvolvimento tecnológico acontece por etapas. Primeiro forma-se capital humano, depois consolidam-se centros de pesquisa, atraem-se investimentos, desenvolvem-se fornecedores e, gradualmente, amplia-se a complexidade da produção.
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BAA – A inteligência artificial acelera esse processo?
Nelson Azevedo – Sem dúvida.
Quanto maior a utilização da inteligência artificial, maior será a necessidade de processadores especializados, armazenamento de dados, sensores e equipamentos eletrônicos de alta performance.
Isso significa que a demanda mundial por semicondutores continuará crescendo durante muitos anos. É uma oportunidade histórica para países que decidirem investir agora.
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BAA – Que papel universidades e institutos de pesquisa precisam assumir?
Nelson Azevedo – Um papel absolutamente central.
A indústria de semicondutores depende muito mais de conhecimento do que de equipamentos. Precisamos ampliar a formação de engenheiros, físicos, cientistas da computação, especialistas em materiais e projetistas de circuitos integrados.
A inovação nasce quando universidades, institutos tecnológicos e empresas trabalham em cooperação permanente.
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BAA – O senhor costuma relacionar desenvolvimento regional e tecnologia. Como essas agendas convergem?
Nelson Azevedo – Porque o desenvolvimento regional do século XXI será medido cada vez mais pela capacidade de produzir conhecimento.
Regiões que conseguem inovar geram empregos qualificados, criam empresas de base tecnológica, aumentam produtividade e atraem investimentos.
A Amazônia possui uma oportunidade rara de combinar floresta preservada, energia limpa, indústria avançada e produção científica. Essa combinação pode torná-la uma referência internacional em desenvolvimento sustentável associado à alta tecnologia.
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BAA – Que providências o Brasil deveria tomar imediatamente?
Nelson Azevedo – Precisamos de uma estratégia nacional construída acima dos ciclos políticos.
Isso envolve política industrial, incentivos à inovação, financiamento de pesquisa, compras governamentais estratégicas, formação de recursos humanos, atração de investimentos internacionais e fortalecimento dos ambientes de inovação.
Mais importante do que competir isoladamente é construir um ecossistema capaz de produzir conhecimento e transformá-lo em riqueza.
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BAA – Qual é a principal mensagem que o senhor gostaria de deixar ao leitor?
Nelson Azevedo – A revolução tecnológica já está em curso. A questão deixou de ser se ela chegará ao Brasil. Ela já chegou.
O que está em aberto é qual papel escolheremos desempenhar. Podemos continuar importando tecnologias desenvolvidas por outros ou decidir participar da construção desse futuro. A Amazônia reúne condições para integrar esse movimento. O momento de começar é agora.