Estudo revela perda de 80% da água no Pantanal com avanço das secas

Pesquisa da Unesp mostra que o Pantanal está mais seco, com redução de áreas alagadas e impactos diretos sobre fauna, rios e comunidades tradicionais.

O Pantanal ficou drasticamente mais seco nas últimas quatro décadas. Um estudo divulgado nesta semana aponta que o bioma perdeu cerca de 80% de sua água superficial entre 1985 e 2023. No período, a área coberta por água caiu de 19,7 mil km² para apenas 3,8 mil km².

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e publicada na revista Advances in Space Research. Para medir a redução, os pesquisadores analisaram imagens de satélite e dados de precipitação ao longo de 38 anos, mapeando as mudanças na cobertura de água da maior planície alagada do planeta.

O levantamento utilizou quatro métodos de identificação de superfícies hídricas por sensoriamento remoto. Dependendo da metodologia aplicada, a redução da área ocupada por água no Pantanal variou entre 70% e 81%.

Segundo os pesquisadores, os resultados indicam uma alteração importante no regime de chuvas da região. A precipitação tem se tornado mais irregular, com períodos de estiagem mais longos e secas mais frequentes. Esse padrão reduz a umidade do solo e compromete a dinâmica natural de cheia e seca que sustenta o bioma.

“As chuvas no Pantanal estão muito irregulares. Às vezes chove bem, mas está diminuindo o período de chuvas”, afirmou o engenheiro florestal Sérvio Túlio Pereira Justino, um dos autores do estudo ao ((e))co. Segundo ele, a chuva tem se concentrado em poucos dias, enquanto os intervalos sem precipitação se tornam mais longos.

Para Justino, o bioma mais seco é resultado da combinação entre mudanças climáticas e ações humanas. Entre os fatores de pressão estão o desmatamento, a expansão da agropecuária, a instalação de barragens e a alteração da cobertura do solo. Áreas antes sujeitas ao alagamento passaram a ser ocupadas por pastagens.

A perda de água superficial afeta diretamente a biodiversidade pantaneira. A redução dos ambientes aquáticos compromete peixes e, em cadeia, os animais que dependem deles para se alimentar. Espécies como a onça-pintada também podem ser impactadas, já que dependem de áreas com água para caçar e manter seu habitat.

Os efeitos não se limitam à fauna e à flora. Comunidades tradicionais, indígenas e ribeirinhas também podem ser prejudicadas pela redução da água, especialmente pela perda de fontes de renda e de condições para permanecer no território.

Os dados reforçam alertas recentes sobre a situação do Pantanal. Segundo análise do MapBiomas, em 2025 a superfície de água no bioma permaneceu 56% abaixo da média registrada nos 30 anos anteriores. O cenário aumenta a preocupação com a capacidade de recuperação da planície alagada diante de secas mais intensas e frequentes.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

Academia, economia e tecnologia: uma aproximação urgente

O Polo Industrial de Manaus reúne empresas, universidades, institutos,...

O que existe por trás de uma indústria certificada

"Da bateria que alimenta um smartphone aos grandes sistemas de armazenamento de energia, qualidade, segurança e responsabilidade ambiental precisam acompanhar cada etapa da produção. Em Manaus e Extrema, padrões internacionais transformam mais de 50 anos de experiência industrial em confiança para os novos desafios do setor energético"

Problemas complexos exigem propostas sistêmicas

"Problemas complexos exigem visão sistêmica, comparação de alternativas e...

A usina que pretende trazer a energia das estrelas para a Terra

“Na Alemanha, uma antiga central nuclear torna-se laboratório da...

Eleições 2026: Conheça as propostas dos candidatos à presidência

Eleições 2026: compare as propostas de Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury e Ronaldo Caiado para meio ambiente, clima e transição energética.