Eleições na Amazônia 2026: Apoio ao agronegócio compromete promessa de conservação em Mato Grosso 

Balanço ambiental de Mato Grosso mostra avanços em etanol de milho e captura de carbono, mas revela pressão crescente sobre biomas e povos tradicionais. 

Mato Grosso chega ao ciclo eleitoral de 2026 como um dos territórios mais estratégicos e contraditórios do debate ambiental brasileiro. Maior potência agropecuária do país, o estado ocupa posição central na produção de grãos e carnes e também abriga porções de três biomas fundamentais para o equilíbrio climático e ecológico do Brasil: Amazônia, Cerrado e Pantanal.

É nesse cruzamento entre expansão produtiva, conservação ambiental e disputa política que se insere esta reportagem, parte da série Eleições na Amazônia 2026: O saldo que chega às urnas. A proposta é analisar o legado socioambiental dos últimos mandatos em Mato Grosso, sob a gestão do ex-governador Mauro Mendes e do atual governador Otaviano Pivetta, considerando avanços, promessas, tensões e passivos que devem influenciar o debate eleitoral.

Nos últimos anos, o governo estadual tem investido em uma narrativa de conciliação entre produção e preservação. O principal argumento oficial é de que o Mato Grosso mantém cerca de 62% de seu território coberto por vegetação nativa, contra 38% destinados a atividades produtivas, números usados para posicionar o estado como exemplo de eficiência agroambiental, capaz de produzir em larga escala sem abrir mão da conservação.

Esse discurso, porém, convive com pressões crescentes. A força do agronegócio, a demanda por infraestrutura, os conflitos fundiários, a disputa em torno de terras indígenas, a fragilidade das unidades de conservação e os dados recentes de desmatamento expõem os limites dessa conciliação. Em um estado onde a sustentabilidade virou ativo econômico e argumento político, o saldo ambiental que chega às urnas combina projetos de bioeconomia e transição energética com conflitos sociais e questionamentos sobre a proteção efetiva dos territórios e biomas. 

A aliança Mendes-Pivetta e o projeto prometido para Mato Grosso 

Mauro Mendes (União Brasil) e Otaviano Pivetta (Republicanos) foram eleitos em 2018 e reeleitos em 2022, os dois chegaram ao comando do Mato Grosso com um discurso de modernização da máquina pública, ajuste fiscal, ampliação da infraestrutura e fortalecimento das cadeias produtivas ligadas ao agronegócio. 

Em março de 2026, Mendes deixou o governo para disputar uma vaga no Senado e Pivetta assumiu o cargo com a missão de dar continuidade ao projeto iniciado em 2019. A composição política simboliza a união de duas forças da economia mato-grossense. 

Mauro Mendes é empresário do setor industrial e ex-prefeito de Cuiabá, o político construiu sua imagem política em torno da gestão fiscal e da capacidade de reorganizar as contas públicas. Já Otaviano Pivetta é produtor rural e ex-prefeito de Lucas do Rio Verde, sua carreira política é ligada ao interior agroexportador, aos debates sobre fronteira agrícola modernizada e à agenda de infraestrutura voltada ao escoamento da produção.

Para compreender o saldo socioambiental da gestão Mendes-Pivetta, é necessário voltar aos compromissos que sustentaram a chegada da chapa ao governo de Mato Grosso, em 2018, e sua reeleição, em 2022. Nos dois ciclos eleitorais, Mauro Mendes e Otaviano Pivetta apresentaram um projeto de governo baseado na modernização da máquina pública, na simplificação de processos, na ampliação da infraestrutura e no fortalecimento das cadeias produtivas do estado.

No plano de governo de 2018, intitulado “Pra Mudar Mato Grosso”, a chapa assumiu compromissos ligados ao fortalecimento da agricultura familiar, ao estímulo à agricultura de baixo carbono, à regularização ambiental e fundiária, à recuperação de áreas degradadas e à redução da burocracia estatal. A proposta dialogava diretamente com um dos principais desafios do estado: manter a competitividade agropecuária sem ampliar os passivos ambientais associados ao uso da terra.

Na campanha de 2022, a sustentabilidade voltou a aparecer de forma transversal, conectada aos eixos econômico, tecnológico e ambiental. O discurso oficial passou a reforçar a ideia de que Mato Grosso poderia combinar produção em larga escala, inovação, segurança jurídica para o setor produtivo e conservação da vegetação nativa. Essa narrativa se tornou uma das marcas políticas da gestão, especialmente em um estado que concentra parte expressiva da produção nacional de grãos e carne, mas também abriga áreas de Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Ao longo dos mandatos, parte desses compromissos avançou. A regularização fundiária e ambiental, a digitalização de processos, o acesso a instrumentos de crédito de baixo carbono e a desburocratização do licenciamento foram apresentados pelo governo como sinais de eficiência administrativa e segurança para produtores. Levantamentos independentes também apontaram que Mauro Mendes cumpriu integralmente cerca de 59% dos compromissos gerais assumidos em campanha.

Mas o balanço qualitativo revela um quadro mais desigual. Metas ligadas à inovação tecnológica, à agricultura familiar, à recuperação de áreas degradadas e à proteção de ecossistemas sensíveis tiveram execução parcial, atrasos ou disputas sobre seus efeitos concretos. O Parque Tecnológico de Mato Grosso, prometido ainda em 2018 como uma vitrine de inovação, permaneceu inacabado. Já iniciativas de grande porte, como o Parque Novo Mato Grosso, avançaram com atrasos e reforçaram a associação entre infraestrutura, agronegócio e vitrine política.

A agenda de simplificação ambiental também gerou resistência. Para o governo, a redução de prazos e a reorganização de procedimentos representaram modernização administrativa. Para organizações socioambientais, porém, parte dessas mudanças ampliou riscos de flexibilização do controle ambiental. Um dos episódios mais criticados ocorreu em 2021, quando a base governista avançou com uma proposta de suspensão de multas por desmatamento ilegal mediante compromisso de recuperação da área, medida vista por entidades do setor florestal como um estímulo à impunidade.

Esse histórico de promessas ajuda a entender a principal tensão do período: a gestão Mendes-Pivetta conseguiu transformar eficiência, regularização e produção sustentável em pilares de sua narrativa política, mas parte das entregas ocorreu em meio a questionamentos sobre concentração de benefícios no agronegócio de grande escala, fragilidade na proteção de áreas sensíveis e conflitos com comunidades tradicionais e organizações ambientais.

Etanol de milho projeta o Mato Grosso na agenda de baixo carbono 

Entre os eixos ambientais apresentados pela gestão Mendes-Pivetta, a bioeconomia industrial se consolidou como a principal vitrine positiva do governo. Em Mato Grosso, a agenda de transição energética ganhou força a partir da base de produção agropecuária em larga escala. 

O excedente de milho cultivado na segunda safra passou a ser incorporado a uma cadeia industrial voltada à fabricação de etanol, coprodutos de nutrição animal, biogás e soluções de menor emissão de carbono. Com isso, o Mato Grosso se firmou como líder nacional na produção de etanol de milho e passou a apresentar essa cadeia como exemplo de inovação associada ao agronegócio. 

A lógica é aproveitar a estrutura produtiva já existente, especialmente a safrinha de milho, para ampliar a oferta de biocombustíveis e reduzir a pegada de emissões do setor de transportes. Além do etanol, essa indústria gera DDGS, insumo de alto valor nutricional usado na alimentação animal, e abre espaço para a produção de biogás, conectando agricultura, energia e indústria.

O ponto mais avançado dessa estratégia é o projeto de Bioenergia com Captura e Estocagem de Carbono, conhecido pela sigla BECCS, desenvolvido pela FS Bioenergia em Lucas do Rio Verde. O empreendimento é o primeiro projeto industrial dessa categoria na América Latina e combina produção de etanol de milho com captura, purificação e armazenamento geológico de dióxido de carbono.

Na prática, o projeto prevê a injeção permanente de CO₂ a cerca de 1.100 metros de profundidade, no subsolo da usina, aproveitando as condições geológicas da Bacia Sedimentar do Parecis. A capacidade estimada é de isolar 420 mil toneladas de carbono por ano, com investimento de R$ 550 milhões, proveniente de recursos do Fundo Clima, via BNDES, e da Finep. A expectativa é que a tecnologia permita produzir um combustível com pegada de carbono negativa, além de gerar créditos no mercado voluntário.

A experiência de Lucas do Rio Verde fortaleceu a ambição de expandir o modelo, a FS já estuda aplicar a tecnologia em sua unidade de Sorriso, com projeção de capturar mais 600 mil toneladas anuais de carbono. Essa agenda industrial se conecta diretamente à estratégia Carbono Neutro MT 2035, instituída pelo governo estadual para orientar metas voluntárias de descarbonização e que objetiva reduzir em 80% as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono em 2035. 

Para sustentar parte das ações ambientais associadas a essa meta, o estado também conta com o Programa REM Mato Grosso, financiado com recursos internacionais da Alemanha e do Reino Unido e voltado ao apoio de organizações rurais, povos indígenas e municípios.

Politicamente, a bioeconomia se tornou um ativo importante para a gestão. Ela permite ao governo apresentar o Mato Grosso não apenas como potência agropecuária, mas como laboratório de soluções de baixo carbono ligadas à indústria, à energia e ao mercado climático, narrativa que amplia a projeção do estado em debates nacionais e internacionais sobre transição energética.

O problema é que essa vitrine convive com passivos ambientais persistentes. A credibilidade da estratégia de descarbonização depende não apenas da capacidade de capturar carbono na indústria, mas também da proteção da vegetação nativa, do controle do desmatamento e da redução dos conflitos socioambientais no território. É nesse contraste que a bioeconomia mato-grossense revela seu limite político, ela projeta inovação e baixo carbono, mas ainda opera dentro de um modelo de desenvolvimento pressionado pela expansão agroindustrial.

Mais fiscalização, mais desmatamento: o paradoxo ambiental de Mato Grosso

O combate ao desmatamento ilegal foi uma das áreas em que a gestão Mendes-Pivetta buscou demonstrar capacidade de modernização. O governo estadual investiu em sistemas de monitoramento por satélite, alertas semanais, imagens de alta resolução e ferramentas de comunicação para ampliar a atuação de equipes de fiscalização em áreas remotas. Em 2025, Mato Grosso anunciou mais de R$ 125 milhões para o combate a incêndios florestais e desmatamento ilegal, valor 68% superior ao aplicado no ano anterior, segundo o próprio governo estadual.

A estrutura mobiliza a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, o Corpo de Bombeiros, forças policiais e tecnologias como imagens da Planet Labs e comunicação por Starlink. Na prática, a gestão passou a apresentar o comando e controle ambiental como parte de uma agenda de eficiência administrativa: mais dados, mais rapidez na identificação de alertas e maior integração entre fiscalização ambiental e segurança pública.

Mas os indicadores recentes mostram a principal contradição da política ambiental mato-grossense. Apesar do aumento de recursos e do uso de tecnologia, Mato Grosso destoou da tendência observada na Amazônia Legal. Dados do PRODES, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais que monitora o desmatamento por satélite, apontaram queda de 11,08% no desmatamento da Amazônia em 2025, o menor índice em onze anos. No mesmo período, o Cerrado também registrou redução de 11,49%.

Mato Grosso, porém, seguiu em direção oposta. Segundo a taxa PRODES, o estado passou de 1.257 km² em 2024 para 1.572 km² em 2025, uma alta de 25,06%. Com isso, o estado apareceu como ponto fora da curva na Amazônia Legal, enquanto outras unidades da federação registraram retração na perda de cobertura florestal.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente argumentou que a leitura precisa considerar a série histórica. Na defesa do governo, Mato Grosso ainda estaria distante do pico de desmatamento registrado em 2004 e manteria números abaixo da média móvel dos últimos anos. Essa interpretação busca enquadrar a alta recente como uma variação dentro de uma trajetória mais longa de redução.

O contraponto, apresentado por analistas e organizações socioambientais, é que a comparação anual tem peso político e ambiental próprio. A alta registrada justamente quando o restante da Amazônia Legal reduziu suas taxas expõe os limites de uma estratégia que combina fiscalização tecnológica com flexibilização de procedimentos, pressão por novas áreas produtivas e forte influência do setor agropecuário sobre a agenda estadual.

A leitura fica mais complexa quando se observam outros sistemas de monitoramento. A série do MapBiomas Alerta reunida no levantamento mostra que a área total desmatada em Mato Grosso caiu de 242,7 mil hectares em 2022 para 92,6 mil hectares em 2024, mas voltou a subir em 2025, alcançando 100,5 mil hectares. O dado não anula a melhora observada após 2022, mas reforça a instabilidade do quadro e a dificuldade de consolidar uma queda sustentada.

No Pantanal, o cenário foi diferente. O PRODES apontou redução histórica da supressão de vegetação natural no bioma em 2025, resultado associado à intensificação das ações de fiscalização em áreas críticas. Ainda assim, o desempenho positivo no Pantanal não elimina a pressão registrada na porção amazônica de Mato Grosso, onde o avanço do desmatamento fragiliza a narrativa de liderança ambiental construída pelo governo.

Diante do desgaste, Mauro Mendes adotou uma postura de endurecimento público contra crimes ambientais. Em 2025, o governador levou ao Supremo Tribunal Federal uma proposta para permitir a desapropriação de propriedades envolvidas em desmatamento ilegal grave. Em decisão posterior, o ministro Flávio Dino afirmou que a Constituição permite desapropriação quando a propriedade não cumpre sua função social, inclusive pela falta de preservação ambiental, mediante indenização em títulos da dívida agrária.

O episódio mostra como o desmatamento se tornou um ponto sensível para a gestão. De um lado, o governo busca reforçar a imagem de rigor contra ilegalidades. De outro, os números recentes revelam que tecnologia, orçamento e fiscalização não bastam quando a pressão territorial permanece alta. Essa tensão ajuda a explicar por que unidades de conservação, como o Parque Estadual Cristalino II, se tornaram símbolos da disputa entre proteção ambiental, interesses fundiários e decisões políticas em Mato Grosso.

Áreas protegidas sob pressão: do Cristalino II à Chapada dos Guimarães

A tensão entre conservação e infraestrutura também apareceu em áreas protegidas ou de alta relevância ambiental. O caso mais emblemático foi o do Parque Estadual Cristalino II, no norte de Mato Grosso, unidade de conservação com quase 120 mil hectares e elevada importância para a proteção da biodiversidade amazônica. 

A unidade de conservação protege espécies raras da fauna e flora amazônica, além de atuar no combate ao aquecimento global e na produção de chuvas no estado do Mato Grosso e sul do Brasil. As florestas também são fundamentais para pesquisas científicas nacionais e mundiais desenvolvidas ali. 

Criado em 2001, o parque entrou no centro de uma disputa judicial após uma decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, em agosto de 2022, determinar a revogação do decreto que instituiu a unidade, sob o argumento de ausência de consulta pública. A ação foi uma resposta ao pedido da Sociedade Comercial do Triângulo LTDA contra a criação do parque. 

A disputa ganhou novo capítulo com a tentativa de construção de um acordo judicial para reduzir a área protegida. A proposta previa diminuir o Parque Estadual Cristalino II de cerca de 118 mil para 105 mil hectares, com a retirada de aproximadamente 12,6 mil hectares da unidade de conservação. 

A tratativa foi construída no âmbito da ação movida pela Sociedade Comercial do Triângulo e envolveu representantes do governo estadual, do Ministério Público de Mato Grosso, do Judiciário e do Legislativo mato-grossense. Na prática, a redução abriria caminho para regularizar propriedades e áreas ocupadas dentro dos limites do parque, em uma região marcada por disputas fundiárias e pressão agropecuária. A proposta também gerou reação porque poderia beneficiar fazendeiros com interesses na área, entre eles Antônio José Junqueira Vilela Filho, conhecido como o “maior desmatador da Amazônia”. 

Em contrapartida à redução do parque, os beneficiários deveriam se comprometer a manter uma área menor como Reserva Particular do Patrimônio Natural. Para organizações ambientais, porém, o arranjo representaria uma perda líquida de proteção pública e abriria precedente perigoso para outras unidades de conservação. A reação inicial do governo estadual foi vista por organizações socioambientais e pelo Ministério Público como insuficiente diante do risco de perda de uma área estratégica para a conservação nacional e internacional.

A disputa avançou para instâncias superiores, com atuação da AGU, do Ministério Público Federal e do Ministério Público estadual para tentar impedir a anulação ou redução da unidade. Para entidades ambientais, o caso Cristalino II se tornou símbolo da insegurança jurídica que ainda cerca áreas protegidas em regiões pressionadas por interesses fundiários e agropecuários.

Outro episódio que expôs os limites da governança ambiental foi o impasse em torno do Portão do Inferno, na rodovia MT-251, principal ligação entre Cuiabá e Chapada dos Guimarães. Após deslizamentos de rochas, o governo estadual defendeu intervenções emergenciais no trecho, inicialmente com proposta de retaludamento do paredão. 

A obra, porém, gerou questionamentos de especialistas, moradores e organizações socioambientais por envolver uma paisagem sensível, situada no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, e por seus potenciais impactos geológicos, ambientais e turísticos.

A condução do caso foi marcada por idas e vindas. O governo pressionou por licenciamento simplificado sob justificativa de emergência, mas o projeto inicial acabou sendo revisto. Em 2025, a gestão passou a defender a construção de um túnel como solução para o trecho, após estudos técnicos apontarem dificuldades e riscos na alternativa anterior. O impasse reforçou a disputa entre a necessidade de segurança viária e a proteção de uma das paisagens naturais mais conhecidas de Mato Grosso.

Juntos, Cristalino II e Portão do Inferno mostram que a fragilidade da política de conservação no estado não se limita ao avanço direto do desmatamento. Ela também aparece em decisões judiciais, licenciamento de obras, pressões por infraestrutura e conflitos sobre o valor econômico, ecológico e paisagístico das áreas protegidas. Em ambos os casos, a gestão Mendes-Pivetta foi cobrada a demonstrar que a promessa de conciliar desenvolvimento e conservação vale também quando a proteção ambiental entra em choque com interesses fundiários, logísticos e turísticos.

Terras indígenas no centro da disputa fundiária

A questão indígena também ocupa lugar central no balanço socioambiental dos últimos mandatos em Mato Grosso. Em um estado marcado pela força do agronegócio, pela valorização da regularização fundiária e pela pressão por novas áreas produtivas, os direitos territoriais dos povos originários se tornaram uma das frentes mais sensíveis de conflito entre o governo estadual, organizações indígenas e entidades socioambientais.

Durante a gestão de Mauro Mendes e Otaviano Pivetta, o governo estadual adotou uma posição de defesa do marco temporal, argumentando se tratar de um instrumento de “segurança jurídica no campo”. Embora o Supremo Tribunal Federal tenha rejeitado essa interpretação em 2023, a tese continuou mobilizando disputas políticas e jurídicas em Mato Grosso.

Em 2025, o governo estadual entrou com ações para questionar a homologação das terras indígenas Manoki, Uirapuru e Estação Parecis, realizada por portarias federais publicadas durante a COP30. A Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt) defendeu a homologação como respeitosa de todas as exigências legais, atendendo a estudos e demandas históricas de mais de 40 anos. A sobreposição de fazendas e plantações sobre terras indígenas no estado é alvo de denúncias frequentes.

A reação de entidades como a própria Fepoimt, o Formad e outras organizações socioambientais foi de crítica ao governo estadual. Esses grupos acusam o governo de alimentar conflitos fundiários e de adotar uma narrativa que enfraquece direitos constitucionais dos povos originários. 

Em notas públicas e manifestações, representantes indígenas também associaram a postura estadual ao avanço do racismo ambiental, ao argumentar que a proteção dos territórios tradicionais foi tratada como entrave ao desenvolvimento econômico pela gestão Mendes-Pivetta.

Outro ponto de tensão envolveu o Projeto de Lei Complementar nº 17/2020, enviado pelo governo Mauro Mendes à Assembleia Legislativa. A proposta permitia a validação do Cadastro Ambiental Rural de propriedades privadas sobrepostas a terras indígenas ainda não homologadas, áreas em estudo ou já delimitadas, mas sem conclusão formal do processo demarcatório.

Segundo o governo, a medida fazia parte do esforço de regularização ambiental e fundiária. Já organizações indígenas, indigenistas e socioambientais, apontam que o projeto poderia legitimar ocupações privadas em territórios tradicionais, ampliar a insegurança jurídica e abrir brechas para grilagem, invasões e novos conflitos no campo. A proposição foi arquivada, mas o caso revelou uma das principais contradições da agenda de regularização defendida pela gestão: aquilo que é apresentado como segurança jurídica para produtores representa a fragilização territorial para povos indígenas.

Durante a gestão de Mauro Mendes e Otaviano Pivetta, o governo de Mato Grosso também priorizou a aceleração de grandes obras de infraestrutura e a proteção econômica do agronegócio. Essa postura ficou evidente na aprovação da Lei do “Transporte Zero” (Lei Estadual 12.197/2023), que proibiu temporariamente a comercialização do pescado no estado sob o argumento de repovoar os rios para o turismo, mas que foi duramente criticada por desconsiderar a segurança alimentar de milhares de famílias ribeirinhas e ignorar o rito de consulta prévia previsto pela Convenção 169 da OIT. 

Após a forte reação de pescadores, comunidades ribeirinhas, organizações sociais e órgãos de controle, o governo estadual recuou parcialmente e flexibilizou a Lei do Transporte Zero. Ainda assim, o caso continua pendente de análise definitiva no STF, sob relatoria do ministro André Mendonça.

O conflito com as comunidades pesqueiras soma-se a outras controvérsias envolvendo populações tradicionais e minorias em Mato Grosso. Entre elas está a condenação judicial de Mauro Mendes ao pagamento de R$ 100 mil por danos morais coletivos, devido a falas discriminatórias contra o povo indígena Bóe Boróro durante uma entrevista. A decisão também determinou a remoção das gravações oficiais, reforçando o desgaste da gestão em temas ligados a direitos territoriais, reconhecimento cultural e respeito às populações tradicionais.

Da mesma forma, o Executivo estadual agiu de forma contundente ao vetar a proibição de novas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) no Rio Cuiabá, contrariando alertas de cientistas e pescadores sobre o colapso ecológico do Pantanal e a interrupção da piracema.

No campo da logística e da expansão da fronteira agrícola, a administração estadual transformou-se em uma das principais vozes políticas pela retomada irrestrita do projeto da Ferrogrão (EF-334), pressionando o Governo Federal e o STF para superar os entraves ambientais que impedem a obra.  Para os povos indígenas que habitam as bacias impactadas, como os Kayapó e Munduruku, a pressa do governo de MT em viabilizar o escoamento de grãos atropela o direito à consulta livre e informada, ampliando o risco de invasões e o cerco sobre territórios tradicionais. 

Moratória da Soja vira batalha política e comercial

A aliança da gestão Mendes-Pivetta com as grandes entidades do agronegócio também se traduziu em confronto direto com a Moratória da Soja, acordo privado firmado em 2006 por tradings e entidades do setor para impedir a compra de grãos cultivados em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2008. 

Para o governo estadual e lideranças rurais, o pacto passou a ser tratado como uma barreira comercial disfarçada de exigência ambiental, por restringir a compra de soja mesmo em áreas onde a supressão de vegetação poderia ser autorizada pelo Código Florestal.

Mauro Mendes fez críticas públicas ao acordo e acusou tradings internacionais e blocos econômicos estrangeiros de impor critérios privados acima da legislação brasileira. O argumento central do governo era o de que produtores que cumprem o Código Florestal não poderiam ser penalizados por regras adicionais definidas pelo mercado. A disputa ganhou força em meio a tensões comerciais com empresas europeias e declarações de grupos estrangeiros contra produtos agropecuários sul-americanos.

soja
Foto: Getty Images.

A ofensiva política se materializou na Lei Estadual nº 12.709/2024, sancionada em outubro de 2024. A norma estabeleceu critérios para a concessão de incentivos fiscais e terrenos públicos a empresas do setor agroindustrial e, na prática, passou a restringir benefícios estaduais a companhias que aderissem a acordos privados de limitação da expansão agropecuária, como a Moratória da Soja.

A medida abriu uma disputa jurídica de alcance nacional. Inicialmente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu a validade da lei em decisão cautelar, ao considerar que a norma poderia interferir na livre iniciativa e criar desequilíbrios concorrenciais. Posteriormente, o STF restabeleceu a aplicação de trecho da legislação, permitindo que a vedação a benefícios fosse retomada a partir de 2026, enquanto o mérito da ação seguia em análise.

A controvérsia também produziu efeitos sobre a cadeia da soja. Com empresas, como a Abiove, comunicando ao governo estadual sua saída da Moratória da Soja em Mato Grosso, alegando a necessidade de se adequar à nova regra local. Organizações ambientalistas, por outro lado, alertaram que o enfraquecimento do acordo poderia ampliar a pressão sobre áreas de vegetação nativa ainda passíveis de conversão para lavouras, especialmente em regiões de alta aptidão agrícola.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica também entrou no debate ao analisar questionamentos sobre o caráter concorrencial da moratória. A discussão opôs setores do agronegócio, que tratam o acordo como restrição indevida ao direito de produzir, a organizações ambientais e atores do mercado internacional, que veem a moratória como um dos principais instrumentos privados de contenção do desmatamento associado à soja na Amazônia.

Com isso, a Moratória da Soja deixou de ser apenas um pacto comercial e se tornou uma das principais arenas políticas do modelo de desenvolvimento defendido pela gestão Mendes-Pivetta. No centro da disputa está a pergunta sobre quem deve definir os limites da expansão produtiva: a legislação ambiental brasileira, os governos estaduais, os acordos privados do mercado global ou uma combinação entre essas diferentes camadas de regulação.

Ao fim do ciclo Mendes-Pivetta, Mato Grosso chega às eleições de 2026 com um saldo socioambiental de avanços concretos e contradições difíceis de contornar. A gestão transformou o etanol de milho, os projetos de captura de carbono e a agenda de descarbonização em vitrines de inovação, ao mesmo tempo em que consolidou uma narrativa de eficiência fiscal, regularização fundiária e modernização administrativa.

Esse legado, porém, convive com passivos expressivos: a alta recente do desmatamento na porção amazônica do estado, as disputas em torno do Parque Estadual Cristalino II, os conflitos com povos indígenas, a pressão sobre comunidades pesqueiras, a controvérsia da Lei do Transporte Zero e a ofensiva contra a Moratória da Soja. Juntos, esses pontos expõem os limites de um modelo que promete conciliar produção e conservação, mas frequentemente subordina a agenda ambiental às prioridades da expansão agroindustrial.

Esse balanço deve atravessar a disputa eleitoral de 2026. Para o grupo governista, os últimos mandatos serão lembrados como recuperação econômica, obras, segurança jurídica e protagonismo na transição energética. Para opositores, organizações socioambientais e comunidades tradicionais, o mesmo período ficará marcado pela flexibilização de controles, pela pressão sobre territórios protegidos e pela resistência a instrumentos de proteção ambiental e territorial.

O que chega às urnas, portanto, não é apenas a avaliação de uma gestão, mas a disputa sobre o futuro do desenvolvimento em Mato Grosso, um estado que se apresenta como laboratório de economia de baixo carbono e, ao mesmo tempo, permanece no centro das pressões por terra, infraestrutura, commodities e recursos naturais.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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