Entre a floresta, a ciência e a indústria, o Amazonas começa a desenhar uma nova etapa de sua estratégia de desenvolvimento. A proposta é simples na formulação e ambiciosa na execução: transformar biodiversidade em conhecimento, conhecimento em inovação e inovação em oportunidades para reduzir as desigualdades entre Manaus e o interior.
Coluna Follow-Up
Quando a Zona Franca de Manaus foi criada em 1967, o desafio era consolidar. uma economia onde havia uma economia cambaleante, embalada por numa paisagem pacata e dependente das iniciativas federais.
O Amazonas vivia distante dos centros de decisão, isolado dos grandes mercados e sem alternativas capazes de gerar empregos em escala compatível com suas necessidades sociais e territoriais. A ZFM surgiu para responder a esse desafio.
Ao longo de quase seis décadas, a indústria incentivada transformou a paisagem econômica da região, consolidou um comércio pujante, ajudou a financiar universidades, estimulou a pesquisa científica, fortaleceu instituições e contribuiu para manter a floresta preservada ao concentrar a atividade econômica em uma parcela mínima do território estadual.
Poucas políticas públicas brasileiras podem apresentar resultados tão expressivos em geração de emprego formal, arrecadação tributária, atração de investimentos e conservação ambiental. Mas toda política pública bem-sucedida produz novos desafios.
O principal deles talvez seja este: como levar ao interior parte da inteligência econômica que transformou Manaus? A pergunta deixou de ser apenas industrial. Passou a ser territorial.
E provavelmente por isso é que chegou a hora de discutir uma nova agenda para o Conselho de Desenvolvimento do Amazonas, organismo interinstitucional responsável por gerenciar a economia e suas implicações para o desenvolvimento do Estado. Não se trata de criar um organismo paralelo. Muito pelo contrário. Propõe-se um conjunto de sugestões para a evolução natural de sua missão histórica.
Da indústria para o território
A Amazônia vive um momento singular. De um lado, tivemos a COP30 que aproximou a região do centro das discussões globais sobre clima, biodiversidade e desenvolvimento sustentável.
De outro, o avanço da biotecnologia, da inteligência artificial, da economia de dados e das cadeias produtivas de baixo carbono amplia o valor estratégico da biodiversidade amazônica.
Assim, a bioeconomia deixou de ser apenas um conceito acadêmico ou uma palavra de moda nos fóruns internacionais. E passou a representar uma oportunidade concreta de transformação econômica.
Aqui é preciso evitar um equívoco recorrente. A bioeconomia não substituirá a indústria. Ela precisará da indústria. Não existe bioeconomia robusta sem laboratórios, certificação, logística, engenharia, química fina, tecnologia digital, propriedade intelectual, financiamento e acesso a mercados.
A floresta oferece os ativos biológicos. A ciência produz conhecimento. A indústria transforma conhecimento em escala econômica. A verdadeira oportunidade amazônica está justamente no encontro dessas três dimensões.
A desigualdade que permanece invisível
Durante as últimas décadas, a principal preocupação regional foi reduzir a distância econômica entre a Amazônia e o restante do Brasil. Não somente o isolamento terrestre.
Essa agenda continua importante, diria essencial por razões diversas. Nesse movimento, entretanto, uma nova desigualdade passou a exigir atenção.
A distância entre Manaus e o interior. Grande parte das universidades, laboratórios, centros de pesquisa, incubadoras, investimentos em inovação e oportunidades tecnológicas continua concentrada na capital.
Enquanto isso, municípios estratégicos como Tefé, Maués, Parintins, Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira, Humaitá, Coari, Manacapuru e Itacoatiara ainda participam de forma limitada da economia do conhecimento.
Muitas vezes fornecem somente matéria-prima. Poucas vezes participam da geração de tecnologia. Menos ainda da propriedade intelectual. A próxima etapa do desenvolvimento amazônico passa por corrigir esse desequilíbrio. Não basta interiorizar renda. Será preciso interiorizar ciência, inovação e oportunidades.
A proposta de um novo CODAM
Tudo sugere que chegamos ao momento do Amazonas discutir a criação de um novo eixo estratégico dentro do Conselho de Desenvolvimento. Um CODAM da Bioeconomia e da Inovação Territorial.
Insistimos: não se trata de substituir as atribuições tradicionais do Conselho. O objetivo seria ampliar sua capacidade de articulação diante dos desafios dos novos tempos.
Ao lado dos projetos industriais, o Amazonas poderia passar a discutir projetos estruturantes voltados para bioeconomia; biotecnologia; startups amazônicas; propriedade intelectual; rastreabilidade; economia digital; inovação territorial; cadeias da sociobiodiversidade e desenvolvimento científico regional.
Mais do que aprovar projetos e incentivos, o novo CODAM ajudaria a construir convergências entre governo, academia, setor produtivo, instituições financeiras, centros de pesquisa, comunidades tradicionais e investidores.
As cinco missões da nova agenda
1. Transformar biodiversidade em propriedade intelectual
O Amazonas precisa exportar menos matéria-prima e mais conhecimento. Açaí, guaraná, castanha, copaíba, andiroba e dezenas de outros ativos biológicos devem gerar mais do que produtos, mas também patentes, processos tecnológicos, novos materiais, ingredientes funcionais e aplicações industriais.
2. Interiorizar ciência e inovação
Municípios-polo precisam receber estruturas permanentes de pesquisa aplicada, incubação de negócios, validação tecnológica e formação empreendedora. A inovação não pode permanecer concentrada em Manaus.
3. Financiar startups amazônicas
A região precisa de mais mecanismos capazes de apoiar empreendedores comprometidos com problemas reais da Amazônia. Logística fluvial, energia, conectividade, monitoramento ambiental, rastreabilidade e agregação de valor às cadeias produtivas são algumas das oportunidades mais evidentes.
4. Integrar indústria e bioeconomia
O Programa Estadual de Bioeconomia passa a ser um passo a passo dessa mudança. Os recursos de pesquisa e desenvolvimento mobilizados pelo Polo Industrial de Manaus podem, enfim, atuar mais ainda e principalmente como aceleradores da nova economia amazônica, no espírito dos programas prioritários de bioeconomia, tecnologia da informação e comunicação, entre outros. Os entes federados, União, Estados e Municípios precisariam priorizar uma cultura de mutirão interinstitucional.
A floresta não precisa caminhar separada da indústria. As duas agendas podem se fortalecer mutuamente.
5. Garantir protagonismo das comunidades
Conhecimento tradicional não pode ser tratado apenas como insumo. Precisa ser reconhecido como patrimônio, protegido juridicamente e incorporado aos processos de inovação com repartição justa de benefícios e participação efetiva na governança.
Uma agenda para os legados da COP30
A realização da COP30 no Brasil ofereceu uma oportunidade rara. Pela primeira vez em muitos anos, a Amazônia ocupou o centro da agenda internacional com uma agenda proativa e estratégica.
Passado o evento, não mais poderemos comparecer ao debate global apenas como objeto de preocupação ambiental. Precisamos ter claras nossas propostas. Precisamos focar em capacidade e habilidades de formulação. Afinal, possuímos instituições, conhecimento científico e visão estratégica para liderar um modelo próprio de desenvolvimento sustentável.
O CODAM da Bioeconomia e da Inovação Territorial pode representar ou encampar o conjunto das novas propostas. Uma agenda construída a partir da experiência acumulada pela Zona Franca de Manaus e voltada para os desafios das próximas décadas.
O futuro já bateu à porta
A Amazônia, com provável certeza, deva ser o único lugar do mundo onde uma floresta, uma universidade, uma fábrica, uma startup e uma comunidade tradicional podem fazer parte da mesma cadeia de valor.
Mas isso não acontecerá espontaneamente. Exige coordenação.Exige planejamento. Exige instituições capazes de enxergar além dos ciclos políticos e das oportunidades imediatas.
Depois do CODAM que ajudou a industrializar a Amazônia, talvez esteja chegando o tempo do CODAM que ajudará a territorializar a inovação.
Porque a floresta em pé precisa de mais do que proteção. Precisa de oportunidades.
E poucas oportunidades parecem tão promissoras quanto aquelas que nascem do encontro entre a inteligência da indústria, a ciência da biodiversidade e os saberes acumulados por gerações de amazônidas.
Follow-up é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, no jornal do Comércio do Amazonas, só a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br