A disputa pela Amazônia industrial


Durante décadas, consolidou-se no Brasil a ideia de que o desenvolvimento industrial legítimo seria aquele naturalmente concentrado no eixo Sudeste, sobretudo em São Paulo. Tudo o que escapasse dessa lógica passaria a ser tratado como exceção, concessão política ou distorção econômica. A Zona Franca de Manaus incomoda justamente porque rompe parcialmente essa geometria histórica do poder nacional.

A ofensiva recorrente contra a ZFM nunca foi somente tributária. O debate fiscal funciona como superfície visível de uma disputa muito mais profunda sobre concentração econômica, ocupação territorial, soberania nacional e o próprio desenho federativo brasileiro e bandeirante. 

A reação recente de setores ligados à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo contra os mecanismos preservados da Zona Franca na reforma tributária expõe uma tensão antiga. Não se trata apenas de divergência técnica sobre incentivos fiscais. O que emerge daí é uma disputa silenciosa sobre quem terá o direito de produzir riqueza, atrair investimentos e exercer influência econômica no território brasileiro.

A concentração como projeto histórico

O Brasil construiu sua industrialização de forma profundamente concentrada. Infraestrutura logística, crédito, universidades, centros financeiros, mercado consumidor e influência política foram historicamente organizados em torno do Sudeste. Com um detalhe curioso: um movimento atrelado a benefícios fiscais.

Mesmo diante do prolongado processo de desindustrialização nacional, ainda persiste uma resistência significativa à ideia de fortalecimento de polos produtivos fora do eixo tradicional.

A contradição salta aos olhos.

Enquanto São Paulo concentra um terço da indústria brasileira, o Amazonas representa parcela reduzida desse parque industrial. Menos de 1% dos estabelecimentos industriais. Ainda assim, parte expressiva do empresariado paulista mobiliza energia política e jurídica contra um modelo instalado a milhares de quilômetros dos grandes centros econômicos do país, no meio da floresta amazônica. Com a façanha de induzir 30% da riqueza de toda região Norte. 

O incômodo não nasce da dimensão atual da Zona Franca, mas do que ela simboliza como possibilidade de reorganização econômica do território nacional.

O conflito pelo investimento industrial

Existe uma disputa concreta pelo destino dos investimentos produtivos brasileiros.

Toda política industrial produz deslocamentos de capital, empregos, arrecadação e capacidade tecnológica. A Zona Franca de Manaus cria exatamente esse deslocamento ao atrair cadeias produtivas para uma região historicamente marginalizada dos grandes ciclos nacionais de desenvolvimento.

Por trás do discurso sobre “neutralidade tributária” ou “simplificação fiscal”, existe uma resistência à descentralização econômica.

O que parte do establishment econômico brasileiro parece defender, ainda que implicitamente, é a manutenção de um modelo em que a riqueza continue gravitando em torno das regiões já consolidadas como centros hegemônicos do país.

Nesse contexto, a ZFM se transforma quase numa anomalia geoeconômica. Ela demonstra que é possível construir indústria sofisticada fora do eixo histórico de concentração brasileira.

Reforma tributária e concentração federativa

A reforma tributária aprofundou uma lógica baseada na arrecadação no destino, favorecendo naturalmente os estados mais ricos e mais populosos.

A preservação dos diferenciais da Zona Franca acabou funcionando como um mecanismo compensatório dentro de um sistema que tende a ampliar as vantagens econômicas das regiões já mais desenvolvidas.

O debate raramente é apresentado nesses termos porque o vocabulário técnico costuma esconder o conflito político real.

Quando se fala em eliminar “distorções”, frequentemente o que se pretende remover são justamente os instrumentos que permitiam algum equilíbrio federativo em um país marcado por desigualdades históricas profundas.

A consequência disso pode ser um Brasil ainda mais concentrado, com regiões periféricas reduzidas novamente à condição de fornecedoras de matéria-prima, consumidores dependentes e territórios politicamente subordinados.

O controle das cadeias produtivas

Quem concentra a indústria concentra também logística, tecnologia, serviços financeiros, infraestrutura e influência institucional.

A disputa em torno da Zona Franca envolve igualmente o controle das cadeias produtivas nacionais.

Manaus tornou-se um polo relevante em segmentos estratégicos como eletroeletrônicos, duas rodas e bens de consumo duráveis. Isso significa empregos qualificados, centros tecnológicos, formação de mão de obra e presença de empresas globais em plena Amazônia.

A existência desse polo desloca parte do dinamismo industrial brasileiro para fora do circuito tradicional de poder econômico.

É justamente esse deslocamento que gera desconforto.

A Amazônia além da condição periférica

Durante muito tempo, a Amazônia foi enxergada apenas como fronteira mineral, reserva florestal ou espaço de expansão agropecuária.

A ideia de uma Amazônia industrializada, tecnologicamente integrada e economicamente complexa ainda enfrenta resistência em determinados círculos políticos e empresariais do país.

Há uma seletividade evidente no debate nacional.

Incentivos bilionários ao sistema financeiro, ao agronegócio exportador, à indústria automobilística do Sul-Sudeste ou à infraestrutura concentrada raramente recebem o mesmo grau de hostilidade dedicado à Zona Franca de Manaus.

A ZFM tornou-se alvo simbólico porque sua existência desafia a lógica histórica de subordinação econômica da Amazônia.

Soberania, floresta e presença nacional

A Zona Franca não representa apenas um modelo tributário. Ela também se consolidou como instrumento de presença econômica brasileira na Amazônia.

Ao gerar empregos urbanos, arrecadação formal, pesquisa tecnológica e dinamismo econômico em Manaus, o modelo ajudou a reduzir pressões predatórias sobre amplas áreas do Amazonas, o estado mais preservado do país.

Enfraquecer a ZFM possui implicações que ultrapassam o campo fiscal.

Significa mexer em um dos pilares econômicos que sustentam a permanência da floresta em pé numa região estratégica para a estabilidade climática global e para a soberania territorial brasileira.

Num momento em que o mundo inteiro volta seus olhos para a Amazônia, o Brasil parece ainda dividido entre duas visões.

Uma delas enxerga a região como mera fornecedora de recursos naturais.

A outra compreende que a Amazônia pode se tornar centro estratégico de inovação, bioeconomia, indústria sustentável e inteligência territorial no século XXI.

Muito além dos impostos

No fundo, a disputa em torno da Zona Franca de Manaus expõe diferentes projetos de país.

De um lado, um modelo concentrador, que perpetua a centralização histórica da riqueza e da influência econômica.

De outro, a possibilidade de uma federação mais equilibrada, capaz de distribuir oportunidades produtivas, integrar seus territórios e fortalecer regiões estratégicas sem destruir seus ativos ambientais.

Por isso, o debate sobre a ZFM jamais foi apenas tributário.

Ele trata de quem pode crescer, de onde o Brasil pretende produzir riqueza e de qual papel a Amazônia ocupará no futuro nacional.

Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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