Estudo alerta que mudanças climáticas, contaminação por mercúrio e microplásticos ameaçam os peixes amazônicos e ampliam riscos à saúde pública e segurança alimentar na Amazônia.
A segurança alimentar na Amazônia está cada vez mais vulnerável à combinação de mudanças climáticas, poluição e perda de biodiversidade nos ecossistemas aquáticos. A conclusão advém do artigo “Mudanças Ambientais e Segurança Alimentar na Amazônia: Evidências a partir dos Ecossistemas Aquáticos”, de Adalberto Val e Fernando Almeida Val, publicado nos Anais da Academia Nacional de Medicina.
O estudo analisa como as alterações ambientais afetam os peixes da Bacia Amazônica e, consequentemente, a alimentação e a saúde de milhões de pessoas que dependem do pescado como principal fonte de proteína.
Os pesquisadores apontam que a Bacia Amazônica abriga o maior sistema de água doce do planeta e uma das maiores diversidades de peixes de água doce conhecidas. Em comunidades indígenas e ribeirinhas, o consumo de pescado pode ultrapassar 160 kg por pessoa ao ano, índice considerado um dos mais altos do mundo.
Além de proteína, os peixes fornecem nutrientes importantes, como ferro, zinco, iodo e ácidos graxos essenciais, fundamentais para o desenvolvimento infantil e para a saúde da população.
Essa dependência, no entanto, também aumenta a vulnerabilidade das comunidades diante da degradação dos rios. Segundo o estudo, o aumento da temperatura da água, as secas mais severas, as cheias extremas e as mudanças no ciclo das águas afetam diretamente a reprodução, o crescimento e a sobrevivência dos peixes.
Como muitas espécies amazônicas dependem do pulso natural de cheia e vazante para se alimentar e se reproduzir, a perda dessa previsibilidade compromete os estoques pesqueiros.
A revisão de literatura do artigo indica que os impactos já são visíveis. As secas recentes na Amazônia provocaram mortalidade massiva de peixes e dificultaram o acesso ao alimento em comunidades isoladas.
Quando o nível dos rios baixa de forma extrema, lagos e igarapés podem perder conectividade, a temperatura da água aumenta e a concentração de oxigênio diminui, criando condições críticas para a vida aquática.
Além da crise climática, a contaminação por mercúrio aparece como uma das principais ameaças à segurança alimentar na Amazônia. O problema está associado principalmente ao garimpo ilegal de ouro, que libera mercúrio nos rios, solos e atmosfera.
No ambiente aquático, esse contaminante pode ser transformado em metilmercúrio, uma forma mais tóxica que se acumula nos organismos e se intensifica ao longo da cadeia alimentar. Segundo o artigo, entre 2018 e 2022, foram registradas 400 mortes de crianças Yanomami por negligência em saúde e exposição tóxica.
Peixes predadores e de maior porte tendem a concentrar níveis mais altos de mercúrio. Como o pescado é parte central da dieta amazônica, a contaminação representa risco direto à saúde humana, especialmente para crianças, gestantes e populações que consomem peixe com muita frequência. Estudos citados no artigo relacionam a exposição prolongada ao mercúrio a problemas neurológicos, cardiovasculares, imunológicos e de desenvolvimento infantil.
O artigo também chama atenção para os microplásticos, considerados contaminantes emergentes. Essas partículas já foram identificadas em peixes e ambientes aquáticos da Amazônia, inclusive em áreas protegidas. Além do risco da ingestão direta, os microplásticos podem atuar como transportadores de outros poluentes, ampliando a exposição de animais e seres humanos a substâncias tóxicas.
Para os autores, os impactos não atingem todos da mesma forma. Povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e populações rurais estão entre os grupos mais expostos, porque dependem diretamente dos rios para alimentação, renda e deslocamento. Ao mesmo tempo, muitas dessas comunidades enfrentam menor acesso a serviços de saúde, saneamento, informação e alternativas alimentares seguras.
O estudo defende que a proteção dos ecossistemas aquáticos deve ser tratada como prioridade de saúde pública, justiça social e segurança alimentar na Amazônia. Entre as medidas apontadas como necessárias estão o monitoramento integrado de rios e peixes, o combate ao garimpo ilegal, a comunicação de risco sobre espécies mais contaminadas, a valorização dos sistemas alimentares tradicionais e o fortalecimento da participação comunitária na gestão dos recursos naturais.
Outra estratégia mencionada é o desenvolvimento de alternativas sustentáveis, como a aquicultura adaptada ao contexto amazônico, desde que respeite a biodiversidade local e as práticas culturais das comunidades.
A conclusão do artigo é que clima, biodiversidade e saúde humana estão interligados. Por isso, os autores enfatizam que proteger os peixes e os rios na Amazônia significa também proteger a alimentação, a cultura e a sobrevivência de populações que vivem em relação direta com os ecossistemas aquáticos.



