Pesquisa revela que abelhas-rainhas suportam dias submersas ao desacelerar funções vitais, indicando uma estratégia que pode ajudar populações a enfrentar eventos climáticos extremos.
As abelhas-rainhas das mamangabas (gênero Bombus) desenvolveram uma capacidade surpreendente para enfrentar um dos riscos crescentes associados às mudanças climáticas: a inundação do solo durante o inverno. Um novo estudo mostra que essas espécies conseguem permanecer vivas por até oito dias completamente submersas e continuam respirando nesse período.
Durante o inverno, essas abelhas entram em diapausa, um estado de dormência profunda em que o metabolismo é drasticamente reduzido. Enterradas em pequenas cavidades no solo, elas permanecem ali por até nove meses, dependendo exclusivamente da energia armazenada para sobreviver até a primavera.
A descoberta ocorreu de forma inesperada, após um incidente em laboratório, no qual tubos contendo rainhas em hibernação foram acidentalmente inundados. Ao contrário do esperado, os insetos sobreviveram e se recuperaram após a retirada da água. A partir disso, pesquisadores realizaram testes controlados com dezenas de indivíduos da espécie Bombus impatiens, confirmando a resistência à submersão prolongada.
Para entender o fenômeno, os cientistas analisaram a respiração e o metabolismo das abelhas durante a diapausa. Os resultados indicam que, nesse estado, a taxa metabólica das rainhas cai mais de 99%, reduzindo drasticamente a necessidade de oxigênio. Quando submersas, essa demanda diminui ainda mais, permitindo que realizem trocas gasosas diretamente com a água ao redor.
O mecanismo provavelmente envolve uma fina camada de ar, que se prende ao corpo do inseto e funciona como interface para a difusão de oxigênio, estratégia semelhante à de insetos aquáticos. Ainda assim, esse processo não supre totalmente as necessidades energéticas, levando as abelhas a recorrer também ao metabolismo anaeróbico, que gera energia sem oxigênio, mas produz ácido lático como subproduto.
Essa adaptação, no entanto, tem custo. Após emergirem da água, as rainhas precisam de vários dias para se recuperar, consumindo mais energia do que em condições normais.
A relevância ecológica da descoberta é significativa. As colônias de mamangabas dependem exclusivamente da sobrevivência das abelhas-rainhas durante o inverno. Caso uma rainha não resista, toda a colônia que ela originaria deixa de existir. Em um cenário de eventos climáticos extremos mais frequentes, essa capacidade de tolerar inundações pode ser decisiva para a manutenção das populações.
O estudo reforça que, mesmo em espécies amplamente conhecidas, ainda há aspectos pouco explorados sobre sua fisiologia e resiliência. No caso das abelhas-rainhas, fundamentais para a polinização e para a segurança alimentar global, compreender essas adaptações pode ajudar a orientar estratégias de conservação diante de um clima em rápida transformação.