Abelhas-rainhas conseguem sobreviver debaixo d’água por dias, aponta pesquisa

Pesquisa revela que abelhas-rainhas suportam dias submersas ao desacelerar funções vitais, indicando uma estratégia que pode ajudar populações a enfrentar eventos climáticos extremos.

As abelhas-rainhas das mamangabas (gênero Bombus) desenvolveram uma capacidade surpreendente para enfrentar um dos riscos crescentes associados às mudanças climáticas: a inundação do solo durante o inverno. Um novo estudo mostra que essas espécies conseguem permanecer vivas por até oito dias completamente submersas e continuam respirando nesse período.

Durante o inverno, essas abelhas entram em diapausa, um estado de dormência profunda em que o metabolismo é drasticamente reduzido. Enterradas em pequenas cavidades no solo, elas permanecem ali por até nove meses, dependendo exclusivamente da energia armazenada para sobreviver até a primavera.

Abelha-rainha submersa respirando debaixo d’água durante experimento científico com abelhas-rainhas à esq. Abelha-rainha em toca subterrânea durante hibernação, comportamento típico das abelhas-rainhas no inverno à dir.
Abelha-rainha em toca subterrânea durante hibernação, comportamento típico das abelhas-rainhas no inverno à esq. (Foto: Sabrina Rondeau) Abelha-rainha submersa respirando debaixo d’água durante experimento científico com abelhas-rainhas à dir. (Foto: Charles-Antoine Darveau)

A descoberta ocorreu de forma inesperada, após um incidente em laboratório, no qual tubos contendo rainhas em hibernação foram acidentalmente inundados. Ao contrário do esperado, os insetos sobreviveram e se recuperaram após a retirada da água. A partir disso, pesquisadores realizaram testes controlados com dezenas de indivíduos da espécie Bombus impatiens, confirmando a resistência à submersão prolongada.

Para entender o fenômeno, os cientistas analisaram a respiração e o metabolismo das abelhas durante a diapausa. Os resultados indicam que, nesse estado, a taxa metabólica das rainhas cai mais de 99%, reduzindo drasticamente a necessidade de oxigênio. Quando submersas, essa demanda diminui ainda mais, permitindo que realizem trocas gasosas diretamente com a água ao redor.

O mecanismo provavelmente envolve uma fina camada de ar, que se prende ao corpo do inseto e funciona como interface para a difusão de oxigênio, estratégia semelhante à de insetos aquáticos. Ainda assim, esse processo não supre totalmente as necessidades energéticas, levando as abelhas a recorrer também ao metabolismo anaeróbico, que gera energia sem oxigênio, mas produz ácido lático como subproduto.

As abelhas-rainhas das mamangabas (gênero Bombus) desenvolveram uma capacidade surpreendente para enfrentar um dos riscos crescentes associados às mudanças climáticas: a inundação do solo durante o inverno. Um novo estudo mostra que essas espécies conseguem permanecer vivas por até oito dias completamente submersas e continuam respirando nesse período.
Fotos por @andredematosalves – @meliponiculturaoficial
Fotos por @andredematosalves@meliponiculturaoficial

Essa adaptação, no entanto, tem custo. Após emergirem da água, as rainhas precisam de vários dias para se recuperar, consumindo mais energia do que em condições normais.

A relevância ecológica da descoberta é significativa. As colônias de mamangabas dependem exclusivamente da sobrevivência das abelhas-rainhas durante o inverno. Caso uma rainha não resista, toda a colônia que ela originaria deixa de existir. Em um cenário de eventos climáticos extremos mais frequentes, essa capacidade de tolerar inundações pode ser decisiva para a manutenção das populações.

O estudo reforça que, mesmo em espécies amplamente conhecidas, ainda há aspectos pouco explorados sobre sua fisiologia e resiliência. No caso das abelhas-rainhas, fundamentais para a polinização e para a segurança alimentar global, compreender essas adaptações pode ajudar a orientar estratégias de conservação diante de um clima em rápida transformação.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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