A Amazônia submersa: o que os rios revelam sobre o limite da vida e o futuro da região

A Amazônia costuma ser pensada a partir da floresta. O verde domina o imaginário, o discurso político e até a agenda internacional. Mas há um outro território, menos visível e igualmente decisivo, onde os sinais de alerta já são concretos.

Nos rios amazônicos, a vida está sendo empurrada para seus limites fisiológicos. Temperaturas em elevação, oxigênio em queda e eventos extremos mais frequentes estão redesenhando o funcionamento de um dos sistemas mais complexos do planeta.

A ciência já percebeu o que ainda passa despercebido no debate público: os peixes da Amazônia estão operando no limite. E esse limite está sendo ultrapassado.

Nesta entrevista, o pesquisador Adalberto Luís Val, cofundador do portal Brasil Amazônia Agora, uma das principais referências em biologia aquática na região em toda ciência mundial, explica como funciona esse sistema invisível, quais são os sinais mais preocupantes e o que está em jogo para a biodiversidade, a economia e a segurança alimentar de milhões de pessoas. Confira


Adalberto Luis Val construiu sua trajetória científica mergulhando onde poucos olham com atenção: a vida invisível dos rios amazônicos. Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), ele se tornou uma das principais referências mundiais no estudo da fisiologia de peixes tropicais, revelando como esses organismos resistem — e até onde conseguem resistir — às condições extremas da região.

Ao longo de décadas de pesquisa, ajudou a decifrar os mecanismos que permitem a sobrevivência em ambientes com pouco oxigênio, altas temperaturas e variações intensas ao longo do ano. Esse conhecimento hoje é central para compreender os impactos das mudanças climáticas sobre a Amazônia.

Membro da Academia Brasileira de Ciências e da The World Academy of Sciences (TWAS), Val também coordena o INCT ADAPTA, uma rede que conecta ciência, clima e saúde para antecipar riscos e orientar decisões sobre o futuro da região.

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Adalberto Val, no encontro das águas do Rio Negro com o Solimões – Keiny Andrade / Fundação Bunge

BAA – Quando se fala em Amazônia, a imagem mais imediata é a floresta. Mas existe um outro universo, igualmente complexo e decisivo: o sistema aquático. Qual é a dimensão ecológica e biológica desse mundo submerso?

Adalberto Val: A Amazônia aquática é um universo extraordinário, ainda pouco compreendido. A região funciona como um grande sistema anfíbio, onde a água não compõe apenas a paisagem, ela organiza a vida.

Há diferentes tipos de água – brancas, pretas e claras – que drenam solos distintos e criam ambientes com características físicas e químicas muito variadas. Esse mosaico resulta de milhões de anos de processos geológicos que moldaram tanto o território quanto os organismos que nele vivem.

Existe um dinamismo evolutivo muito intenso. É ele que explica a enorme diversidade e as adaptações únicas da biota aquática amazônica.

Outro elemento central são os pulsos de inundação. Os ciclos de cheia e vazante estruturam o funcionamento da vida na região, impondo desafios contínuos para espécies aquáticas e terrestres. Na Amazônia, o rio não acompanha a vida. Ele define a vida.

BAA – Suas pesquisas mostram que pequenas variações na temperatura da água já provocam impactos relevantes na fisiologia dos peixes. O que está acontecendo hoje nos rios amazônicos e quais são os riscos mais imediatos?

Adalberto Val: O que observamos hoje é uma combinação preocupante de fatores: aumento da temperatura da água, redução do oxigênio dissolvido e maior frequência de eventos extremos, como secas severas. Esses fatores atuam de forma combinada e ampliam o estresse sobre os peixes.

Mesmo pequenas elevações de temperatura já são críticas. Os peixes amazônicos vivem próximos dos seus limites térmicos naturais, o que reduz a margem de segurança diante do aquecimento. Ao mesmo tempo, a água mais quente diminui a disponibilidade de oxigênio e aumenta a demanda metabólica. Surge um desequilíbrio direto entre o que o organismo precisa e o que o ambiente oferece.

Os efeitos são claros: queda no desempenho fisiológico, maior vulnerabilidade e, em situações extremas, mortalidade em massa – fenômeno que já vem sendo registrado na região.

BAA – O aumento de alguns graus na temperatura da água pode parecer pequeno. Por que isso é tão crítico?

Adalberto Val: Para os peixes, essa variação é significativa porque eles são ectotérmicos. A temperatura do corpo depende diretamente da água. Quando a água aquece, o metabolismo acelera. Isso aumenta a demanda por energia e por oxigênio.

O problema é que a água quente retém menos oxigênio. Cria-se um descompasso entre necessidade e disponibilidade. Esse desequilíbrio compromete funções essenciais como crescimento, reprodução e resposta ao estresse. Em situações mais severas, pode levar ao colapso fisiológico.

A Amazônia costuma ser pensada a partir da floresta. O verde domina o imaginário, o discurso político e até a agenda internacional. Mas há um outro território, menos visível e igualmente decisivo, onde os sinais de alerta já são concretos.
Foto: André Dib

BAA – A redução do oxigênio dissolvido é um dos focos de suas pesquisas. Como isso afeta a sobrevivência dos peixes?

Adalberto Val: Na Amazônia, o oxigênio não é um recurso estável. Ele varia intensamente e molda a própria organização da vida aquática. Em áreas como várzeas e igapós, a combinação de matéria orgânica e atividade microbiana reduz rapidamente o oxigênio, criando ambientes naturalmente desafiadores.

Nessas condições, o que está em jogo é a capacidade de manter processos vitais ao longo do tempo. A limitação de oxigênio afeta o funcionamento dos tecidos, altera rotas metabólicas e compromete o equilíbrio interno dos peixes. Isso se traduz em menor eficiência energética, crescimento reduzido e impactos na reprodução.

Além disso, o oxigênio define onde cada espécie pode viver. Espécies mais sensíveis são excluídas de ambientes críticos, enquanto as mais tolerantes ocupam esses espaços. Com o avanço das mudanças ambientais, esse quadro se intensifica. O oxigênio passa a ser um dos principais limites para a resiliência dos peixes amazônicos.

BAA – Espécies como tambaqui e pirarucu são exemplos de adaptação a ambientes extremos. Como isso é possível?

Adalberto Val: Esses peixes desenvolveram um conjunto sofisticado de adaptações ao longo da evolução. No caso do pirarucu, há a capacidade de respirar ar diretamente, funcionando como um sistema respiratório complementar. Isso permite sobreviver em ambientes com baixo oxigênio.

Outras espécies aumentam a eficiência das brânquias ou ajustam o transporte de oxigênio no sangue. A hemoglobina, por exemplo, pode ter propriedades que facilitam a captação e liberação de oxigênio em condições adversas. Há também flexibilidade metabólica. Esses organismos conseguem reduzir o gasto energético e reorganizar suas funções para suportar períodos de estresse. Essas adaptações são resultado direto das condições únicas da Amazônia.

BAA – Existe um limite para essa capacidade de adaptação diante das mudanças climáticas?

Adalberto Val: Sim, e esse é um ponto muito importante. Essas adaptações levaram milhões de anos para se consolidar. O problema é que as mudanças atuais estão ocorrendo em uma velocidade muito maior. Há um descompasso entre o ritmo das mudanças ambientais e a capacidade de resposta evolutiva.

O limite aparece quando mecanismos como respiração, metabolismo e equilíbrio interno deixam de sustentar o funcionamento do organismo. A partir desse ponto, o desempenho cai, a reprodução é afetada e a sobrevivência fica comprometida. Além disso, os estressores atuam de forma combinada. Temperatura, oxigênio e poluição se reforçam mutuamente. Mesmo espécies altamente adaptadas podem ultrapassar seus limites.

BAA – Como essas mudanças impactam a base alimentar da região?

Adalberto Val: A pesca é a base da segurança alimentar para milhões de pessoas na Amazônia. Alterações na temperatura, no oxigênio e no regime de cheias afetam diretamente o crescimento, a reprodução e a sobrevivência dos peixes. Isso reduz os estoques e torna a oferta mais instável.

Eventos extremos, como secas severas, podem provocar mortalidade em larga escala. Há também o risco de contaminação por poluentes, comprometendo a qualidade do pescado. O resultado é um sistema menos previsível e mais vulnerável. Proteger os peixes amazônicos é proteger a alimentação e a saúde das populações da região.

BAA – Como o desmatamento afeta os rios amazônicos?

Adalberto Val: O impacto é profundo e muitas vezes subestimado. A retirada da floresta aumenta a erosão, eleva a carga de sedimentos e altera a qualidade da água. Isso reduz o oxigênio, modifica a disponibilidade de nutrientes e afeta diretamente os organismos aquáticos.

Há também o aquecimento da água e a liberação de contaminantes, como o mercúrio. Além disso, o desmatamento interfere no ciclo hidrológico, alterando o regime de chuvas e o pulso de inundação. Quando esse pulso perde regularidade, todo o sistema perde previsibilidade.

BAA – Qual é a missão central do ADAPTA e seus principais resultados?

Adalberto Val: O ADAPTA busca entender como os organismos amazônicos respondem às mudanças ambientais. É uma iniciativa interdisciplinar que integra fisiologia, ecologia, genética e saúde. Um dos principais resultados foi demonstrar que muitos peixes já vivem próximos dos seus limites fisiológicos.

Também evidenciamos que fatores como temperatura, oxigênio e poluição atuam de forma combinada. Outro avanço importante foi mostrar a conexão entre ambiente, peixes e saúde humana, especialmente no caso da contaminação por mercúrio.

Além disso, o projeto formou novos pesquisadores e fortaleceu redes de colaboração.

BAA – Como a ciência pode orientar políticas públicas?

Adalberto Val: A ciência transforma conhecimento em ação. Ela permite identificar espécies vulneráveis, definir períodos de defeso e orientar o manejo pesqueiro. Também ajuda a monitorar contaminação e garantir segurança alimentar. Outro ponto é a antecipação de riscos. Compreender os efeitos de temperatura, oxigênio e poluição permite prever cenários futuros.

A ciência também orienta alternativas, como a piscicultura sustentável. Mas o mais importante é a integração entre ciência, gestão e conhecimento local.

BAA – A piscicultura pode ser parte da solução?

Adalberto Val: Sim, desde que orientada por ciência. A pesquisa tem avançado no desenvolvimento de dietas mais eficientes e no entendimento das exigências ambientais das espécies. Também contribui para melhorar a saúde dos peixes e reduzir perdas. Sistemas integrados, como a aquaponia, ampliam a eficiência e reduzem impactos. O desafio é produzir respeitando a biodiversidade e os contextos locais.

BAA – Quais são os sinais mais preocupantes hoje?

Adalberto Val: Os sinais já são evidentes. Há aumento da temperatura da água, alterações no regime de cheias e maior frequência de eventos extremos. O pulso de inundação está se tornando menos previsível. Os peixes estão operando cada vez mais próximos dos seus limites fisiológicos.

Além disso, os efeitos combinados ampliam os impactos. O ponto mais crítico é a velocidade dessas mudanças.

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Foto: Akshay Chauhan/Unsplash

BAA – O que está em jogo nas próximas décadas?

Adalberto Val: Está em jogo a estabilidade dos sistemas aquáticos. Podemos ver uma reorganização das comunidades, com espécies mais tolerantes substituindo as mais sensíveis. Isso altera cadeias alimentares, produtividade e serviços ecossistêmicos. Há risco de perda de biodiversidade funcional.

Outro problema é a perda de previsibilidade ambiental. O futuro ainda pode ser influenciado pelas decisões que tomarmos agora.

BAA – Qual a importância de fortalecer a ciência na Amazônia?

Adalberto Val: É uma questão de soberania. A Amazônia precisa ser estudada por quem vive e trabalha na região. Isso garante observação contínua, respostas rápidas e integração com o conhecimento local. Também fortalece a capacidade científica nacional e reduz desigualdades regionais. Há ainda uma dimensão geopolítica. A Amazônia está no centro do debate global.

BAA – Que mensagem o senhor deixaria ao público?

Adalberto Val: A Amazônia não é apenas floresta. Ela é água. Nos rios está uma parte essencial da biodiversidade, da alimentação e do equilíbrio climático. Os sistemas aquáticos conectam a região ao restante do continente.

Proteger os rios significa proteger a vida. A Amazônia sempre foi resiliente, mas enfrenta mudanças rápidas. Agir com base na ciência e no conhecimento local é essencial. Proteger a Amazônia aquática é proteger o nosso futuro.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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