A voz do setor privado da Amazônia na COP30
À frente da missão de articular o setor privado amazônico na COP30, Denis Minev sustenta que a Amazônia deve ser reconhecida como credora do mundo em serviços ambientais. Em entrevista ao Brasil Amazônia Agora, ele explica como transformar carbono em ativo econômico, destravar cadeias bioeconômicas e construir um legado duradouro a partir de Belém.
Coluna Follow-Up
BAA Entrevista
Carbono, preço e virada econômica
“O carbono não pode ser tratado como retórica, mas como ativo econômico com valor definido.”
Brasil Amazônia Agora: Quando você diz que “o carbono é chave” para transformar a economia amazônica, o que exatamente está faltando: preço, demanda, confiança ou regra clara?
Denis Minev: O que falta é a convergência de todos esses fatores. Precisamos de preço estável, mecanismos confiáveis de mensuração e regras transparentes. Sem isso, a Amazônia continuará exportando natureza de graça enquanto o mundo lucra com a externalidade.
A Amazônia é credora
“Não podemos aceitar migalhas filantrópicas — precisamos de contratos, métricas e compromissos de longo prazo.”
BAA – Você tem repetido que a Amazônia é credora no balanço ambiental do mundo. Como traduzir isso em fluxo financeiro local?
Denis: O caminho é um mercado robusto de carbono, associado a fundos soberanos climáticos e a instrumentos de pagamento por serviços ambientais. Ser credora significa que oferecemos ao planeta serviços insubstituíveis — e isso deve ser remunerado.
Bioeconomia que dá lucro
BAA – Quais cadeias bioeconômicas estão maduras para escalar?
Denis: Castanha, açaí e guaraná já têm mercado consolidado. Mas o salto virá quando transformarmos ativos naturais em produtos de alto valor agregado: dermocosméticos, fármacos, alimentos funcionais. Para isso, precisamos de ciência aplicada e logística moderna.

Financiamento e risco
BAA – Como destravar crédito privado para projetos na floresta?
Denis: Com fundos garantidores e blended finance. O risco não pode ficar só no ombro de quem vive na Amazônia. Financiamento para SAFs e manejo florestal deve ser visto como investimento estratégico em estabilidade climática.
Território, povos e justiça climática
BAA – Como assegurar benefício para povos indígenas e comunidades tradicionais?
Denis: Com consulta prévia e repartição justa de benefícios. Sem protagonismo das comunidades, qualquer projeto será mais um ciclo de exploração. A Amazônia só será sustentável se seus povos forem protagonistas.
Indústria, PIM e descarbonização
BAA – Qual é o papel do Polo Industrial de Manaus?
Denis: O PIM é pilar estratégico. Já financia ciência e inovação. Agora precisa se conectar à bioeconomia regional — biotecnologia, embalagens sustentáveis, economia circular. A floresta e a fábrica precisam conversar.
Infraestrutura sem perder a floresta
BAA – Dá para conciliar infraestrutura e desmatamento zero?
Denis: Dá, se houver checklist ESG rigoroso. Estradas e portos não podem ser vetores de destruição, mas corredores de integração sustentável. O Brasil precisa de bioengenharia de infraestrutura.
COP30: entregáveis e governança
“A COP não pode ser um evento, precisa ser um marco de inflexão.”
BAA – Quais entregáveis o senhor pretende defender em Belém?
Denis: Três pontos:
- Compromisso global com financiamento climático;
- Plano nacional de mercado de carbono com integridade;
- Agenda de legado, com métricas públicas e governança transparente.
Escala e integridade
BAA – O Brasil deve acelerar o mercado regulado de carbono agora?
Denis – Sim. Se esperarmos a harmonização internacional, perderemos a janela de liderança. O Brasil tem condições de ser referência mundial em carbono com floresta.
Pingue-pongue final
Um indicador de sucesso da COP30?
Investimento concreto em comunidades amazônicas.
Um erro a não repetir?
Projetos que excluem os povos da floresta.
Uma aposta para 24 meses?
SAFs de cacau e castanha gerando renda e crédito de carbono.
Um legado que quero ver firmado?
Que a Amazônia seja reconhecida como credora e protagonista do futuro climático.
A responsabilidade da Amazônia e de seu setor privado no mutirão é liderar com sua vitalidade empreendedora. A tarefa é escalar a produção sustentável de alimentos e produtos florestais, ao mesmo tempo em que expande o sequestro de carbono, protege a biodiversidade e garante o ciclo da água.
Denis Minev é diretor-presidente da Bemol e cofundador da Fundação Amazonas Sustentável, do Museu da Amazônia, da plataforma Parceiros Pela Amazônia e parceiro do portal BrasilAmazôniaAgora. É também investidor em diversas startups amazônicas nos segmentos de bioeconomia, carbono, logística e turismo e serviu como Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Amazonas. Em 2012, foi selecionado Young Global Leader do Fórum Econômico Mundial.

Coluna Follow-Up é publicada às quartas quintas e sextas-feiras no Jornal do Comércio do Amazonas sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes Brasil Amazônia Agora
