A energia como ponte para o futuro: a transição energética na Amazônia é o maior desafio ESG do Brasil

“O futuro da transição energética na Amazônia é um futuro de parcerias, de escuta ativa das comunidades e de uso estratégico da tecnologia. A floresta em pé pode – e deve – ser também uma fonte de energia limpa e de prosperidade para o Brasil. O ESG não pode ser apenas um discurso: ele precisa iluminar caminhos, literalmente.

Transição energética é muito mais do que substituir fontes fósseis por renováveis. Na Amazônia, trata-se de um processo profundamente social, estratégico e desafiador. Afinal, estamos falando de milhões de pessoas que ainda vivem em comunidades isoladas, onde a única energia disponível vem de geradores movidos a óleo diesel – 24 horas por dia, com alto custo ambiental, econômico e humano.

Hoje, cerca de 2,5 milhões de pessoas na Amazônia Legal dependem de sistemas isolados a diesel. E ainda existem 1 milhão de pessoas sem qualquer acesso à energia elétrica. Este é um dos maiores paradoxos energéticos do país: uma região que exporta energia limpa gerada por suas hidrelétricas permanece em larga medida às escuras.

O futuro da transição energética na Amazônia é um futuro de parcerias, de escuta ativa das comunidades e de uso estratégico da tecnologia. A floresta em pé pode – e deve – ser também uma fonte de energia limpa e de prosperidade para o Brasil. O ESG não pode ser apenas um discurso: ele precisa iluminar caminhos, literalmente.
foto: Ahmad Jarrah

Essa realidade exige uma transição energética que seja planejada, justa e eficaz. E isso começa com o reconhecimento de que não se trata de uma “virada de chave”. Existem contratos vigentes, investimentos realizados e infraestruturas operando. O respeito ao patrimônio construído nos últimos 30 anos é fundamental – mas isso não significa que o modelo atual deva continuar.

Os próximos leilões de energia para a Amazônia não podem mais ser baseados em termoelétricas. Precisam priorizar fontes renováveis, combinadas com sistemas de armazenamento, para garantir uma energia firme, confiável e compatível com os novos desafios tecnológicos e climáticos.

Na prática, as soluções mais promissoras são microrredes solares com baterias, aplicadas localmente, com envolvimento comunitário e apoio de organizações sérias que conhecem o território. É isso que temos feito em comunidades como Santa Helena do Inglês, Tumbira e Bauana, onde a chegada da energia tem impulsionado o turismo, a pesca sustentável e o beneficiamento de produtos como o óleo de andiroba, vendido à Natura. O apoio decisivo dessa mudança é o suporte oferecido pela Fundação Amazonas Sustentável.

Energia é habilitadora. O UCB Power não tem qualquer relação comercial com a Natura, mas a comunidade, com acesso à energia solar, limpa e renovável, passou a beneficiar óleos vegetais, o óleo essencial para a empresa de cosméticos gerar seus negócios e dar amparo à adoção da agenda ESG.

Sem energia, não há desenvolvimento econômico, nem acesso à saúde, educação ou inclusão digital. Por isso, a transição energética não pode deixar ninguém para trás. Ela precisa ser socialmente justa, com políticas públicas mais ágeis, com mecanismos de financiamento claros e com incentivo à industrialização verde no Brasil.

O futuro da transição energética na Amazônia é um futuro de parcerias, de escuta ativa das comunidades e de uso estratégico da tecnologia. A floresta em pé pode – e deve – ser também uma fonte de energia limpa e de prosperidade para o Brasil. O ESG não pode ser apenas um discurso: ele precisa iluminar caminhos, literalmente.

A inovação tecnológica também exige atenção. A Zona Franca de Manaus vive um processo de modernização com tecnologias cada vez mais eletrointensivas – inteligência artificial, internet das coisas, robótica, impressão 3D, entre outras. Tudo isso exige energia constante, limpa e em volume crescente. Sem isso, nossas indústrias não conseguirão competir no novo cenário global do ESG.

Outro ponto que precisa ser debatido com seriedade é o hidrogênio verde. O Brasil tem potencial para se tornar um líder global nessa área, mas exportar energia limpa sem agregar valor pode repetir o erro histórico da exportação de matérias-primas. Precisamos produzir e utilizar o hidrogênio verde aqui, atraindo indústrias que operem com essa matriz renovável e gerem empregos no país.

O futuro da transição energética na Amazônia é um futuro de parcerias, de escuta ativa das comunidades e de uso estratégico da tecnologia. A floresta em pé pode – e deve – ser também uma fonte de energia limpa e de prosperidade para o Brasil. O ESG não pode ser apenas um discurso: ele precisa iluminar caminhos, literalmente.

(*) Coluna follow-up – sob a responsabilidade do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, e coordenação editorial de Alfredo Lopes, é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras no Jornal do Comércio do Amazonas e no portal BrasilAmazôniaAgora.com.br

Zilda Costa
Zilda Costa
Zilda Costa é diretora de Alianças Estratégicas e Parcerias Comerciais da UCB Power, empresa com sede na Zona Franca de Manaus, coordenadora da Comissão de Transição Energética das Indústrias do CIEAM e especialista em soluções de armazenamento de energia para sistemas remotos e isolados.

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