O Brasil precisa de Norte para navegar

”Temos um Polo Industrial que coloca o Amazonas como o quinto maior contribuinte da Receita e produz itens da demanda nacional com alta tecnologia e preços acessíveis. Ou iremos gerar emprego na Ásia, mais ainda? E essa riqueza, em lugar de ser confiscada em 75% de sua totalidade pela União, deveria ser aplicada nos negócios que o Norte tem a oferecer ao Brasil. A lista do Norte é extensa, maior que a floresta e que a demanda do Brasil em termos de empregos, renda e oportunidades.”

Por Nelson Azevedo
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Com o advento das redes sociais, arena de muita encrenca e pouca sintonia, na última década o Brasil se pode se transformar naquilo que os medievais chamavam de “Stultifera navis”, o navio dos malucos, onde o objetivo-nação – premissa da definição do que somos e para onde vamos – corre risco de ficar impossível, a começar pela comunicação entre as pessoas.  Se alguém não concorda com o pensamento do outro, ambos se tornam inimigos. Esta perspectiva de brasilidade zero precisa ter razões para ser superada Norte para navegar. E quando afirmamos a necessidade do Norte, estamos baseando essa sentença nas leis da física, ou seja da natureza! E referimo-nos a uma das maiores invenções da humanidade, que é a bússola, instrumento sem o qual, em sentido amplo, ninguém vai a lugar algum.
 

Dívida lusitana

E por falar em bússola, vamos olhar pelo retrovisor para entender porque o Brasil tem o Norte mais cobiçado da Terra. Desde Pero Vaz Caminha, quando a publicidade das riquezas do Mundo Novo começou a se espalhar, as potências europeias passaram a cobiçar esse Eldorado e dele se apossar. França, Holanda e Inglaterra pegaram um naco substantivo, as Guianas, e Portugal e Espanha ficaram com o que sobrou, a maior parte. A Amazônia, em suas dimensões atuais, a propósito, pertencia mais à Espanha do que a Portugal. E se hoje a Amazônia Legal pertence ao Brasil, devemos aos nossos irmãos lusitanos, sua perspicácia e visão de longo prazo.

Liberdade, Igualdade e Fraternidade

Com a Revolução Francesa, novos ares renovaram a atmosfera política na Amazônia, vizinha da Guiana Francesa. E o Brasil voltou a depender da intuição portuguesa para resgatar os melhores parâmetros de gestão da Amazônia, do ponto de vista de suas vocações econômicas e ambientais. Descobriu mas não adotou nem evoluiu. Basta ver o planejamento estratégico deixado por Marquês de Pombal para ocupação sustentável da Amazônia quando ainda era chamada de Grão-Pará e Rio Negro. Liberté, Egalité, Fraternité , Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e seus avanços de civilização nos diferenciou do resto do país, opondo o modelo das pequenas propriedades do Norte, explorando as diversas matrizes econômicas da região, ao paradigma latifundiário que irradiou-se da Coroa instalada no Sudeste. Esse descompasso se agravou e desembarcou na Cabanagem, nas primeiras décadas do Século XIX, um genocídio que se assemelha aos crimes mais hediondos da história da humanidade, mais de 60.000 mil cabanos, a maior parte do sexo masculino, dizimados sem clemência ou apelação. Desde lá, o Brasil se recusa a retomar sua unidade nacional, mesmo que seja para recompor o Norte, um componente vital de sua bússola de transformação.

Termo de barganha

Não sou nem é necessário ser historiador ou planejador de políticas públicas para reconhecer/formular essa obviedade. Países, naves terrestres fluviais ou aéreas, ou qualquer projeto que seja, precisam de bússolas para definir previamente aonde querem chegar. E desse ponto de vista, se um país afirma buscar uma direção e navega em outra está supondo que a opinião pública é deficiente visual ou quem sabe o GPS nacional esteja sem atualização. Entra governo e sai governo e o Norte do Brasil sempre tem ficado pra depois. Ou como termo de barganha de estranhas e distantes negociações.

Recursos hídricos

E o que temos a oferecer, além do potássio para substituir os fertilizantes da Rússia e Ucrânia, ou dos Serviços Ambientais que começam a ser valorizados generosamente no mercado verde? A lista está descrita semanalmente em nossas reflexões. Aqui o Sol dorme menos e tem energia renovável para abastecer a demanda universal. Nossos recursos hídricos são o bem mais precioso da Humanidade. Se reflorestarmos os 18% da Amazônia desmatada iremos gerar água para o Continente. Cada hectare de lâmina d’água, pensando na segurança alimentar mundial, pode gerar 30 ton de proteína da piscicultura. Deliciosa e sem pesticidas. Só o Amazonas tem 160 milhões de hectares para começo de conversa e a maior reserva mundial de água potável.

Ofertas do Norte ao Brasil  

A mineração não precisa espalhar mercúrio e destruir a vida, temos tecnologia civilizada para colocar os minérios a serviço de nossa gente, a começar pelas populações tradicionais indígenas. Temos um Polo Industrial que coloca o Amazonas como o quinto maior contribuinte da Receita e produz itens da demanda nacional com alta tecnologia e preços acessíveis. Ou iremos gerar emprego na Ásia, mais ainda? E essa riqueza, em lugar de ser confiscada em 75% de sua totalidade pela União, deveria ser aplicada nos negócios que o Norte tem a oferecer ao Brasil. A lista do Norte é extensa, maior que a floresta e que a demanda do Brasil em termos de empregos, renda e oportunidades.

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Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM.
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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