A Amazônia e as bússolas morais

“O que não podemos é seguir parados. Décadas parados. Séculos parados. Precisamos de mais movimento. Mas movimento na direção das dúvidas e não do que já temos certeza ser errado. E como fica a ética nisto? Deixo a reflexão para o leitor.“

Augusto César Barreto Rocha
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Como fazem falta as bússolas morais. Elas servem para a navegação no mundo. Elas nos fazem repudiar com veemência coisas erradas e claramente erradas. Elas nos dão convicção do que é melhor e do que é pior. Do que é certo e do que é errado. O acolhimento da diversidade não é ter que admitir que a Terra poderia ser plana ou que se eu injetar sabão na veia matarei o último vírus. Afinal, vírus nem é um ser vivo que precise “ser morto”, nem convém colocar sabão no sangue, pela nossa saúde.

​Há uma confusão no mundo de hoje sobre o que é admissível em um debate e o que simplesmente não é admissível. O que nos parece faltar é uma clareza moral. Tipicamente os estúpidos são convincentes e tipicamente quem pesquisa ciência não é muito convincente, porque a pesquisa científica é movida pela curiosidade e ceticismo, não pelas certezas. As certezas científicas são sabidamente provisórias. Por outro lado, o vendedor de unguento que trafega entre cidades precisa ser convincente. A única arma dele é a ênfase e mais nada.

​Como as bússolas morais estão meio avariadas, as pessoas têm se apegado na ênfase e não no conteúdo, aproximando-se do estúpido, conforme classificado por Carlo Cipolla, que obtém prejuízos privados e sociais. A busca de certezas, onde não existem, no lugar de certezas temporárias é um equívoco moral. Não deveríamos estar em sociedade lutando, uns contra os outros. Somos uma sociedade que deveria lutar por um modelo futuro e almejado de mundo melhor, porque o passado, de fato, nunca foi melhor. Em nada. A não ser por pura ilusão da falta de esperança.

​As posições científicas dúbias são pela certeza de que uma nova verdade surgirá. As posições pseudocientíficas contundentes são pela clareza da ingenuidade, estupidez ou bandidagem, ainda pela classificação de Cipolla. E, como estão erradas e visivelmente erradas, elas precisam ser contundentes para ter algo. De outra forma, o lixo enganador será muito visível. Precisamos ter a contundência de que não sabemos a melhor forma de lidar com a Amazônia. Contudo, já sabemos muitas coisas, pelos aprendizados de outros lugares. Por exemplo, sabemos que a floresta é mais valiosa em pé do que destruída.

​O que além disto? É uma busca em curso. Saber que é uma busca cansa as pessoas que querem respostas rápidas. Mas elas não existem. Não há resposta rápida para nada que não se sabe ao certo. Há apenas para coisas que sabemos. Mas, quanto mais sabemos, mais temos a certeza de que nada sabemos. E este tipo de dicotomia cansa quem busca certezas. Qual a melhor forma de construir uma indústria de alimentos na floresta. Não sabemos. Mas precisamos começar a caminhada. O que não podemos é seguir parados. Décadas parados. Séculos parados. Precisamos de mais movimento. Mas movimento na direção das dúvidas e não do que já temos certeza ser errado. E como fica a ética nisto? Deixo a reflexão para o leitor.

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Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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