Como a Amazônia votou no segundo turno e onde Lula virou o jogo?

As eleições presidenciais na Amazônia Legal expõem diferenças territoriais no voto, com mudanças entre os turnos e obstáculos de transporte para eleitores indígenas.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente neste domingo (25), conquistando seu quarto mandato em uma virada histórica após terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL). Com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário, o presidente reverteu a desvantagem na etapa inicial da disputa. Nas eleições presidenciais na Amazônia Legal, Lula venceu em quatro dos nove estados, enquanto o candidato do PL ficou à frente nos outros cinco.

Segundo a reportagem da Amazônia Real, a reta final foi marcada por pesquisas que apontavam derrota do petista e pela intensificação da mobilização digital de sua campanha. Lula ampliou a participação em vídeos e transmissões ao vivo, enquanto o deputado federal André Janones (Rede) impulsionou o canal “Exército do Lula”, no WhatsApp.

No discurso após a vitória, o presidente agradeceu aos apoiadores e destacou a participação de idosos e jovens. Também criticou a atuação das plataformas digitais Meta na redução do alcance de seus conteúdos e defendeu sua regulamentação. 

Como votaram os nove estados

O resultado das eleições presidenciais na Amazônia Legal mostrou diferenças entre os estados. Lula venceu no Amapá, Amazonas, Maranhão e Pará. Já Flávio Bolsonaro recebeu mais votos no Acre, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Tocantins.

A distribuição estadual, porém, não resume as diferenças dentro da região. A comparação entre os turnos mostra mudanças tanto em centros urbanos quanto em municípios do interior. Segundo levantamento da SUMAÚMA, Lula passou à frente em 25 municípios: em 24, Flávio havia liderado o primeiro turno; em Crixás do Tocantins, os dois estavam empatados.

Tocantins concentrou 12 dessas mudanças, incluindo o município que saiu do empate. O Pará registrou cinco; o Amazonas, três; Amapá e Mato Grosso, duas cada; e o Maranhão, uma.

Macapá foi um dos destaques: Lula avançou de 43,3% para 51% dos votos válidos. Em Ananindeua, no Pará, passou de 45% para 52,6%, enquanto Flávio cresceu de 46,2% para 47,4%.

No Amazonas, o presidente ultrapassou o adversário em Tapauá, Canutama e Japurá. No Maranhão, a mudança ocorreu em Estreito. No Pará, além de Ananindeua, houve reversões em Jacareacanga, Bom Jesus do Tocantins, Jacundá e Nova Esperança do Piriá.

Abstenção caiu na maioria dos municípios

A participação dos eleitores também marcou as eleições presidenciais na Amazônia Legal. A SUMAÚMA registrou queda da abstenção em 562 dos 773 municípios considerados no levantamento, aproximadamente 73% do total.

Goiatins, no Tocantins, apresentou redução de abstenção de quase 21% para menos de 13%. Lula venceu nas duas etapas e ampliou sua votação de 64,9% para 68,3%.

O Amapá seguiu na direção contrária: os 16 municípios tiveram aumento da abstenção. Em Itaubal, o índice passou de 18,64% para cerca de 41%; em Cutias, de 19,32% para aproximadamente 40,4%. Lula venceu nos dois turnos em ambos.

Ferreira Gomes também combinou maior abstenção com avanço do petista. A ausência às urnas subiu de 22,5% para 39,4%, enquanto a votação de Lula passou de 45,6% para 52,1%.

Esses resultados mostram que a relação entre comparecimento e desempenho eleitoral varia conforme o município. A redução da abstenção coincidiu com o avanço de Lula em parte das localidades, mas os dados apresentados não permitem atribuir a mudança do voto exclusivamente à maior participação.

Transporte condicionou o acesso de eleitores indígenas

As dificuldades de deslocamento estiveram entre os obstáculos à participação nas eleições presidenciais na Amazônia Legal. Antes do segundo turno, o problema já mobilizava órgãos federais e organizações indígenas. A abstenção entre eleitores indígenas havia chegado a 26% no primeiro turno, seis pontos percentuais acima da média nacional.

No Pará, comunidades Araweté, Arara e Parakanã relataram falta de apoio para chegar às seções eleitorais. No Amazonas, um acordo com o TRE-AM estabeleceu suporte logístico para aldeias do Vale do Javari após uma negativa inicial ao pedido de transporte.

Na véspera da votação, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, reviu parte de uma decisão anterior e autorizou o uso de veículos e embarcações federais para transportar indígenas e comunidades tradicionais. As operações permaneceram condicionadas à aprovação prévia dos juízes eleitorais.

Agropecuária e desmatamento ajudam a contextualizar o mapa

A distribuição dos votos nas eleições presidenciais na Amazônia Legal também pode ser analisada a partir das transformações econômicas do território. Em avaliação sobre o primeiro turno, o economista Fernando Rugitsky, pesquisador da SOAS, da Universidade de Londres, relacionou a base eleitoral bolsonarista à expansão da soja e da pecuária e aos conflitos sobre políticas ambientais.

Segundo ele, interesses de produtores e pressões econômicas ajudaram a consolidar o apoio ao bolsonarismo no Centro-Oeste e nas bordas sul e leste da Amazônia. A avaliação aponta diferenças territoriais que persistem mesmo quando os indicadores nacionais da economia melhoram.

Outro levantamento, do Instituto Juruá, relacionou o desmatamento acumulado entre 2020 e 2025 ao desempenho dos presidenciáveis no primeiro turno. Conforme o estudo, a análise de 769 municípios encontrou associação entre maior perda florestal e maior vantagem de Flávio Bolsonaro.

Nos municípios favoráveis ao candidato do PL, a mediana do desmatamento acumulado foi de aproximadamente 3,9 mil hectares, ante cerca de 800 hectares nos favoráveis a Lula. A associação também apareceu na comparação entre municípios de um mesmo estado.

A pesquisadora Camila Duarte Ritter, uma das responsáveis pelo estudo, relaciona a conversão da floresta em pastagem a mudanças nas relações de trabalho e na distribuição do poder econômico local. Essa transformação ajuda a compreender a formação de interesses políticos nos territórios.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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