O Amazonas precisa de todos os seus remadores

Encerrada a eleição, a cooperação entre os governos estadual e federal deve se traduzir em segurança para produzir, soluções para a logística e proteção ao emprego.


Quem acompanha a rotina de uma empresa no Amazonas sabe quanto trabalho existe antes que um produto chegue ao consumidor. Há insumos a transportar, compromissos a honrar, trabalhadores a qualificar e distâncias que pesam sobre cada decisão. Quando os rios baixam, essa conta se torna ainda mais difícil. É com essa realidade que os governos precisam se entender agora que terminou a disputa eleitoral.

Cada um de nós tem suas convicções, suas preferências e sua maneira de compreender o papel do Estado e da iniciativa privada. Continuaremos a exercê-las com liberdade. O resultado das urnas, porém, estabelece uma responsabilidade que alcança vencedores e vencidos. A eleição terminou; a obrigação de cuidar da economia, do emprego e das pessoas pertence a todos.

Para o Amazonas, a sintonia entre o governo estadual e o governo federal oferece uma oportunidade que precisa ser aproveitada com maturidade. Temos problemas cuja solução exige decisões em Brasília, planejamento em Manaus e participação de quem produz, trabalha e conhece as dificuldades do interior. Prolongar o confronto eleitoral consumiria uma energia que faz falta nessa tarefa.

Uma agenda comum de trabalho

A aproximação entre os governos ganhará consistência quando se traduzir em prioridades, orçamento, responsabilidades e prazos. O empresário que precisa decidir sobre uma nova linha de produção, assim como o comerciante que planeja suas compras, deve conseguir enxergar alguma previsibilidade no caminho.

Podemos começar por uma agenda compartilhada para os primeiros meses do próximo ciclo de governo. Nela cabem a implementação da reforma tributária, a segurança logística, a preparação para eventos climáticos extremos, a qualificação profissional e as condições para ampliar investimentos. São assuntos que atravessam diferentes administrações e exigem continuidade.

As entidades empresariais têm uma contribuição a oferecer. Conhecemos os obstáculos que aparecem na operação cotidiana e podemos ajudar a identificar prioridades, examinar soluções e acompanhar sua execução. A mesma disposição deve acolher universidades, trabalhadores, municípios e organizações com experiência nas comunidades do interior.

A unidade de que o Amazonas precisa deve permitir que pessoas com posições políticas diferentes trabalhem juntas e sejam ouvidas. Governar para todos também significa aproveitar a capacidade de quem esteve em outro palanque.

A segurança da Zona Franca exige acompanhamento

A reforma tributária ocupa lugar central nessa agenda. A preservação do diferencial competitivo da Zona Franca de Manaus está prevista no novo marco constitucional e legal. Sua aplicação exige acompanhamento técnico, diálogo com as autoridades e atenção aos efeitos concretos sobre as empresas.

O compromisso dos governos deve ser assegurar que a transição ofereça condições compreensíveis e estáveis para quem investe. É preciso esclarecer procedimentos, acompanhar a utilização dos créditos, identificar dificuldades e encaminhar correções quando necessárias. Uma dúvida tributária pode adiar uma decisão de investimento; uma regra mal aplicada pode comprometer o planejamento de uma operação inteira.

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A defesa da Zona Franca reúne interesses que ultrapassam qualquer preferência partidária. Estão envolvidos o emprego industrial, a atividade dos fornecedores, o movimento do comércio e a renda de famílias que dependem dessa economia. Também estão em jogo as condições para ampliar a pesquisa, a inovação e a formação profissional.

Essa responsabilidade recomenda uma interlocução permanente entre os governos, a bancada parlamentar, a Suframa e o setor produtivo. Precisamos preservar as conquistas e trabalhar para que elas sustentem novos investimentos.

Logística e clima precisam entrar no mesmo planejamento

No Amazonas, a infraestrutura deve ser pensada a partir da realidade dos rios, das distâncias e das necessidades de abastecimento. As dificuldades de transporte alcançam a fábrica, o pequeno negócio, o produtor rural e a família que depende da chegada de alimentos e medicamentos.

A preparação para os períodos de estiagem precisa integrar o calendário de governo. Monitoramento dos rios, manutenção das condições de navegação, planejamento portuário e alternativas de transporte devem ser organizados com antecedência, sob critérios técnicos e ambientais. Também é necessário definir quem responde por cada providência e de onde virão os recursos.

Esperar que a dificuldade se transforme em emergência encarece as respostas e reduz as opções disponíveis. Para uma empresa, a interrupção logística ameaça prazos e contratos. Para uma comunidade isolada, pode comprometer serviços essenciais.

A segurança logística e a adaptação climática precisam ser tratadas como condições permanentes do desenvolvimento amazonense. Isso requer cooperação entre União, Estado e municípios, com participação de quem opera os transportes e conhece os territórios.

Responsabilidade com os recursos e com as pessoas

A cooperação institucional também deve orientar o uso do dinheiro público. Precisamos de prioridades claras, projetos consistentes e capacidade de execução. A previsibilidade das contas públicas interessa a quem produz e a quem depende dos serviços do Estado, pois ambos sofrem quando compromissos são assumidos sem condições de cumprimento.

O desenvolvimento que buscamos deve alcançar mais pessoas e mais municípios. A força industrial de Manaus pode ampliar suas conexões com fornecedores locais, instituições de ensino e atividades econômicas do interior. Para isso, são necessários projetos viáveis, formação profissional, infraestrutura e acesso a mercados.

Há espaço para aproximar a indústria, a bioeconomia e o conhecimento acumulado nas instituições de pesquisa. Essa aproximação exige trabalho continuado, avaliação de resultados e disposição para corrigir percursos. A floresta em pé precisa representar oportunidades concretas para as famílias que vivem nela.

O setor produtivo deve participar desse esforço com propostas e compromissos. Cabe-nos apresentar projetos, investir, formar pessoas e cobrar condições adequadas para trabalhar. Aos governos compete construir um ambiente de confiança, cumprir suas atribuições e manter abertos os canais de diálogo.

Todos têm lugar nesse esforço

Depois de uma eleição disputada, a maneira como se conduz a relação com quem pensou diferente ajuda a definir o ambiente dos anos seguintes. O Amazonas precisa preservar suas competências, reunir experiências e acolher contribuições, venham de onde vierem.

A cooperação poderá conviver com divergências, críticas e fiscalização. Essa convivência dá consistência às decisões e permite que os acordos sejam construídos em torno de interesses públicos reconhecíveis.

De nossa parte, deve haver disposição para colaborar com os governos estadual e federal naquilo que fortaleça a economia, proteja o emprego e melhore as condições de vida da população. Essa colaboração terá o mesmo compromisso com a cobrança de resultados.

Na imagem tão familiar a quem vive nesta região, há muita gente capaz de ajudar a conduzir a embarcação. Ninguém deve ser jogado na água por ter escolhido outro candidato. Todos têm capacidade de remar e precisam encontrar espaço para contribuir. Cabe às lideranças construir um rumo comum, com trabalho suficiente para que a cooperação apareça na vida de quem espera por oportunidades.


Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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