Governadores eleitos na Amazônia Legal assumem estados com avanços no financiamento climático, mas pressionados pelo desmatamento e por conflitos que ameaçam comunidades tradicionais.
A Amazônia Legal concluiu a definição dos governos de seus nove estados nas eleições de 2026. Com mais de 18,3 milhões de eleitores aptos a votar, cerca de 11,5% do eleitorado nacional, a região escolheu seis governadores no primeiro turno. No Amazonas, Acre e Tocantins, a decisão ficou para domingo (25), quando foram eleitos Omar Aziz (PSD), Mailza Assis (PP) e Vicentinho Júnior (PSDB), respectivamente.
No Acre, Mailza Assis havia recebido 49,76% dos votos válidos na primeira etapa, contra 32,27% de Alan Rick (Republicanos). No Amazonas, Omar Aziz avançou após liderar com 40,63%, enquanto Professora Maria do Carmo (PL) obteve 24,49%. Já no Tocantins, Professora Dorinha (União Brasil) terminou o primeiro turno à frente, com 45,52%, seguida por Vicentinho Júnior, com 43,94%, que reverteu a vantagem na votação final.
O resultado completa um quadro regional marcado pela presença de partidos de centro-direita e direita, além da força de grupos políticos consolidados. Em continuidade à análise dos vencedores do primeiro turno, esta reportagem apresenta o histórico e as propostas dos três governadores eleitos na Amazônia Legal no segundo turno. O foco está nos compromissos para conservação e desenvolvimento regional, confrontados com os avanços e passivos socioambientais que chegam ao próximo mandato.
Amazonas — Omar Aziz (PSD)
Resultado eleitoral
Omar Aziz foi eleito governador do Amazonas com 61,42% dos votos válidos, contra 38,6% de Professora Maria do Carmo (PL). A vice eleita é a deputada estadual Alessandra Campêlo (PSD).
Perfil político
Senador pelo Amazonas, Omar Aziz retorna ao Executivo estadual, que comandou entre 2010 e 2014, após exercer dois mandatos como vice-governador. Sua trajetória inclui passagens pela Câmara Municipal de Manaus e pela Assembleia Legislativa. No Senado, ganhou projeção nacional ao presidir a CPI da Covid, em 2021. A vitória recoloca no governo uma liderança com experiência na administração estadual e articulação em Brasília.
O que prevê o plano de governo?
Omar propõe criar um Fundo Estadual de Crédito Verde para financiar cooperativas e empreendedores da floresta, além de um sistema de rastreabilidade para produtos da sociobiodiversidade. O programa prevê ampliar o ICMS Ecológico nos 62 municípios e aproveitar os incentivos da Zona Franca de Manaus para atrair bioindústrias. Também inclui mecanismos de pagamento por serviços ambientais e expansão da energia solar em comunidades dependentes de diesel.
Na área ambiental, o plano combina monitoramento por satélites e drones com salas regionais de controle e planos municipais contra queimadas. Prevê apoio à gestão territorial indígena e atualização da política climática estadual. Para enfrentar secas e cheias, propõe um Programa de Resiliência Hídrica e investimentos em logística que assegurem o abastecimento de localidades isoladas.
Desafios e avanços herdados
Aziz recebe uma estrutura com novos instrumentos de bioeconomia e adaptação climática, desenvolvidos durante o ciclo de Wilson Lima e a transição com Roberto Cidade. A redução recente dos alertas de desmatamento e a instalação de brigadas no interior representam avanços. A execução das políticas, porém, enfrenta limitações orçamentárias e fragilidade dos quadros técnicos ambientais.
As secas extremas e os incêndios expuseram a vulnerabilidade das comunidades e a dependência de respostas emergenciais. Em outubro de 2026, a fumaça das queimadas voltou a comprometer a qualidade do ar em Manaus e levou à suspensão de aulas presenciais em escolas e universidades. A recorrência dessas crises reforça a necessidade de políticas permanentes de prevenção, com brigadas estruturadas antes da estiagem e fiscalização nas áreas mais pressionadas. Também exige monitoramento da qualidade do ar articulado aos serviços de saúde, para reduzir a exposição da população à fumaça.
Ao mesmo tempo, a pressão fundiária no sul do estado e no entorno da BR-319 exige fiscalização permanente. A mineração de potássio em Autazes acrescenta disputas sobre licenciamento e direitos do povo indígena Mura. O próximo governo terá de demonstrar como os compromissos de bioeconomia e proteção territorial orientarão decisões sobre empreendimentos de grande impacto, enquanto transforma o combate às queimadas em uma política contínua de proteção ambiental e saúde pública.
Acre — Mailza Assis (PP)
Resultado eleitoral
Mailza Assis venceu a disputa pelo governo do Acre com 66,21% dos votos válidos. Alan Rick (Republicanos) recebeu 33,79%. A vice eleita é a médica e ex-deputada federal Jéssica Sales (MDB).
Perfil político
Governadora desde abril de 2026, Mailza construiu sua trajetória como aliada de Gladson Cameli (PP). Foi senadora entre 2019 e 2023 e eleita vice-governadora na chapa de Cameli, assumindo o Executivo após a renúncia do titular para disputar o Senado. Sua atuação se concentra em assistência social e direitos das mulheres, com presença junto aos municípios. A vitória assegura seu primeiro mandato conquistado diretamente nas urnas para governar o estado.
O que prevê o plano de governo?
Mailza Assis propõe estruturar o Programa Estadual de Bioeconomia, com pesquisa e apoio ao beneficiamento de produtos da floresta. O plano inclui ampliar a subvenção da borracha para outras cadeias e incentivar sistemas agroflorestais. Também prevê comercializar créditos de carbono com participação de comunidades na governança e expandir a energia solar em serviços públicos de municípios isolados. Na fiscalização, promete concursos públicos para reforçar os órgãos ambientais.
Para os povos indígenas, o programa prevê concluir os planos de gestão territorial e manter bolsas para até 148 agentes agroflorestais em 26 territórios. Também propõe tornar permanente a secretaria responsável pela área. Na adaptação climática, apresenta o Acre Mais Resiliente e um plano de resposta a eventos extremos. O detalhamento institucional, contudo, não vem acompanhado de metas e fontes de financiamento suficientemente definidas para parte das ações.
Desafios e avanços herdados
Assis inicia o próximo mandato com instrumentos como o Sistema de Incentivo a Serviços Ambientais (Sisa) e o Programa REM, importantes para financiar conservação e apoiar comunidades tradicionais. A expansão da energia solar em áreas isoladas também integra o saldo positivo. Após a alta do desmatamento no início da gestão Cameli, o estado registrou uma reversão da tendência, associada à fiscalização e à retomada do financiamento ambiental.
Persistem, entretanto, pressões sobre florestas públicas e terras indígenas, em um modelo econômico que mantém a expansão agropecuária e a infraestrutura entre suas prioridades. Secas e enchentes também comprometem o abastecimento e a produção de alimentos. Como integrante da gestão anterior e governadora desde abril, Mailza Assis será cobrada pela continuidade dos avanços e pela correção dos passivos, com transparência na aplicação de recursos climáticos e maior capacidade de prevenção.
Tocantins — Vicentinho Júnior (PSDB)
Resultado eleitoral
Vicentinho Júnior foi eleito governador do Tocantins com 64,52% dos votos válidos, contra 35,48% de Professora Dorinha (União Brasil). O vice eleito é Amélio Cayres (MDB), presidente da Assembleia Legislativa estadual.
Perfil político
Deputado federal desde 2015, Vicentinho Júnior exerce seu terceiro mandato consecutivo na Câmara. Sua trajetória inclui a liderança do Progressistas no Tocantins e a passagem pela Secretaria Extraordinária de Ações Estratégicas do governo estadual, em 2024. Com atuação voltada ao agronegócio e à infraestrutura, chega ao Executivo ao lado de uma liderança do Legislativo tocantinense, reunindo experiência parlamentar e articulação com grupos políticos locais.
O que prevê o plano de governo?
Vicentinho propõe um marco legal para a produção de bioinsumos nas propriedades rurais e financiamento ao processamento de produtos do Cerrado. O plano inclui apoio à cadeia do babaçu e à produção indígena, além de estudos para hidrogênio verde próximo a hidrelétricas. Na energia solar, prevê usinas comunitárias em bairros de baixa renda e instalação de painéis em aldeias. Para combater incêndios, propõe bases avançadas de bombeiros e critérios de desempenho no ICMS Ecológico.
O programa também prevê protocolos de consulta às comunidades antes de obras e projetos de mineração que as afetem. Na gestão hídrica, propõe monitorar as bacias dos rios Tocantins, Araguaia e Formoso e remunerar produtores pela recuperação de nascentes. Inclui crédito para converter pastagens degradadas em sistemas agroflorestais e obras rodoviárias adaptadas a chuvas intensas.
Desafios e avanços herdados
Vicentinho assume após as gestões de Mauro Carlesse e Wanderlei Barbosa, período em que o Tocantins ampliou instrumentos de monitoramento e entrou na agenda do mercado de carbono. O desmatamento e os focos de calor recuaram em 2025, mas o estado permaneceu entre os mais pressionados do Cerrado. A predominância de supressão autorizada mostra que combater apenas as ilegalidades não basta para conter a perda de vegetação no estado.
A expansão agropecuária também mantém disputas pelo uso da água, especialmente nas bacias que abastecem a Ilha do Bananal e sustentam os modos de vida dos povos Javaé e Karajá. O novo governo terá de associar a gestão das captações à proteção territorial e à prevenção de conflitos. As propostas de bioeconomia e financiamento climático serão avaliadas pela capacidade de gerar alternativas de renda e reduzir a pressão ambiental do modelo produtivo.