A Lei? Ora, a Lei…

“A empresa ironiza as autoridades como se estivesse acima do bem e do mal, como se o poder falasse mais alto que a dignidade humana e a Lei fosse apenas um instrumento para resguardar seus direitos corporativos acobertar suas arbitrariedades.”

IMG 3075
Gina Moraes é advogada

Gina Moraes de Almeida (*) 

Estamos diante do caos jurídico, além do social e sanitário. Salve-se quem puder! Entre tantos exemplos desta anomalia legalizada, ou anarquizada “naturalmente”, um dos mais gritantes é a prestação de serviços da Amazonas Energia, uma empresa que utiliza, mas não respeita, o mesmo Estatuto Social, o mesmo texto e compromisso que descrevia a conduta da Concessionária Amazonas Energia, de onde se originou. No tal Estatuto, existe no art. 50, por exemplo, a descrição do Conselho do Consumidor, que ninguém da empresa sabe dizer o que é. As reclamações têm algo em comum: um desrespeito contumaz ao cidadão, de quem depende para auferir os desejados lucros e a quem deveria respeitar, pois ele é o maior valor civilizatório da vida social. 

Modo truculento

A empresa, que agora se define como prestadora de serviços públicos, em sua apresentação institucional, decididamente, não presta serviços de qualidade. Além de não respeitar o consumidor muito menos a Justiça que o ampara. Para a empresa, representada por seus funcionários, supostamente treinados para o exercício dos tais serviços públicos, sobretudo no conhecimento e respeito à Lei e a seus executores, a Justiça. Vamos aos fatos: Um consumidor – cuja identidade aqui deve ser preservada – nesta quarta-feira, dia 27 de maio –  foi surpreendido, logo após o almoço, em sua residência, por uma equipe da Amazonas Energia, informando que ali estava para cortar o fornecimento de energia elétrica. De forma intolerante e grosseira, sequer os funcionários se dispuseram a tomar conhecimento da decisão judicial – que lhes foi insistentemente mostrada – tutelando o direito de ter seu medidor de energia em funcionamento. Seus modos se enquadram na categoria truculentos, tal o nível de destratos e maus trato em relação ao cidadão e consumidor.

Ordem judicial no lixo 

Insistentemente adulados, se se recusaram a tomar conhecimento de que ali havia uma ordem judicial, nos autos n. 0651276-35.2020.8.04.0001, em trâmite na 9ª. Vara Cível da Comarca de Manaus/AM. Em seu teor a ordem do juiz ampara o direito do consumidor de ter sua energia elétrica, um direito elementar do cidadão. Ora, tem ordem? Não interessa a ordem de um juiz. Essa é a tradução do fato. No final, depois de, enfim, receber o papel e jogá-lo no lixo, o serviço foi desligado, num ato indigno e covarde, pois em plena pandemia do COVID-19, em que as pessoas precisam de isolamento doméstico, ficar em casa sem energia elétrica em Manaus é a experiência do Inferno. 

Acima do bem e do mal 

Este fato não é isolado. A Amazonas Energia foi privatizada um ano atrás. Os relatos de abusos, de truculência e desacato à autoridade civil, Passaram a crescer em número e gravidade. A empresa ironiza as autoridades como se estivesse acima do bem e do mal, como se o poder falasse mais alto que a dignidade humana e a Lei fosse apenas um instrumento para resguardar seus direitos corporativos acobertar suas arbitrariedades.
O episódio com este teor de imoralidade civil, sem tirar nem por, é simplesmente a manifestação de materialização da barbárie.

Este é o retrato de um país sem Lei, onde um presidente da República não pode invocar o direito da privacidade de seu exame de saúde mas tem que se curvar à proibição de saber quem foi responsável pela facada que, por pouco, não lhe retira a vida. Ou nos juntamos todos, nós cidadãs e cidadãos, vítimas desta excrescência social ou pereceremos todos diante do vale-tudo e dos caos que nos ameaçam. 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

Os saguis que nasceram para ajudar a salvar uma espécie da Mata Atlântica

Espécie de sagui ameaçada de extinção tem dois filhotes no RS. Nascimento integra programa de conservação do sagui-da-serra-escuro.

O consumidor se preocupa, muda de hábito e ainda erra qual produto polui menos – Coluna Negócios Sustentáveis

Uma pesquisa da Bain em cinco países mostra que 90% dos brasileiros se dizem preocupados com o ambiente. Com dois selos amazônicos em construção, o desafio de quem vende a origem da floresta deixa de ser convencer e passa a ser explicar.

Novo mandato de Lula terá Congresso mais hostil à agenda ambiental

Novo mandato de Lula deve enfrentar maior resistência no Congresso para avançar em políticas ambientais e proteger Terras Indígenas.

Conheça o peixe da Amazônia que cria um campo elétrico para “ver” em águas profundas 

Conheça o peixe elétrico da Amazônia descrito no rio Tefé, que usa sinais elétricos para perceber o ambiente em águas profundas e turvas.

Pesquisadores descobrem as rotas de tráficos de animais na Amazônia

Pesquisa sobre o tráfico de animais na Amazônia identifica 137 espécies comercializadas ilegalmente e revela rotas usadas pelos traficantes.