Estudo sobre o tráfico de animais na Amazônia mostra como espécies brasileiras chegam a países vizinhos e seguem para mercados internacionais.
Uma pesquisa sobre o tráfico de animais na Amazônia identificou 137 espécies comercializadas ilegalmente. Aves, mamíferos, répteis e peixes são capturados para diferentes finalidades, que vão da criação como animais de estimação ao consumo e ao uso medicinal ou religioso.
Publicado na revista Human Ecology, o estudo reuniu informações de 34 artigos científicos para traçar um panorama das espécies visadas, das motivações do comércio e das rotas utilizadas. A análise busca preencher uma lacuna de dados sobre a atividade na região, onde os registros de apreensões estão dispersos entre órgãos municipais, estaduais e federais.
Do total de espécies identificadas, 36,4% eram aves, seguidas por mamíferos (28,4%), répteis (18,9%) e peixes (15,3%). A pesquisadora Marta Custódio Lopes, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), afirmou à Mongabay que a diversidade de aves comercializadas na Amazônia acompanha uma tendência nacional.
Na região, porém, o comércio não atende apenas à demanda por animais de estimação. Espécies de médio e grande porte também são procuradas para alimentação. O consumo é um dos fatores associados também à captura de tartarugas e à venda de seus ovos, tanto no Brasil quanto em países vizinhos.
Fronteiras e mercado internacional
Entre os animais procurados pelo comércio internacional está o cascudo-zebra (Hypancistrus zebra), peixe ornamental criticamente ameaçado de extinção e encontrado em um trecho do rio Xingu, no Pará. Segundo Antônio de Carvalho, especialista em inteligência de conservação da WCS Brasil, o animal é levado pelo Amazonas até a fronteira com a Colômbia. De lá, pode ser comercializado para países como Estados Unidos e Alemanha. O peixe também foi encontrado à venda em um mercado de Bangcoc, na Tailândia. Carvalho relatou à Mongabay que ribeirinhos recebem cerca de R$ 1 por exemplar, enquanto o preço pode chegar a R$ 300 nos Estados Unidos.
A região de fronteira entre Tabatinga, no Amazonas, e Leticia, na Colômbia, é apontada como ponto de passagem para animais silvestres em um relatório publicado em 2020 pela organização Traffic. Segundo o documento, quelônios de água doce e peixes destinados ao consumo circulam pela área em grandes quantidades.
Outras rotas do tráfico de animais na Amazônia passam pela Guiana e pelo Suriname. Diferentemente do Brasil, os dois países autorizam a captura e a comercialização de determinadas quantidades de animais silvestres. Especialistas ouvidos pela Mongabay afirmam que espécies retiradas ilegalmente do território brasileiro podem ter sua origem ocultada nesses países antes de seguir para outros mercados.
Lacunas nos registros
A dimensão do tráfico de animais na Amazônia é difícil de estimar. Além da extensão do território e das dificuldades de fiscalização nas fronteiras, nem todas as apreensões entram nas estatísticas. Segundo Carvalho, há casos em que os animais são soltos no local e a ocorrência não é registrada institucionalmente.
A própria pesquisa tem limites: como reúne apenas artigos científicos revisados por pares, o levantamento depende dos locais já estudados. Lopes explicou à Mongabay que há áreas sem trabalhos disponíveis, sobretudo em regiões distantes das capitais e dos principais rios.
Para ampliar as informações sobre o crime, a WCS Brasil desenvolve um observatório global que pretende utilizar inteligência artificial para reunir dados publicados em notícias e pesquisas acadêmicas. A proposta é apoiar investigações e o trabalho de agentes ambientais e jornalistas.
A consultora em biodiversidade Sandra Charity também chamou atenção para a ligação do tráfico de animais na Amazônia com outras atividades ilegais. Segundo ela, o comércio de fauna está cada vez mais associado a crimes como o desmatamento ilegal e à atuação de facções criminosas.