A Zona Franca de Manaus e o seu momento de Ucrânia

Quando líderes de instituições, ditas “respeitáveis”, começam a destruir as regras de suas próprias instituições, quando deveriam representar o interesse real dos representados, devemos acordar.

Por Augusto César Rocha
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Será que há como nós todos nos relacionarmos com civilidade? A “operação militar especial” ou a “guerra” da Ucrânia apresenta esta questão para o mundo. Como será a nossa reação como sociedade: vamos desistir da soberania e aderir ao destruidor? Aceitaremos as marionetes locais, empoderados como “líderes”, que aderem a qualquer destruidor, para dizer o que é melhor para nós?

Períodos eleitorais demandam muito cuidado, pois apenas afirmar sorrindo que “é meu amigo” ou fazer “juras” não significará que é apoio real ao nosso interesse e necessidade. Não significará que é apoio para Manaus ou para a sua Zona Franca (ZFM). Dizer-se conservador ultimamente, é afirmar-se como destruidor. A retirada de impostos do Brasil, levará a menor arrecadação para todas as instituições públicas e menor vantagem comparativa para Manaus. Nós não temos muito tempo. Precisamos agir agora.

É muito fácil falar mal de tudo e de todos. Também é muito fácil destruir coisas. É só ficar falando mal, até destruir. E como resistir a isso? O “mal falado” deve fazer o que para se defender? Estamos passando por um processo de destruição de instituições. De destruição da ZFM. Destrói-se, sorrindo e ainda afirmando-se que é para o nosso bem. Os mais jovens não lembrarão, mas um dia houve comércio forte em Manaus. A Crise dos Sudetos talvez seja o grande motivo da OTAN apoiar a Ucrânia. A crise política na questão do IPI é a razão para entender a importância do momento.

É a mesma lógica contra a política, contra negros, contra os acordos, contra a esquerda, contra a saúde pública, contra a educação básica, contra a vacina, contra a universidade pública, contra o Exu da Grande Rio, contra isso, contra aquilo. É só ser “contra” e ir destruindo. E como nos defendemos? E como seguimos a aceitar? Há gente que gosta de sofrer e há pessoas que chamam isso de “certo” e ainda de “liberdade”. A “liberdade” de destruir ou agredir o outro. É só abrir o Twitter e analisar os diálogos. Neste modelo político, um “líder” é o único certo e todos os demais “errados”.

Este movimento político surge quando alguém que “deveria ser de baixo”, de uma classe inferior, é percebido “ousando ocupar o espaço” de uma classe que se percebe como “superior”. Será que a industrialização de Manaus é percebida como uma invasão de um espaço que “não nos cabe”? Este movimento tem um nome e talvez seja ele o problema: temos obtido algum mínimo desenvolvimento e há líderes que entendem que não merecemos, pois não somos desta categoria.

Quando líderes de instituições, ditas “respeitáveis”, começam a destruir as regras de suas próprias instituições, quando deveriam representar o interesse real dos representados, devemos acordar. Como pessoas que “destroem” podem se autointitular “conservadores”? Os “destruidores” são aqueles que destroem e os conservadores aqueles que conservam. Palavras estão sendo desvirtuadas, para iludir inocentes, junto com sorrisos falsos. 

A ZFM está no alvo de destruidores de sistemas que se autointitulam “conservadores”. Ainda haverá espaço para a civilidade? “Não podemos todos nos dar bem?”, como disse Rodney King, após ser espancado injustamente. Os espancados precisam falar. E o movimento político que não aceita ascensão possui um nome, mas eu deixo a busca para o leitor, com a verificação de suas características adicionais e a sua própria busca de paralelos com o nosso momento.

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Augusto Rocha é Professor da Universidade Federal do Amazonas

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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