Zona Franca de Manaus: seremos importantes no futuro?

“A construção de um senso de urgência levará a esta saída. A sustentabilidade verdadeira precisa ser encontrada, com o uso dos recursos da região, por meio de grande transparência e com o enfrentamento dos gargalos. Precisamos nos modernizar, para começarmos a ser ouvidos – daí surgirão as perspectivas para soluções potenciais. Fora disso, é só mais ruido, mais força bruta e, consequentemente, mais destruição.”

Augusto Cesar Barreto Rocha
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Há um ruido de comunicação entre Manaus e o restante do Brasil ou uma tendência de ataque versus uma polarização de defesa em relação ao que se passa na ZFM? Ruido ou distorção (noise/bias) estão no núcleo da discussão da interseção entre economia e psicologia no último livro de Daniel Kahneman e seus coautores, lançado dois meses atrás. Esta problemática nos afeta com contundência, na difícil formulação do que é (ou seria) o problema de Manaus e região. Por um lado, há uma busca pelo fim dos incentivos fiscais da ZFM, o que implica que há um clamor para pagarmos mais impostos e, por outro, há um empresariado ávido por vantagens para produzir aqui – entender o que é tendencioso, o que é ruido, o que é necessário e o que é simplesmente mentira é muito difícil.

Alguns dos articulistas e pensadores locais têm escrito sobre isto, como o Alfredo Lopes, Antonio Botelho ou o Juarez Baldoino da Costa, cada qual por um caminho. Em todos leio a mesma inquietação (digo de passagem que é a minha leitura – nem sei se eles pensam isso ou nisso!): até onde temos um problema ambiental e a partir de onde começa um problema social ou econômico? Cabe ou não cabe a indústria da forma que está posta? O pano de fundo que permeia nossas discussões encontra alguns consensos. Dentre eles, parece-me, que precisamos parar de não fazer nada ou de atender apenas aos interesses de grandes grupos visíveis ou invisíveis, mas tipicamente alheios ao ecossistema. Este inconformismo norteia tanto quem está aqui, quanto quem está fora daqui.

De minha parte, para pôr mais tempero na discussão, o que mais me inquieta é que se 100 mil empregos não são importantes, o que seria? Se a maior floresta tropical do mundo não é importante, o que seria? Ora, claro que ambos são importantes e não deveria ser necessário afirmar e reafirmar tanto isso. Volta-se ao ruído e à distorção. Onde está o ruido e onde está o interesse? Não há dúvidas que ambos são importantes, mas como não há tanto capital genuinamente local (verdadeiras Amazonidades, como levantado pelo Botelho), como há uma riqueza potencial (como tão bem demonstrado pelo Alfredo), por qual razão há tanto “nhém-nhém-nhém” (como levantou o Juarez em seu último texto)?

Já passou da hora de nos unirmos para prescrever e realizar um presente-futuro próspero. Para que um dia possamos prescindir de incentivos fiscais. Como chegar ao dia no qual nosso meio-ambiente e biodiversidade sejam usados com sustentabilidade? Está na hora de construir este projeto. Há alguma rota de transição para isso? Esta saída precisa ser construída. A construção de um senso de urgência levará a esta saída. A sustentabilidade verdadeira precisa ser encontrada, com o uso dos recursos da região, por meio de grande transparência e com o enfrentamento dos gargalos. Precisamos nos modernizar, para começarmos a ser ouvidos – daí surgirão as perspectivas para soluções potenciais. Fora disso, é só mais ruido, mais força bruta e, consequentemente, mais destruição.

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Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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