ZFM: lições e reflexões dos buracos 

Na última sexta-feira, uma comitiva de seis deputados foi ver a situação das ruas do Polo Industrial de Manaus, demonstrando uma aproximação oportuna e vital entre o setor produtivo e a representação parlamentar do Estado. A sessão cívica promovida pelo deputado Dermilson Chagas, na busca de saídas criativas e eficazes para conhecer e sair do buraco, no limite, de todos os buracos em que estamos metidos. O modelo ZFM encolhe, a arrecadação caiu assustadoramente e é urgente promover o enfrentamento da crise instalada no Brasil e, fortemente, no modelo ZFM. Os buracos das ruas também ocorre na autarquia, a Suframa, a Superintendência do modelo, esvaziada pelo mesmo amontoado de equívocos que levou o Brasil à lona. Trata-se de um organismo responsável por um faturamento que alcançou R$ 85 bilhões em 2014, e que está há um ano sem gestor titular, e sem perspectiva de solução nesta contradança da agonia política. O ministro Armando Monteiro, alguém que poderia ajudar a utilizar a racionalidade empresarial no embaraço político generalizado, dizem, está de malas prontas.

Ali, no Distrito, uma planta industrial que repassa à União mais da metade da riqueza que produz, crateras lunares, que já provocaram a morte de dois usuários, traduzem o paradoxo – ou o desprezo – com que tratam o modelo ZFM. E aqui cabem duas perguntas para conotar o sentido desta aproximação entre os deputados e as entidades da indústria: O que é fazer Política num momento de extrema insegurança e dificuldadeS para o cidadão? E qual a importância ou necessidade da ação no contexto socioeconômico brasileiro hoje? Com as dificuldades inerentes a um país que retomou a Democracia há apenas três décadas, situar o papel da Política a vigência do Estado de Direto é a mais perfeita tradução do papel histórico, etimológico e atual da Política, como instrumento de consolidação da ordem e equilíbrio social. A hora, pois, é da classe política provar que é capaz de fazer a boa política.

Sem oportunismo, nem revanchismo, o momento sugere abandonar as armas do confronto estéril para por em pratica o espírito público da Democracia: o governo das pessoas em sociedade, um conjunto de normas e recomendações éticas para nortear o ordenamento da vida social, na polis, o lugar das relações entre os cidadãos, seus direitos e interesses. Os buracos deixaram de ser reparados, com parte dos recursos da Suframa que as empresas recolhem para fazer a Suframa funcionar, porque faltou interesse coletivo em sua solução. Por isso, promover o reconhecimento do papel das empresas e brigar para que as taxas, as verbas de P&D, os deixem de ser confiscadas, e que os Fundos estaduais sejam auditados, é o começo do debate coletivo para encontrar saídas neste labirinto de dificuldades, um desafio que precisa ser explicitado e encarado conjuntamente.

Foram R$ 50 bilhões de confisco na última década e ninguém fez nada, além das reclamações tímidas e isoladas de praxe. A Universidade do Estado do Amazonas, financiada integralmente pela própria indústria, precisa debater, acompanhar e aplaudir os acertos e questionar as omissões nas aplicações, tanto dos recursos recolhidos para a instituição à luz dos resultados auferidos pelos jovens que ali encontram oportunidade, como para os demais recursos que aqui são produzidos e aqui não aplicados. Este exercício de cidadania, para o qual as demais entidades e instituições precisam ser mobilizadas, são passos largos para consolidar a inserção deste conceito sadio de política no dia a dia de uma crise que esconde lições e oportunidades. Academia, economia e classe política, portanto, e especialmente neste momento, em que talentos e energia precisam estar juntos, vão fazer certamente toda a diferença. Caso contrário, estaremos perdidos num escuro e perverso  buraco.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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