Editorial-BAA
A sessão da Comissão de Meio Ambiente do Senado nesta semana transformou-se em um triste retrato da brutalidade política que insiste em sobreviver no subterrâneo das instituições brasileiras. O episódio, protagonizado por senadores que parecem desconhecer o que seja decoro, respeito e civilidade, teve como alvo a ministra Marina Silva — mulher, negra, amazônida de origem humilde e, sobretudo, autoridade ambiental de prestígio internacional.
Uma das falas mais abjetas partiu de um parlamentar que, tempos atrás, declarou em plenário que seria “quase impossível passar seis horas com Marina sem enforcá-la”. E que agora, diante da própria ministra, reafirmou sua hostilidade com requintes de misoginia: “Vou separar a mulher da ministra. A mulher merece respeito, a ministra não.”
Esse tipo de conduta — violenta, ofensiva e autoritária — não é apenas um ataque pessoal. É um atentado simbólico contra a democracia e contra a república. Porque Marina Silva não estava ali como mulher — embora seja, com orgulho, uma mulher que honra sua história. Estava ali como ministra de Estado, convidada para debater temas centrais para o presente e o futuro do país: o novo marco do licenciamento ambiental, a exploração de petróleo na Margem Equatorial da Foz do Amazonas, e o abandono histórico da BR-319, que há quatro décadas não recebe a devida manutenção técnica e se tornou rota da destruição predatória.
Marina Silva é Prêmio, Não Alvo
Marina Silva representa o Brasil que pensa, propõe, dialoga, escuta. O Brasil que compreende que o desenvolvimento da Amazônia exige inteligência, ciência e compromisso ético — e não a motosserra como estratégia de crescimento. É justamente por sua coerência, coragem e prestígio que ela incomoda.
Seus agressores não estão interessados em diálogo, tampouco em soluções. Representam o atraso: enxergam a floresta como almoxarifado de riquezas a serem saqueadas, e o restante, descartado. Condenam a bioeconomia porque ela não cabe em seus projetos de poder baseados na devastação. Querem um Brasil Roçadão.
Marina é respeitada por lideranças do mundo inteiro, mas insultada dentro de sua própria casa legislativa. A razão é simples: ela não se curva. E como mulher, negra e amazônida, sua presença incomoda quem ainda acredita que o poder deve estar reservado aos mesmos de sempre.
A Violência de Gênero como Ferramenta de Silenciamento
O que se viu no Senado foi mais do que falta de educação ou divergência política. Foi violência de gênero. Foi tentativa de silenciamento. Foi uma afronta que não pode ser normalizada.
Ao exigir um pedido de desculpas antes de continuar no debate, a ministra apenas reivindicou o mínimo: respeito institucional. Não foi atendida. Retirou-se. Mas sua ausência naquele momento foi, paradoxalmente, sua maior presença.
Nossa Resposta: Aliança com a Floresta, com as Mulheres, com o Futuro
Este editorial é um chamado à lucidez. O Brasil não pode aceitar que o debate sobre o futuro da Amazônia seja sequestrado por vozes que destilam ódio e preconceito.
O portal Brasil Amazônia Agora se alinha à ministra Marina Silva e a todas as mulheres que lutam por um país justo, sustentável e plural. Reafirmamos nosso compromisso com o modelo de desenvolvimento que parte da floresta em pé, com a ciência, com os direitos humanos e com a democracia ambiental.
O lugar de Marina é onde estiver o bem comum. O lugar dos que a atacam é o tribunal da história — que jamais perdoa os que se colocaram ao lado da destruição.