Todo mundo quer mandar na Amazônia

Não existe vácuo de liderança. A ausência dos líderes regionais abre espaço para lideranças de todos os lugares se colocarem como os protagonistas da prescrição do futuro. Até quando os líderes regionais aceitarão a definição de regras e políticas a partir de um comando externo?

Augusto César Barreto Rocha
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Tenho ficado tocado quando vejo todos preocupados com a Amazônia. Em julho, Itaú, Bradesco e Santander apresentaram planos para o Governo sobre conservação da região. Em 26/08 criaram o Conselho Consultivo Amazônia. Existe uma onda de preocupação conosco. Todo Mundo quer mandar aqui e prescrever o que pode e o que não pode fazer. Justamente na região onde faz séculos dizem existir muitas oportunidades, no nosso, eterno, país do futuro e sem presente, que Ninguém de fato ajuda.

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Augusto César Barreto Rocha é professor da UFAM

​Em 26/08 foi anunciada uma Aliança com 100 líderes para “salvar” a Amazônia. Empresas de todo o tipo também têm buscado este protagonismo e não faltam motivos para tal, tanto de quem já está por aqui, como de quem não está por aqui. A Todo Mundo interessa uma lasquinha da questão, tanto tocando fogo, quanto apagando o fogo.

​Na ausência da liderança formal, surge a informal. Por quais razões os líderes formais da região não se expõem e assumem este protagonismo e liderança? No meio político e institucional: onde estão os políticos – governadores, senadores e deputados federais da região? No campo empresarial, onde estão as entidades de classe? No campo acadêmico, onde estão as Universidades e Institutos de Pesquisa? No campo social, onde estão as ONGs com sede na região? Por quais razões a mídia nacional e internacional não dá espaço para estas vozes? É mais frequente ver declarações de tribos pela imprensa estrangeira do que pela imprensa local. Somos os Ninguém em relação ao tema.

​Não existe vácuo de liderança. A ausência dos líderes regionais abre espaço para lideranças de todos os lugares se colocarem como os protagonistas da prescrição do futuro. Até quando os líderes regionais aceitarão a definição de regras e políticas a partir de um comando externo? Esta agenda para a região é historicamente definida e dificilmente executada tal qual o planejado. Desde Orellana, em 1542, até o presente, é só o que se vê.

​Os interesses com a região podem ser nobres, positivos ou travestidos de positivos. Como saber? De maneira geral as pessoas se agrupam por interesses, sejam maiores ou menores. Tenho facilidade de compreender uma liderança formal da região com interesse na região. Por outro lado, quando vejo entidades aparentemente desvinculadas da região, com algum interesse aqui, normalmente começo a me perguntar: por qual razão? De onde vem o financiamento? O mundo é movido por interesses financeiros.

​Não há espaço vazio sem comando. Algum comando já há e estes grupos de fora não parecem incomodar os locais. Nem para aproximar, aceitando a legitimidade, nem para invalidar sua capacidade de debater a região. Tudo isso me lembra algo de 1532, de dez anos antes do Orellana, como parte de uma peça maior, chamada Auto da Lusitânia, obra de Gil Vicente, onde “Todo Mundo e Ninguém” conversavam. Na peça, a cobiça de Todo Mundo é demonstrada. Será que somos alguém, ou continuaremos como os Ninguém, para Todo Mundo, que diz querer salvar a Amazônia?

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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