O governo Bolsonaro ameaçou a competitividade da Zona Franca, enquanto sua gestão da pandemia deixou em Manaus um histórico de omissões e pressão pelo tratamento precoce. A força eleitoral que conservou na capital exige examinar como a devoção ao líder atravessa a experiência de seus próprios governos.
Coluna Follow-Up
Em outubro de 2022, Jair Bolsonaro recebeu 61,28% dos votos válidos no segundo turno em Manaus. Naquele mesmo ano, seu governo havia obrigado o Amazonas a recorrer ao Supremo Tribunal Federal para proteger a competitividade da Zona Franca. A cidade que concentrava as fábricas ameaçadas pelos decretos presidenciais entregou ao presidente uma vitória expressiva. No conjunto do estado, Lula venceu com 51,10%. A distinção importa porque situa a contradição precisamente onde a dependência da economia industrial é mais imediata.
É nesse desencontro entre experiência e lealdade que cabe a expressão “síndrome de Estocolmo na versão tropical”, empregada aqui como metáfora política. Ela descreve a disposição de preservar a imagem do protetor mesmo quando seus atos atingem as condições de vida de quem o apoia. Compreender essa relação exige observar também os intermediários que a sustentam, as explicações oferecidas a cada crise e os interesses que encontram abrigo na popularidade do líder.
A Zona Franca de Manaus não aparece nominalmente nas 81 páginas do programa de governo de Bolsonaro de 2018, o Projeto Fênix. Também não consta nominalmente nas 48 páginas das diretrizes apresentadas em 2022. Em duas campanhas presidenciais consecutivas, o principal programa de desenvolvimento regional do Amazonas ficou sem um compromisso específico nos documentos centrais de propostas.
Essa ausência, isoladamente, permite discutir prioridades. Confrontada com os atos do governo, ganha outra dimensão. Nos palanques, Bolsonaro assegurava a preservação do modelo. Em Brasília, sua equipe econômica adotava medidas que reduziam o diferencial tributário responsável por tornar viável a produção industrial a milhares de quilômetros dos maiores mercados consumidores.
Paulo Guedes expôs esse raciocínio ainda em 2019. Ao comentar a proteção constitucional da Zona Franca, aventou a hipótese de todos os impostos caírem a zero. A provocação era transparente: seria possível conservar formalmente o modelo enquanto se eliminava sua vantagem relativa. A Constituição continuaria contendo o nome da Zona Franca; as empresas teriam razões cada vez menores para permanecer nela.
Uma política de desenvolvimento pode ser esvaziada sem que sua existência jurídica seja revogada. Basta retirar as condições que permitem cumprir sua finalidade. Para o Amazonas, discutir esse mecanismo significa discutir empregos, fornecedores, arrecadação e a capacidade de manter atividade econômica numa região cujos custos logísticos são conhecidos por qualquer governo.
A partir de fevereiro de 2022, os cortes do IPI transformaram essa ameaça em conflito concreto. A redução inicial de 25% foi seguida por novos atos, incluindo a ampliação para 35% e a alíquota zero dos concentrados de refrigerantes. A sequência atingia componentes relevantes da competitividade regional e levou à mobilização política, empresarial e judicial em defesa do modelo. Em maio, Alexandre de Moraes suspendeu os efeitos dos decretos nos pontos que alcançavam produtos concorrentes dos fabricados na Zona Franca.
O alcance desses atos precisa ser descrito com precisão. Eles corroíam o diferencial tributário de setores industriais e ameaçavam a eficácia da proteção constitucional. O próprio STF registrou, ao examinar outro decreto em agosto, o potencial de esvaziamento do estímulo à permanência e à instalação de empresas na região. Esse era o risco colocado sobre a mesa, com consequências que ultrapassavam amplamente os departamentos fiscais das fábricas.
Depois de meses de disputa, o Decreto 11.182, de agosto de 2022, restabeleceu alíquotas para mais 109 produtos. Em setembro, ao revogar a liminar, Moraes considerou que as alterações preservavam a competitividade de mercadorias correspondentes a mais de 97% do faturamento local. A correção veio depois da pressão regional e das intervenções judiciais.
Ainda assim, em outubro, Bolsonaro voltou a afirmar que a Zona Franca seria preservada, acrescentando que assim ocorrera durante seu governo. A declaração oferecia uma versão conveniente dos acontecimentos, na qual desapareciam os decretos, as ações judiciais e os meses de insegurança. O recuo passava a figurar como demonstração de compromisso.
Há uma responsabilidade particular das lideranças que acompanharam esse processo. Quem conhece a dependência econômica do Amazonas tem condições de distinguir uma garantia espontânea de uma correção obtida sob pressão. Quando essa diferença se dissolve no discurso eleitoral, o público recebe uma história mutilada justamente por quem dispõe dos elementos para contá-la por inteiro.
A pandemia acrescenta a essa relação uma dimensão humana que permanece aberta. Em janeiro de 2021, Manaus viveu o colapso do abastecimento de oxigênio. O Ministério da Saúde teve conhecimento do problema antes do desabastecimento que marcou o dia 14. Registros apresentados ao Senado contradisseram a versão de que o governo federal teria sido surpreendido sem aviso.
Na ação ajuizada em 2021, o Ministério Público Federal apontou omissões de autoridades federais e estaduais, demora na transferência de pacientes e pressão de integrantes do Ministério da Saúde pela utilização do chamado tratamento precoce. Segundo o órgão, Pazuello e auxiliares promoveram essa pressão nas unidades básicas de saúde de Manaus em meio à grave crise sanitária.
O quadro permite cobrar a responsabilidade política do governo Bolsonaro pela atuação de seu Ministério da Saúde, ao lado das responsabilidades estaduais e municipais. A promoção da cloroquina integrava a resposta oferecida à população enquanto providências essenciais de planejamento, abastecimento e transferência de pacientes falhavam.
Cinco anos depois, em janeiro de 2026, o MPF apresentou novos dados de relatórios da Abin sobre o conhecimento antecipado da crise e reiterou sua tese de omissão da União, do estado e do município. Informou também que ainda faltavam dados suficientes para identificar adequadamente todos os atingidos. Para as famílias, a disputa pela memória e pela reparação continua.
Como interpretar, então, a permanência de uma adesão tão forte na capital? O resultado eleitoral, por si só, não revela as motivações individuais de centenas de milhares de pessoas. Mas permite formular uma hipótese política: a identificação com o líder adquiriu peso suficiente para absorver acontecimentos que, em outras circunstâncias, poderiam romper a confiança.
Nessa dinâmica, cada episódio pode receber uma explicação que preserva a figura central. O desgaste fica com o ministro, a burocracia, o governador, os tribunais ou os adversários. A promessa de proteção permanece vinculada ao presidente, enquanto os danos de seu governo são distribuídos entre terceiros. Aos poucos, cobrar coerência passa a ser entendido como tomar partido contra o grupo.
O apelido “mito” ajuda a compreender essa transformação. Um governante sujeito à avaliação de seus atos vai sendo colocado numa posição em que a fidelidade à pessoa precede o julgamento de suas decisões. A relação partidária incorpora uma exigência de devoção, e a crítica vinda de quem depende da indústria ou perdeu familiares na pandemia pode ser recebida como hostilidade ao líder.
A expressão “síndrome de Estocolmo na versão tropical” procura alcançar esse ponto, sobretudo quando dirigida às elites políticas que conheciam os riscos, participaram das negociações e depois ajudaram a apagar o conflito. Há escolhas conscientes nessa construção. Há mandatos, alianças e posições de poder beneficiados pela conservação do mito.
Para o Amazonas, o custo dessa acomodação é elevado. A defesa da Zona Franca exige capacidade de cobrar qualquer presidente, inclusive aquele em quem se votou. A memória da crise sanitária exige acesso aos registros, reconhecimento das falhas e reparação às famílias. Quando essas cobranças ficam subordinadas à conveniência de uma liderança nacional, o estado perde força para defender seus próprios interesses.
O eleitor conserva o direito de apoiar quem quiser e de atribuir pesos diferentes aos acontecimentos. As lideranças que falam em seu nome, porém, devem explicações sobre o que fizeram quando o emprego foi ameaçado e quando faltou oxigênio. A lealdade política precisa admitir esse acerto de contas com a experiência. Em Manaus, ele envolve tanto as condições de trabalho de quem vive da indústria quanto a memória de quem morreu à espera de atendimento.
A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, portal brasilamazoniaagora.com.br