Pesquisa em comunidades do Pará revela que o selênio presente em peixes pode neutralizar os efeitos tóxicos do mercúrio, metal liberado por garimpos em rios da Amazônia.
Pesquisadores brasileiros e franceses identificaram que o selênio, mineral presente em peixes e castanhas, pode ter um papel fundamental na proteção de comunidades ribeirinhas expostas à contaminação por mercúrio na Amazônia. O estudo analisou 1.089 adultos de 13 comunidades localizadas nas bacias dos rios Tapajós e Amazonas, no Pará, onde o consumo de peixe é alto e o risco de exposição ao metal tóxico é elevado devido à atividade de garimpo ilegal.
Publicado na revista Chemosphere, o estudo investigou níveis de mercúrio e selênio em sangue, plasma e urina. Segundo os autores, essa abordagem inédita permitiu compreender melhor a dinâmica de absorção, distribuição e excreção desses elementos no organismo. Embora o mercúrio, especialmente sua forma orgânica presente nos peixes, seja um potente neurotóxico, os altos níveis de selênio observados nessas populações parecem neutralizar parte de seus efeitos.
Outra pesquisa complementar, conduzida com o uso de técnicas de metabolômica, mostrou que indivíduos com maior concentração de selênio apresentavam perfis metabólicos semelhantes aos de pessoas menos expostas. Os cientistas sugerem que essa proteção se deve à formação de complexos mercúrio-selênio e à atuação das selenoproteínas, que desempenham funções antioxidantes no corpo humano.
Apesar dos níveis elevados de selênio, não foram detectados sintomas de selenose, intoxicação pelo composto, o que reforça a hipótese de que o mineral está sendo metabolizado de forma segura. Segundo pesquisadores, os resultados embasam a necessidade de políticas públicas que aliem o monitoramento ambiental com orientações alimentares e estratégias de comunicação de risco.
Após o estudo, os pesquisadores realizaram ações educativas com as comunidades para esclarecer os riscos do mercúrio e a importância da alimentação na mitigação dos efeitos tóxicos, reforçando a urgência de medidas preventivas diante da crescente pressão da mineração na região.