Um diálogo necessário sobre federalismo cooperativo, Zona Franca de Manaus e Amazônia

Coluna Follow-Up

Carta Aberta ao Professor Eurico Marcos Diniz de Santi

Professor Eurico Santi,

Apreciamos com atenção e respeito seu artigo sobre a Zona Franca de Manaus (ZFM) versus toda a região amazônica competição e federalismo cooperativo . O debate público agradece a clareza dos seus argumentos, a densidade jurídica e a coerência conceitual que marcam sua trajetória intelectual e sua contribuição efetiva ao desenho institucional da Emenda Constitucional n.º 132/23.

Antes de qualquer divergência — e elas virão — é justo reconhecer seu papel. O senhor ajudou a estruturar parte das bases técnicas que permitiram preservar a ZFM na reforma, sustentando o diferencial competitivo como exceção constitucional legítima. Sua visita a Manaus, mesmo breve, demonstrou disposição para dialogar e compreender uma realidade que costuma ser interpretada à distância. Esse mérito precisa ser destacado com sinceridade.

Dito isso, passemos ao diálogo necessário.

O Direito não existe fora do território — e o território amazônico não cabe no IVA

O senhor afirma que, com a reforma, “adentramos o reino do Direito, onde impera a dogmática jurídica”.

Com o devido respeito, professor, para a Amazônia esse reino é insuficiente.

A neutralidade plena, a base ampla e a não cumulatividade são pilares relevantes para um IVA moderno. Mas nenhum desses elementos dissolve 400 anos de desigualdade territorial, vulnerabilidade logística, assimetrias infraestruturais e desafios únicos de uma região continental onde política fiscal é, antes de tudo, política de Estado e de soberania nacional.

A Amazônia não pode ser tratada como um “caso tributário”. Ela é um desafio inadiável e civilizatório. “Decifra-me ou serei devorada.”

O federalismo cooperativo não significa simetria entre desiguais

O senhor defende que a reforma introduz um “verdadeiro federalismo cooperativo”, baseado em harmonização, compartilhamento e equilíbrio.

Mas equidade não nasce de harmonia abstrata — nasce do reconhecimento dos abismos reais e de desigualdades clamorosas.

O Amazonas não disputa investimentos com Minas, Paraná ou São Paulo.

Ele disputa com o Vietnã, a Malásia, a Indonésia e a China.

E disputa carregando o peso logístico e geográfico de uma região que permanece, por omissão histórica, desconectada das condições mínimas de competitividade estrutural.

Exigir neutralidade fiscal em um país profundamente assimétrico é o mesmo que exigir igualdade de chegada para quem nunca teve igualdade de largada.

A lógica jurídica do IVA não substitui a lógica geopolítica da Amazônia

O senhor afirma que regimes especiais são incompatíveis com o IBS e a CBS.

De fato: são incompatíveis com o ideal técnico do IVA.

Mas são absolutamente compatíveis — e imprescindíveis — com: a política de integração territorial; a proteção da floresta em pé; a segurança nacional em fronteiras vulneráveis; a manutenção de empregos formais em regiões de baixa densidade; a industrialização limpa em área ambientalmente sensível e ameaçada permanente pela informalidade predatória e criminosa.

O IVA é um instrumento. A Amazônia é uma estratégia de país. Quando o instrumento ameaça a estratégia, não é a Amazônia que deve ceder.

O “cercadinho de 11.300 km²” não é o problema — é a solução possível

Seu artigo sustenta que a ZFM gera “conflito interno” na Amazônia, reproduzindo desigualdade dentro da região. Mas esse argumento parte de duas premissas equivocadas que precisam ser esclarecidas:

a) Que cidades da Amazônia competem diretamente entre si

Não competem. Manaus não compete com Belém, Rio Branco ou Macapá. Pelo contrário, Manaus induz 30% do PIB de toda a Região Norte. Compete com Shenzhen, Ho Chi Minh City e Kuala Lumpur, vitrines de competitividade fabril e referências de inovação e logística competente.

b) Que a ZFM foi criada para equalizar a Amazônia

A ZFM é — e sempre foi — uma política de ocupação produtiva, de integração territorial e de soberania, não uma política de distribuição municipal de incentivos.

A narrativa de “conflito interno” entre estados amazônicos serve aos que nunca enfrentaram os custos logísticos de mover uma tonelada entre Tefé e Belém, ou àqueles que confundem proximidade geográfica com igualdade competitiva.

A reforma pode ser moderna — mas a Amazônia já é indispensável

Professor, seu texto se encerra dizendo que “todos estamos juntos para colaborar com o alinhamento e a harmonia da reforma tributária”.

Concordamos. Estamos juntos.

Mas o alinhamento não pode ignorar a transição energética global, a agenda climática, a geopolítica dos recursos naturais, a bioeconomia de floresta em pé e, especialmente, a centralidade da Amazônia na sobrevivência planetária.

A ZFM não é um “ruído” no federalismo cooperativo. É uma cláusula de segurança nacional para o século XXI.

Fica aqui um novo convite

Esta carta não pretende refutar sua obra, nem desconsiderar sua contribuição. Muito pelo contrário. Pretende ampliar o horizonte do debate.

Por isso, convidamos o senhor — publicamente — a uma segunda visita à Amazônia. Não apenas a Manaus, mas ao interior profundo: às cidades isoladas, às comunidades ribeirinhas, às fronteiras vivas onde o Estado brasileiro só existe porque a economia formal existe, aos laboratórios que pesquisam vida, clima e biodiversidade, às cadeias amazônicas que nascem longe das luzes da cidade e perto das necessidades do mundo.

A reforma tributária tem muito a contribuir para o Brasil.

Mas o Brasil tem um compromisso maior com a Amazônia — e esse compromisso antecede qualquer modelo tributário, por mais elegante que seja.

Com estima, firmeza e espírito cooperativo,

Alfredo Lopes – co-fundador do Brasil Amazônia Agora – Portal independente dedicado ao desenvolvimento sustentável, à economia da floresta em pé e à defesa de um Brasil que ainda precisa ser plenamente reconhecido por todos nós.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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