Estudo relaciona a seca na Europa à perda acelerada de umidade dos solos e alerta para impactos sobre incêndios, alimentos, energia e transporte fluvial.
A elevação das temperaturas provocada pela atividade humana agravou a seca na Europa e tornou eventos severos consideravelmente mais prováveis. Segundo uma análise do World Weather Attribution (WWA), o calor extremo, mais do que a redução das chuvas, foi o principal responsável pelo ressecamento excepcional registrado em diferentes regiões do continente.
Países como França e Romênia enfrentam restrições ao uso da água, rios com níveis reduzidos e incêndios florestais após a onda de calor histórica de junho. Embora parte da Europa tenha recebido menos chuva durante a primavera, os pesquisadores concluíram que as altas temperaturas aceleraram a perda de umidade de solos, lagos, rios e plantas.
“Nossos resultados mostram que esta seca não é principalmente uma história de baixas precipitações, mas de uma atmosfera mais quente que provoca maiores déficits de umidade no solo”, declarou Mariam Zachariah, pesquisadora do Imperial College London e coautora do estudo.
Uma atmosfera mais aquecida consegue reter aproximadamente 7% mais vapor de água a cada grau adicional de temperatura. Esse processo aumenta sua capacidade de retirar umidade da superfície, inclusive em áreas onde o volume de chuva sofreu pouca alteração ou pode crescer em determinadas épocas do ano. Desde o período pré-industrial, entre 1850 e 1900, a temperatura média global já subiu cerca de 1,4 °C, principalmente em razão da queima de carvão, petróleo e gás.
Atmosfera mais quente acelera perda de umidade
A Europa é o continente que aquece mais rapidamente no planeta. Em junho de 2026, a região ocidental registrou seu mês mais quente, de acordo com o observatório climático europeu Copernicus. A intensa onda de calor também esteve associada a milhares de mortes. Até regiões que tiveram um inverno relativamente úmido passaram a enfrentar falta de água poucos meses depois.
Conforme Dominik Schumacher, pesquisador do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich) e coautor da análise, o ar mais quente resseca o solo, que, por sua vez, favorece um novo aumento das temperaturas. Esse ciclo ajuda a explicar a intensificação da seca na Europa e também cria condições propícias à propagação de incêndios florestais. Para medir a influência da mudança climática, pesquisadores da Europa, dos Estados Unidos e do Reino Unido analisaram dados meteorológicos e modelos computacionais. O evento recente foi comparado a um cenário hipotético no qual o planeta seria 1,4 °C mais frio.
Os resultados indicam que condições extremas de ressecamento do solo se tornaram cinco vezes mais prováveis na Europa Ocidental e 11 vezes mais prováveis na Europa Oriental. Já os níveis elevados de evaporação observados entre abril e junho no oeste europeu foram considerados 80 vezes mais prováveis no clima atual. Os impactos da seca na Europa ultrapassam a redução da disponibilidade de água e atingem diferentes setores da economia. Para Simon Stiell, secretário-executivo da ONU Clima, o agravamento das secas é “um sinal de alerta impossível de ignorar”. Segundo ele, a crise afeta os preços dos alimentos, os sistemas energéticos e o transporte realizado pelos rios.