“O estado que sempre reivindicou liderança nacional agora se vê diante de sua maior fragilidade: operou a modernização sem calcular o preço de desmontar”
A decisão do ministro Flávio Dino, obrigando o governo de São Paulo a apresentar um plano de recomposição de seus pesquisadores ambientais em 30 dias úteis, revela algo maior do que uma falha administrativa: expõe o colapso silencioso de um modelo de governança que tratou ciência como custo e não como fundamento da vida pública. E quando a ciência recua, o clima avança.
São Paulo perdeu quase metade de seus pesquisadores ambientais em vinte anos. Extinguiu institutos, fundiu estruturas, adiou concursos, enxugou carreiras. O estado mais rico da federação passou a operar com um servidor de nível superior para cada 5.500 hectares de unidades de conservação — um índice de país sem recursos, não de potência econômica.
E o problema explode exatamente quando a emergência climática bate à porta. Entre recordes de queimadas, estiagens históricas, crises hídricas e vulnerabilidade urbana crescente, a equação paulista ficou desequilibrada. Afinal, trata-se do estado responsável por:
• um terço do PIB nacional,
• a maior estrutura industrial do país,
• o sistema hidrográfico mais impactado pela ocupação humana,
• milhões de pessoas expostas a extremos climáticos cada vez mais frequentes.
A decisão do STF recoloca o essencial no centro: não há política ambiental sem corpo técnico, nem metas climáticas sem ciência pública. Dino exige um plano, cronograma, metas verificáveis, critérios de reposição, concursos — e mais: quer respostas sobre CAR, PRA, reflorestamento e ações federais do ICMBio. Trata-se de uma leitura inequívoca da Constituição: omissão ambiental não é déficit administrativo, é violação de direito fundamental.
O estado que sempre reivindicou liderança nacional agora se vê diante de sua maior fragilidade: operou a modernização sem calcular o custo do desmonte. Extinguiu o Instituto Florestal, reduziu equipes, dissolveu estruturas, sem perceber que governança climática é feita de dados, especialistas e vigilância contínua — não de slogans.
A decisão do STF é um lembrete duro, mas necessário:
A ciência ambiental é a primeira linha de defesa contra o colapso climático. E nenhuma economia, por maior que seja, permanece de pé quando sua primeira linha cai.
Para São Paulo, o prazo de 30 dias é menos um ultimato e mais um convite: retomar a inteligência pública que jamais deveria ter sido abandonada.