Risco de estagflação?

Como nos alerta Keynes, o fato de que nosso conhecimento do futuro é flutuante, vago e incerto, torna muito difícil ter uma visão mais clara e responsável de como se distribuem consistentemente as perdas e os danos de decisões casuísticas e pragmáticas sobre os grupos sociais no presente e no futuro.

Paulo Roberto Haddad
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Paulo Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

Em Economia, a estagflação é definida como uma situação na qual ocorre, simultaneamente, uma estagnação ou, até mesmo, uma recessão econômica e altas taxas de inflação, como vivenciada no Brasil, no início da década de 1980. Quando analisamos a evolução da produção per capita do Brasil (o PIB per capita) desde 2014, podemos dizer que o quadro geral da economia é de estagnação, com dois anos de recessão (taxa de crescimento negativa). Quanto à inflação, que parecia estar domada nos últimos anos, há sinais de aceleração nos meses do ciclo da pandemia. Na verdade, se não houvesse o excelente desempenho do agronegócio brasileiro, estaríamos em profunda recessão econômica.

O ambiente de estagflação é de tragédia econômica. Milhões de desempregados sofrendo a degradação de suas condições de vida e, aqueles que estão empregados, assistindo o imposto inflacionário corroer o seu poder de compra, dia após dia.

Não creio que entraremos numa conjuntura de estagflação. O Banco Central tem o controle de políticas monetárias anti-inflacionárias e o Governo Federal, a coordenação de ações fiscais anticíclicas, pró-crescimento. Mas, o risco de uma estagflação persistirá se o Governo não conseguir reduzir a sobrecarga de incertezas que assombra a economia brasileira.

Recentemente, as incertezas têm se acumulado quanto ao futuro de uma política econômica que não se consolidou, quanto à cadência e à extensão da pandemia que se aprofunda, quanto ao próprio estilo de governar da atual administração do Governo Federal, que se tornou um multiplicador de incertezas no cenário internacional diante de sua desastrosa política ambiental.

O filósofo Jean Ladrière, da Universidade de Louvain/Bélgica, criticava a falta de perspectiva de longo prazo de muitos governos na busca de soluções para os problemas socioeconômicos e socioambientais da população. Numa sequência recorrente de políticas de intervenções casuísticas de curto prazo, constroem as suas contradições e armadilhas nas quais, muitas vezes, as portas de saída levam a resultados não esperados e ao desgaste político. Incapazes de superar a situação criada, deixam-se conduzir pelas exigências que emergem de suas próprias iniciativas. Popularmente, diríamos que a política econômica passa a ser implementada “da mão para a boca”.

Uma intervenção governamental, sem visão de conjunto, amplia o grau de incertezas das instituições e agentes econômicos para além daquelas que são típicas das dinâmicas instáveis das economias de mercado. Essa intervenção não pode ser eficaz quando os governantes assumem, recorrentemente, as crenças e atitudes de quem pensa modificar o curso dos acontecimentos apenas por seu alvedrio.

Como nos alerta Keynes, o fato de que nosso conhecimento do futuro é flutuante, vago e incerto, torna muito difícil ter uma visão mais clara e responsável de como se distribuem consistentemente as perdas e os danos de decisões casuísticas e pragmáticas sobre os grupos sociais no presente e no futuro.

Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

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